Irã: amarrando as Estátuas de Dédalo
Narrativas fáceis contra o Irã e o perigo de aceitar como verdade aquilo que serve a interesses estratégicos de poder
Conta a lenda que as estátuas de Dédalo eram tão perfeitas, tão vívidas em seus traços, que pareciam humanas. Precisavam ser amarradas para não “fugirem” e saírem enganando as pessoas mundo afora, tamanha a ilusão de vida que produziam. A metáfora atravessou os séculos porque revela algo profundamente atual: nossa tendência a aceitar como verdadeiro aquilo que é estrategicamente construído e repetido com convicção. No debate internacional contemporâneo, certas narrativas operam exatamente assim – moldadas com precisão, reiteradas à exaustão por atores com interesses específicos, até adquirirem aparência de verdade incontestável.
O dia amanheceu com os Estados Unidos atacando o Irã, sem que houvesse provocação direta que configurasse legítima defesa imediata nos termos clássicos do direito internacional. A ação foi prontamente enquadrada por justificativas familiares: a alegada ameaça nuclear iraniana, o risco de proliferação, o apoio a grupos armados na região, o caráter autoritário e religioso do regime e a necessidade de proteger Israel e preservar a estabilidade do Oriente Médio. São “verdades” repetidas há décadas, formuladas com tal consistência que o cidadão comum já as absorve como evidências autoexplicativas. Mas a força da repetição não substitui a análise estrutural – e é precisamente isso que este artigo se propõe a fazer: amarrar essas “verdades” fáceis, já espalhadas pelo mundo, tal como se amarravam as estátuas dedálicas para que não saíssem a enganar quem as contemplava.
Para compreender o que está em jogo, é preciso olhar o mapa. O Irã não é apenas um regime teocrático controverso; é um território estrategicamente posicionado na encruzilhada entre Oriente Médio, Ásia Central e Sul da Ásia. Possui acesso ao Golfo Pérsico e ao Mar Cáspio, faz fronteira com múltiplos polos estratégicos e, sobretudo, detém a segunda maior reserva comprovada de gás natural do mundo, atrás apenas da Rússia, além de figurar entre os grandes detentores de petróleo. Geografia e energia explicam porquê o país ocupa posição estrutural no tabuleiro eurasiático.

O que está em jogo não é apenas a relação entre Washington e Teerã, nem apenas o equilíbrio regional envolvendo Israel. Trata-se de uma disputa mais ampla sobre a forma da ordem internacional em transição – entre um modelo ainda marcado pela primazia americana e uma arquitetura multipolar emergente.
(Foto: Adam Jones / Flickr)
Um Irã colapsando sob pressão das forças israelo-estadunidenses claramente não interessa nem à Rússia nem à China. Um Irã plenamente integrado ao mercado energético global poderia alterar significativamente o equilíbrio do fornecimento internacional, especialmente na Europa. Para a Rússia, cuja influência esteve por décadas associada à centralidade de seu gás, a emergência de concorrência relevante significaria perda estratégica. Para a China, altamente dependente de energia importada e vulnerável a gargalos marítimos como o Estreito de Malaca, o território iraniano constitui alternativa terrestre e o elo essencial na arquitetura da Iniciativa Cinturão e Rota. O confronto com Teerã, portanto, transcende divergências ideológicas: ele se insere na disputa mais ampla pela configuração da ordem internacional.
Essa dinâmica geopolítica conecta-se inevitavelmente à questão israelo-palestina. Israel mantém, há décadas, ocupação prolongada de territórios palestinos e expansão de assentamentos ilegais, sem enfrentar qualquer regime de sanções estruturais. Permanece plenamente integrado às redes políticas, militares e tecnológicas ocidentais, com apoio diplomático-militar consistente dos Estados Unidos e outros parceiros ocidentais. O contraste com o tratamento dispensado ao Irã revela a seletividade das respostas internacionais, frequentemente guiadas por alianças estratégicas e não por aplicação uniforme de princípios.
Narrativas políticas desempenham papel central nessa assimetria. A construção discursiva que apresenta Israel como vítima permanente e o Irã como ameaça absoluta simplifica conflitos complexos em esquemas morais binários. Os que assimilam as “verdades” fáceis contra o Irã desconhecem – ou preferem esquecer – que o país possuía um governo democraticamente eleito quando, em 1953, o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh foi derrubado por uma operação apoiada por Estados Unidos e Reino Unido após nacionalizar o petróleo iraniano. Em seu lugar consolidou-se a monarquia dos Pahlavi, cuja queda em 1979 marcou a retomada do poder por forças internas após anos de autoritarismo e alinhamento externo. Hoje, ao se aventar o retorno de herdeiros dessa dinastia como solução política para o Irã, ressurge a mesma lógica intervencionista que ignora a soberania iraniana. Reduzir a geopolítica a uma disputa entre bem e mal obscurece esses antecedentes históricos e os interesses estruturais que continuam moldando as tensões atuais.
O que está em jogo não é apenas a relação entre Washington e Teerã, nem apenas o equilíbrio regional envolvendo Israel. Trata-se de uma disputa mais ampla sobre a forma da ordem internacional em transição – entre um modelo ainda marcado pela primazia americana e uma arquitetura multipolar emergente. Nesse cenário, o Irã torna-se ponto de fricção estrutural, e cada episódio militar ganha dimensão sistêmica.
Há, ainda, um precedente preocupante que não pode ser ignorado. A intervenção política direta na Venezuela, com tentativas explícitas de promover mudança de regime por meio de reconhecimento de lideranças alternativas e pressão econômica extrema, abriu uma fissura grave no princípio da não intervenção. A normalização dessa prática – agora ecoada em outros contextos – fragiliza um dos pilares do direito internacional e da convivência entre Estados soberanos. Para o Brasil, cuja Constituição consagra a não-intervenção como princípio orientador de suas relações exteriores, esse não é um detalhe jurídico, mas um fundamento civilizatório.
O maior risco não é apenas a escalada armada, mas a naturalização das narrativas fáceis contra o Irã que a acompanham. Como as estátuas de Dédalo, são tão bem talhadas que parecem verdades absolutas – e, se não forem amarradas, continuarão saindo pelo mundo enganando até os mais instruídos. Cabe ao leitor exigir que Estados Unidos, Israel e as entidades lobistas que os sustentam amarrem as versões simplificadoras que nos são apresentadas como verdades incontestáveis. Porque, quando são engolidas sem questionamento, a opinião pública desavisada torna-se instrumento de uma engrenagem que fabrica consentimento para interesses estratégicos de poder – e acaba defendendo políticas que exploram, empobrecem e mantêm essa mesma opinião pública deliberadamente mal informada.
(*) Cláudia Assaf é Diplomata de carreira e internacionalista. As opiniões da autora não refletem as do Itamaraty.
























