Terça-feira, 27 de janeiro de 2026
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O professor Luis Felipe Miguel (daqui por diante LFM) acaba de publicar um texto em que responde às críticas que fiz a ele.

LFM começa sua resposta afirmando que eu, Valter Pomar, considero “errado formular críticas” que atinjam “o nosso lado”. Este seria, na opinião dele, o “ponto central” de minha posição.

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Marcha na Espanha contra o golpe na Venezuela, em maio de 2019. (Foto: Txeng Meng / Flickr)

Marcha na Espanha contra o golpe na Venezuela, em maio de 2019.
(Foto: Txeng Meng / Flickr)

Como sabe quem acompanha minimamente o que eu escrevo e falo, isso simplesmente não corresponde aos fatos. Aliás, é muito comum que colegas petistas me acusem exatamente do contrário, a saber, de que eu seria excessivamente crítico, inclusive publicamente, ao PT e aos nossos governos.

Portanto, vou divulgar amplamente esta crítica de LFM, como prova de que quase tudo é relativo.

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O “ponto central” de minha divergência com LFM, exposta no texto cujo endereço postei acima, não diz respeito ao direito abstrato de criticar. Minha divergência “central” diz respeito às posições de LFM acerca da Venezuela e do sequestro de Maduro e Cilia.

Por isso mesmo, embora LFM fale sobre outros assuntos (China, Putin, Lula, Irã etc.), me atribuindo, direta ou indiretamente, posições que não são as minhas, vou tentar manter o foco no tema Venezuela.

Na sua resposta, LFM diz que na minha opinião seria “errado lembrar que o governo Maduro era uma ditadura, porque o mais importante é protestar contra a agressão do imperialismo estadunidense”.

A frase entre aspas é de LFM, mas do jeito que está escrito um desavisado pode achar que o raciocínio expresso nesta e noutras similares seria de minha lavra. Assim sendo, registro: eu não penso isso que LFM escreveu. Não considero que o governo Maduro seja uma “ditadura” e, também por isso, acho mais importante ainda protestar contra a agressão militar imperialista e contra o sequestro.

LFM diz que eu me incomodo com o fato dele, “ao discutir o sequestro de Maduro”, trabalhar com “conjecturas sem provas”. E reapresenta suas razões para adotar este método. Como já expliquei anteriormente, neste caso concreto não se trata bem de um “incômodo”, mas sim de uma repulsa: afinal, considero que as conjecturas de LFM contribuem para dar credibilidade à “narrativa” apresentada pelo governo Trump.

Neste caso específico do ataque, sequestro e chantagem, LFM transforma sua ignorância acerca dos fatos em pretexto para conjecturar. E diz que fazer isso é “análise de conjuntura”.

LFM acha que esta minha crítica seria unilateral. Num certo sentido, ele tem razão; afinal eu tenho lado no conflito: estou com a Venezuela contra os Estados Unidos. Mas noutro sentido LFM está errado: minha posição acerca do que ocorreu não é apriorística, mas sim baseada nas fontes de que disponho, que me levam a concluir que as especulações de LFM estão erradas.

O problema é que LFM age, nesse caso, como se ignorância fosse argumento. Ao mesmo tempo, desqualifica quem tem certezas a favor da Venezuela como “militância”.

Muitas vezes acontece de nós militantes confundirmos desejo com realidade. Mas neste caso concreto, quem está transformando “desejo” em realidade é LFM.

LFM também me atribui a seguinte posição: “qualquer análise sobre os acontecimentos deve ser guiada pela conveniência de não prejudicar o ‘lado bom’ da disputa”.

Como já comentei anteriormente, essa não é minha posição. Pelo contrário, acredito que se o “lado bom” não tiver a verdade ao seu lado, a tendência é que ele venha a ser derrotado. Nesse sentido, eu considero que a verdade tem um valor “instrumental” para nós: é uma arma preciosa. Mas buscar a verdade não é igual a fazer especulações sem consistência.

LFM, obviamente, acha que a sua (dele) análise é consistente.

Segundo ele, se depender do que ele insiste ser minha posição, “não se pode discutir se houve ou não algum tipo de acerto de Delcy Rodríguez com Donald Trump”.

Veja: poder discutir, pode. Tanto pode, aliás, que estamos discutindo. O problema é que os “argumentos” de LFM não procedem.

LFM, obviamente, não concorda com isso. Pelo contrário, ele chega a dizer que “não há mais dúvida de que esse acordo está em andamento; a única questão é saber se ele precedeu a operação de sequestro de Maduro ou não”.

LFM, se acompanhasse a situação da Venezuela, saberia que até a véspera de seu sequestro Maduro estava buscando negociar com Trump. As razões são óbvias. E Delcy segue tentando negociar, por razões também óbvias.

Portanto, “não há mais dúvida” a respeito porque nunca houve dúvida a respeito, exceto para quem ouviu o galo cantar e não sabe onde.

O problema é que LFM transforma a tentativa de negociação em base para especular sobre se Delcy Rodríguez “negociou o fim” da revolução bolivariana.

Ao fazer isso, LFM se torna parte ativa de uma disputa política, na qual ele contribui com os propagandistas do governo Trump, que desde o dia 3 de janeiro vêm sugerindo que a agressão e o sequestro tiveram a cumplicidade da cúpula bolivariana.

Há algum fato que comprove esta hipótese? Segundo tudo o que sei, não.

É por este motivo, não por “militância”, mas devido ao que eu conheço acerca da realidade, que não posso “especular” a respeito. Nem posso ficar calado quando alguém “especula” desta maneira que LFM adota, entre outros motivos porque isso tem efeitos práticos na disputa política que está em curso.

O governo Trump partiu para a agressão militar na tentativa de obrigar o governo venezuelano a ceder. E usa o sequestro como base para fazer ainda mais chantagens. Por razões óbvias, o governo venezuelano é obrigado a continuar negociando. Quanto mais forte o governo venezuelano estiver, mais êxito ele poderá conseguir nesta negociação. Deixar correr a especulação a respeito de uma traição enfraquece o governo.

Aliás, convenhamos, como LFM reagiria se alguém começasse a “especular” a respeito de suas posições ou de suas atitudes, fazendo afirmações deletérias e justificando isso com base em que se trata apenas de uma “hipótese”?

Ademais, como disse em outro lugar, especular por que temos o direito de especular constitui, na minha opinião, uma atitude “irresponsável”, ou seja, de quem “não tem a responsabilidade de dirigir partidos, movimentos, governos, nem considera que seja papel de um militante orientar todo um entorno”.

LFM confirma não ser “dirigente de nenhum grupo político. Nem militante sou, na verdade”. Ele agrega que isso não o torna “irresponsável”, acusação que segundo ele eu teria feito como forma de lustrar meu “anti-intelectualismo”.

(Perdão, mas considerando o que as vezes ouço em alguns debates no meu Partido, esta acusação me dá vontade de rir. Mais uma razão para divulgar a crítica de LFM, comprovando que quase tudo é relativo.)

LFM confunde uma crítica à atitude dele, com uma crítica aos intelectuais em geral. Não tive essa pretensão, nem penso isso acerca da minha, digamos, “categoria profissional”. Meu ponto é mais simples: LFM se acha no direito de especular. E ele obviamente tem esse direito: como diziam no passado certos gringos, “este é um país livre”.

Mas quem fala o que quer, ouve o que não quer. E o que estou falando é que LFM não conhece os fatos; defende uma posição errada; sabe que sua posição é frágil; por isso usa como subterfúgio estar apenas apresentando hipóteses; e tudo isso resulta numa posição que, para ser gentil, atrapalha a luta pela soberania da Venezuela.

Se LFM fosse alguém de direita, eu acharia perfeitamente “responsável” esse comportamento. Mas ele não é. Logo, eu considero tal comportamento “irresponsável”, “compreensível” só pelos motivos explicados anteriormente. Motivos que ele mesmo confirmou quanto aos fatos, embora não goste do qualificativo, o que compreendo.

LFM faz uma série de acusações a meu respeito, entre as quais a de me atribuir a opinião de que “o conhecimento da realidade deve sempre ser entendido como instrumental. O dirigente, do alto de sua sabedoria, define quais aspectos da realidade devem e quais não devem ser levados em conta. Filtra as informações para que sua massa de manobra seja guiada do jeito que ele julga útil, nunca preparada para pensar com a própria cabeça”.

Eu não acho nada disso. Repito que quem conhece minha atuação sabe o quão distante estou desta caricatura desenhada por LFM. O que eu penso e repito é que estamos no meio de uma guerra, o Brasil é alvo desta guerra e nada do que falamos é neutro, inofensivo, sem consequências. E isso vale para todo nós, intelectuais com e sem partido.

Neste particular, um dos problemas de LFM, na minha opinião, é que ele acredita que um “intelectual orgânico” deve tomar lado a posteriori e a la carte, caso a caso. Em suas palavras: “a primeira tarefa não é buscar um lado para se alinhar”. Penso diferente: estamos “alinhados” desde o início, restando saber com quem e se temos consciência disso. E este alinhamento “na prática” incide sobre como nos posicionamos sobre cada cada episódio, cada processo, cada debate.

Cito a seguir alguns exemplos de “alinhamento na prática”.

LFM diz não acreditar que “a Europa ganhe alguma coisa se abandonar a OTAN para ficar sob o tacão de Vladimir Putin”.

Segundo esta descrição de LFM, a OTAN e a Europa seriam os polos passivos e a Rússia o polo agressor. Mas no mundo real a OTAN estava expandindo agressivamente sua presença até a fronteira da Rússia. E, como era óbvio, a Rússia tomou medidas defensivas (de uma forma que, na linguagem dos EUA e da OTAN, pode ser traduzida como “ataque preventivo”). Frente a isto, a maior parte dos governos europeus reagiu com uma histeria hipócrita e militarista, usando entre outros este discurso acerca do “tacão de Putin”, que LFM incorpora no seu texto.

LFM diz não acreditar que “o mundo esteja melhor sob uma hegemonia chinesa em vez de uma hegemonia estadunidense”. Diz também que os “princípios” da “democracia estadunidense”, de “respeito às liberdades individuais, sem dúvida nenhuma são muito melhores do que a ditadura chinesa”.

No mundo do livre-pensar-é-só-pensar, estas ideias de LFM dariam um debate muito interessante, até porque os chineses não dizem estar buscando substituir a hegemonia dos EUA pela deles; sem falar que isso seria virtualmente impossível. Mas no mundo real, a posição de LFM na prática contribui com quem defende o status quo, em nome – vejam que interessante – do “respeito às liberdades individuais”.

LFM diz, ainda, que “do lado dos propagandistas ocidentais, os interesses são mascarados por valores humanitários. Do lado dos que se apresentam como intelectuais marxistas, os valores são desprezados em nome da realpolitik.”

Na história, as coisas se passam de forma bem diferente: especialmente na era Trump, mas também muito antes, foi a esquerda, marxistas inclusive, quem verdadeiramente sustentou a defesa dos valores humanitários.

LFM diz também que “a hipocrisia ocidental é mais eficiente para ganhar a simpatia da opinião pública”.

Que eles foram mais eficientes, na maior parte do tempo, não tenho dúvida. Que eles estejam conseguindo ser agora, já não tenho tanta certeza. Mas em nenhum caso a “eficiência” deriva da “hipocrisia”, mas sim de inúmeros mecanismos: força econômica, controle dos meios, capacidade militar etc. Entre estes mecanismos se inclui a capacidade de cooptar intelectuais mundo afora, sem os quais fica mais difícil ganhar a “simpatia” da opinião pública.

LFM diz, ainda, que não podemos “desprezar as agruras das pessoas comuns em nome de divisões pretensamente mais amplas”.

Concordo inteiramente com ele. Mas como resolver estas agruras? Se não queremos apenas filosofar, mas também transformar o mundo, é preciso participar dos conflitos, correr riscos, fazer escolhas, tomar partido.

No lugar destas e de outras atitudes similares, LFM pelo visto prefere a cômoda posição de criticar os “dois demônios”, embora na hora de escrever sempre costeie o alambrado de um dos vários lados em disputa.

Um último comentário, este de natureza pessoal.

Meu avô, dois meses antes de ser assassinado pela ditadura, me escreveu uma cartinha que terminava assim: “Nada temas, procura conhecer a verdade, por mais dura e desagradável que ela seja. É a verdade a coisa mais importante e mais bela da vida”.

Pelos parâmetros que muita gente sustenta hoje, meu avô era um “stalinista”. Mas, contrariando certas “hipóteses”, ele dizia não ter medo da verdade. E agiu em coerência com isso. Pois bem: não tenho 1% das qualidades que ele tinha, mas procuro conhecer a verdade, mesmo que ela possa ser “dura e desagradável”. Não tenho medo da verdade e acho que ela é indispensável na luta pelo socialismo. Já a mentira, especialmente quando vem disfarçada de erudição, me provoca sentimentos impublicáveis.

Maduro e Cilia livres!