Sexta-feira, 10 de julho de 2026
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Quando soube que viajaria para o Irã, a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi evitar comparar culturas, costumes e modo de vida entre o que vivo e conheço do Ocidente com o que iria encontrar por aqui. Aprendi cedo que analisar sob minha lupa o Oriente seria um processo fadado ao fracasso; se trataria de uma análise cega, ofuscada por uma realidade distinta e que me levaria a voltar ao Brasil com falsas verdades já fabricadas desde a entrada no avião. 

Infelizmente falhei já na saída do aeroporto. Da primeira mulher que vi sem o hijab – a vestimenta tradicional feminina na cultura muçulmana – tirei uma foto da janela do carro, a caminho do hotel. Da segunda também, da terceira, da quarta, da quinta, até ter dezenas de fotos de mulheres apenas vivendo sua vida normalmente. Saindo de estabelecimentos comerciais, de repartições públicas, da universidade, buscando filhos na escola, dirigindo carros e motos. Acho que nunca me senti tão patético. Mas, é óbvio, não parei por aí. Eu tinha que perguntar para a primeira iraniana que conheci: aqui não é obrigatório às mulheres usarem o hijab? Não era o bastante me sentir patético, precisava também me prestar ao ridículo. A resposta foi educada, mas saltou aos olhos como se tratou de uma pergunta estúpida, ou – para me poupar da autocrítica –, como foi uma pergunta sob minha lupa ocidentalizada. 

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Estudantes universitárias em Yazda, Irã. Cerca de 60% dos estudantes universitários são mulheres.
(Foto: Julia Maudlin / Flickr)

Estão curiosos, eu sei. A resposta foi a seguinte:  o uso do hijab é obrigatório desde a revolução islâmica ocorrida em 1979, mas com o passar dos anos deixou de ser uma obrigatoriedade no dia-a-dia das iranianas. Amina, minha primeira amiga iraniana, fez a seguinte comparação: é como o uso do capacete para dirigir motos; quem não usa não é processado por isso.

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A maioria das mulheres no Irã são devotas do islamismo, seguem seus dogmas e usam as vestimentas tradicionais. Isso apesar das dezenas de lojas vendendo roupas femininas “ocidentais”. 

Como o preconceito não se perde do dia para a noite, eu precisava questionar mais. Perguntei para uma das guias que conhecemos sobre notícias que chegaram no Ocidente, específicamente da cantora Parastoo Ahmadi, que segundo a  organização não-governamental iraniana Abdorrahman Boroumand Center for Human Rights, foi condenada a 74 chicotadas por cantar sem o hijab em público e fazer críticas ao regime. No Irã, mulheres não podem cantar em público sem o uso das vestimentas tradicionais. Parastoo e sua equipe fizeram um acordo com a justiça e tiveram todas as condenações retiradas, desde que não repetissem o ato. Nossa guia achava que as condenações deveriam ter sido mantidas e nos informou que essa organização era controlada por Reza Pahlavi, príncipe herdeiro da  Dinastia Pahlavi, deposta na revolução Islâmica de 1979 e exilado nos EUA.

Há diversos outros casos parecidos de pessoas que tiveram condenações por descumprir a Sharia, conjunto de leis islâmicas vigente desde a revolução islâmica. Ela regula o uso do hijab, consumo de bebidas alcoólicas, padrões de vestimentas, regras para casamentos e comportamento feminino. Ao longo de quase cinco décadas o regime foi se abrindo, ficando menos rigoroso na fiscalização do comportamento popular. Aliás, caminho idêntico de nações com a predominância da fé cristã. No passado, muitas das leis brasileiras eram baseadas nos ensinamentos religiosos, algumas perduram até hoje; o presidente da república faz juramento solene com a bíblia em mãos quando toma posse, apenas para dar um exemplo. 

Estando aqui, fica evidente que a autodeterminação desse povo é outra. A enorme maioria da população, tanto homens quanto mulheres, defende seu modo de vida, apoia que a sua religião seja a base para suas leis.

Se você me perguntar se eu acho esse modo de vida opressor para as mulheres, machista, antiquado, vou responder com sinceridade: acho. Mas o que um morador de São Paulo tem que achar sobre como se vive no Oriente Médio? Será que não tenho esse julgamento porque minha visão de mundo é outra, porque tenho a tal da minha lupa ocidental? No Brasil, milhares de mulheres são assassinadas por ano e outras milhares são estupradas, na maioria das vezes pelos homens em que mais confiam. Existe opressão maior que essa? 

São as mulheres daqui que devem decidir o que é certo ou errado para elas. O que é opressor ou não. Prometo que se eu tivesse nascido no Irã lutaria por um país laico com direitos iguais entre homens e mulheres. Mas nada vai me convencer que possamos ditar a vida de uma civilização de milhares de anos que está há milhares de quilômetros de distância. 

Por fim, o mais importante: nunca devemos acreditar que qualquer ação dos EUA no Irã não seja exclusivamente pelos seus próprios interesses imperialistas. Não se “salva” mulheres de uma suposta opressão jogando mísseis em suas casas, matando crianças dentro de escolas, destruindo bairros inteiros. Na verdade, trata-se só de uma forma de dizer às iranianas como o Ocidente é o vilão da história e o verdadeiro opressor a ser combatido. 

(*) Tom Altman é economista e empresário. É diretor-geral de Opera Mundi.