Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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“A acusação de inércia que constantemente se faz ao ‘indígena’ é o cúmulo da má-fé. Como se fosse possível que um homem evoluísse de modo diferente que não no quadro de uma cultura que o reconhece e que ele decide assumir.” — Frantz Fanon, 1956

A produção de um frame, uma foto ou um enquadramento de filmagem, a organização estética do quadro e daquilo que ele contém, da forma e seu conteúdo, são processos reveladores no movimento da representação e do pensamento. Indicam coordenadas que nem sempre apelam ao objeto de desejo, mas a como desejá-lo – como já diria um filósofo esloveno sobre o cinema. E isso não é muito diferente quando se trata de propaganda e marketing, e especialmente quando se trata da representação midiática do outro, aquele outro que perturba justamente a fantasia de enquadramento adereçada à ele.

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O apresentador da Rede Globo, Luciano Huck, durante evento no Rio de Janeiro em maio de 2023. <br> (Foto: Sam Barnes / Web Summit Rio via Sportsfile / Wikimedia Commons)

O apresentador da Rede Globo, Luciano Huck, durante evento no Rio de Janeiro em maio de 2023.
(Foto: Sam Barnes / Web Summit Rio via Sportsfile / Wikimedia Commons)

Recentemente, o famoso apresentador global Luciano Huck esteve presente no Mato Grosso para a cerimônia do ritual Kuarup, praticado por diversos povos indígenas do Alto Xingu. O apresentador, que aparentemente já flertou com a ideia de uma carreira na política partidária  (como revelou em 2018 o próprio ex-presidente FHC), foi à região também acompanhado da cantora Anitta, e lá se encontraram com representantes dos povos indígenas, inclusive com o Cacique Raoni, com o intuito de gravarem a viagem para ser exibida no programa do Domingão, apresentado pelo próprio Luciano. Porém, como é cada vez mais difícil controlar os registros midiáticos que circulam nas redes, os planos para o programa tiveram que encarar a inconveniência de uma fala que parecia ser em off, feita para “fora” das câmeras. 

Em uma filmagem de bastidores, Luciano Huck cometeu um sincericídio revelador: com frases como “limpa a cultura de vocês aí” e “quanto mais o celular de vocês aparece, menos é a cultura de vocês”, o apresentador demonstrou tanto uma posição de autoridade pressuposta, ao dirigir a “cena ideal” de representação dos povos indígenas de acordo com a sua lógica ocidentalizada, midiática e  neo-colonial – um neocolonialismo que se apresenta pela fachada do progressismo e da “defesa dos povos originários” mas que delega a esses povos um enquadramento que restringe-os ao imaginário branco sobre como estes devem existir no mundo. 

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Ou seja, limitando-os à fantasia ocidental de alteridade que recai sobre os povos chamados “originários” ou “nativos” – como se estes fossem plenamente integrados à natureza, ou seja, não fizessem parte do mundo da “cultura” de maneira legítima, tal qual o ocidental. Luciano expressou qual o lugar do indígena no imaginário que ele ativamente produz. Sua posição é a de um diretor do “imaginário popular” no qual ele detém um quinhão (privado, diga-se de passagem), e “os indígenas” devem seguir seu papel no roteiro, evidentemente não escrito pelos mesmos. 

Mais esclarecedora ainda é a nota de Luciano após a circulação do vídeo: “Sobre a imagem em questão, registrada nos bastidores de uma gravação, é importante esclarecer: não se tratou de impor qualquer tipo de limitação cultural ou de consumo. Foi apenas uma decisão de direção de arte, um ajuste pontual dentro do contexto de um set de filmagem, nada além disso…”

Sua retratação ainda reconhece o fator “cenográfico”, a performance midiática, como algo explicitamente consciente. Basicamente, é como se afirmasse: “nossa compreensão artística é de que o celular ou as roupas que não sejam étnicas o suficiente, não devem pertencer ao mundo indígena, ao menos no que diz respeito à nossa direção de imagem.” Ora, nada mais revelador que isso, na medida em que é justamente essa a finalidade do produto oferecido pelo apresentador, ou seja, limitar os indígenas à fantasia neo-colonial sobre eles. Não à toa também setores explicitamente conservadores e reacionários, fora do eixo liberal-progressista, repetem jargões pejorativos e, no limite, racistas, ao questionarem sempre a legitimidade do “ser” indígena contra sua relação com bens triviais: o conservador que questiona “o índio de celular” [sic] ou “de Hilux” não está tão distante, no enquadramento do outro em sua fantasia ideológica, do próprio Luciano Huck. 

Em seu texto “Racismo e Cultura”, apresentado primeiramente como uma intervenção 1° Congresso dos Escritores e Artistas Negros em Paris, em Setembro de 1956, Frantz Fanon discorre sobre o tipo de relação que o colono estabelece com o colonizado, onde primeiramente “afirma-se a existência de grupos humanos sem cultura; depois, a existência de culturas hierarquizadas; por fim, a noção de relatividade cultural.” Por sua relação privilegiada com o desenvolvimento técnico – no caso em questão, a posição de mandante e diretor da produção midiática –, o colonizador instala o que Fanon chama de dominação organizada (que reflete-se, agora, na própria restrição paternalista à representação do outro, disfarçada de preocupação e preservação). 

Quase 70 anos atrás, Fanon já analisava como a preocupação em “respeitar a cultura das populações autóctones” não significa reconhecê-los enquanto sujeitos de sua própria história, mas antes, “se adivinha nesta tentativa uma vontade de objetivar, de encaixar, de aprisionar.” Chega a ser cômico quando, em sua nota de retratação, Luciano Huck segue à risca aquilo que já era descrito pelo revolucionário martinicano. Como publicado pelo apresentador em sua defesa:

“Minha relação com as comunidades indígenas no Brasil atravessa décadas. Sou, e sempre serei, defensor dos povos originários, de sua cultura, de sua territorialidade e de sua preservação. Dos Zo’é aos Yanomami, estive pessoalmente em dezenas de terras indígenas ao longo da minha trajetória. Eu conheço de perto essa realidade; não foi alguém que me contou…”

Já alertava Fanon, “frases como: ‘eu conheço-os’, ‘eles são assim’, traduzem esta objetivação levada ao máximo. Assim, conheço os gestos, os pensamentos, que definem estes homens” (FANON, 1956). Em nome da “preservação” dita-se ao outro quem ele é e os limites de quem pode e deve ser, velado sob o falso manto do progressismo multicultural que não passa, quando muito, de filantropia barata e auto-promoção dos aclamados “benfeitores”. Na posição de proprietário dos meios de produção midiáticos, Luciano justifica-se dizendo se tratar “apenas de uma decisão da direção de arte”, exemplificando perfeitamente como a “perfeição dos meios de produção provoca fatalmente a camuflagem das técnicas de exploração do homem, logo das formas do racismo” (FANON, 1956). 

Para Fanon, a questão central é se emancipar da dicotomia imposta pelo mundo colonial para, aí sim, “assumir o relativismo recíproco de culturas diferentes” que possam finalmente se enriquecer reciprocamente. Contra isso, verte-se a nova ideologia de dominação onde, com uma nova atitude, “os costumes, tradições, crenças, outrora negados e silenciados, são violentamente valorizados e afirmados.” Essa valorização e afirmação violenta se traduzem perfeitamente na frase que sugere “limpar a cultura” indígena, onde revela-se a fantasia branca sobre o nativo isolado do tempo, da história e da totalidade social, um nativo que serve à ideologia neocolonial de valorização do exótico “conservado”, uma suposta preocupação que atualiza as relações coloniais no imaginário contemporâneo. 

(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador do Centro de Formação.