Quinta-feira, 3 de setembro de 2026
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O jornalista Rodrigo Vianna lançou recentemente o livro A espada de Bolívar: democracia e revolução na Colômbia (Autonomia Literária) no qual oferece uma leitura bem documentada da guerrilha urbana colombiana Movimento 19 de Abril (M‑19), enfatizando sua dimensão performativa: um grupo armado que soube transformar ações em espetáculo e visibilidade. A inauguração dessa guerrilha ao público ocorreu com o roubo da espada de Simón Bolívar, gesto simbólico que funcionou como lançamento e campanha de imagem — uma estreia pensada para a imprensa e para a opinião urbana. A investigação de Vianna aponta que o M‑19 operava tanto com fuzis quanto com imagens, entendendo a visibilidade como recurso estratégico e construindo mitos por meio de ações simbólicas, anúncios e ocupações espetaculares.

O autor sublinha o caráter praticista do M‑19: menos empenhado em um arcabouço teórico sistemático e mais interessado em experimentar táticas políticas e comunicacionais. A linguagem acessível, a recusa ao fraseado marxista clássico e a aposta em ações de alto impacto público deram ao grupo apelo urbano e capacidade de surpresa. Essas escolhas, porém, trouxeram custos: fragilidade organizacional, dificuldade em institucionalizar bases sociais e limites para a construção de um projeto político duradouro.

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Essa ambivalência do movimento é enfrentada por com honestidade, já que o M-19 proclamava a democratização profunda ao mesmo tempo que legitimava julgamentos e execuções em nome do povo. A tensão entre fins democráticos e meios violentos atravessa a narrativa. A imagem que o autor retoma, “com o fuzil em uma das mãos e a espada de Bolívar na outra”, sintetiza essa contradição: insurgente e nacionalista, performático e messiânico, retoricamente democrático e, por vezes, autoritário na prática.

O livro acompanha a transição do M‑19 para a via institucional, com a formação da ADM‑19, a participação na Constituinte de 1991 e o declínio eleitoral subsequente, apontando fatores internos e externos que explicam o esvaziamento partidário. Internamente, a hierarquia militar e a falta de trabalho de base dificultaram a construção de estruturas partidárias locais. Externamente, assassinatos políticos e resistência das elites limitaram a consolidação. O livro mostra que, embora o grupo tenha influído decisivamente na Constituição de 1991, o projeto partidário não se consolidou.

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Ecos performáticos no estilo político de Gustavo Petro

Na minha leitura, parte do legado simbólico e tático do M‑19 reaparece no estilo político de Gustavo Petro. Não atribuo a Vianna a responsabilidade exclusiva por essa interpretação, tomo-a como uma inferência do resenhista a partir das continuidades simbólicas que o autor descreve. Petro não foi membro da cúpula do M‑19, mas incorpora traços de uma cultura política que valoriza a cena pública e a comunicação como instrumentos centrais. Essa herança ajuda a explicar um governo marcado por gestos simbólicos potentes, teatralidade e ênfase na visibilidade, ao mesmo tempo em que revela desafios de institucionalização e de gestão cotidiana.

Vianna contribui de modo significativo ao elucidar a dimensão simbólica e comunicacional do M‑19, oferecendo uma leitura que amplia o repertório analítico sobre as guerrilhas latino‑americanas. A utilização criteriosa de fontes e a adoção de uma perspectiva de longa duração enriquecem a argumentação. Todavia, persistem lacunas: a obra beneficiaria de um aprofundamento comparativo com outras experiências guerrilheiras, em especial as colombianas — ELN e FARC —, e de uma investigação mais detida sobre as tentativas de articulação entre esses grupos na denominada Coordenadora Guerrilheira Simón Bolívar (CGSB). Essa ampliação permitiria evidenciar com maior nitidez as divergências teóricas e operacionais entre o M‑19 e as guerrilhas de matriz rural e camponesa. Ademais, seria frutífero examinar com maior acuidade as repercussões sociais locais das ações do M‑19, ou seja, as percepções e reações das comunidades urbanas e rurais ao espetáculo insurgente para além da cobertura jornalística.

Rodrigo Vianna entrega um estudo que combina rigor e sensibilidade interpretativa. Ao tratar o M‑19 como fenômeno performático e praticista, o autor fornece ferramentas úteis para compreender tanto o passado violento quanto as continuidades simbólicas que chegam ao presente político colombiano. O movimento escreveu sua história com imagens e símbolos — e com tiros, bombas, mortes e violência — deixando um legado ambíguo: capaz de ampliar a arena democrática e, simultaneamente, de reproduzir práticas autoritárias. A leitura é recomendada para quem quer entender as interseções entre espetáculo, violência e democracia na Colômbia contemporânea.

(*) Jackson Ribeiro é politólogo, doutor em Economia Política Mundial pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e coordenador de Formação na Diretoria de Formação Política da Fundação Perseu Abramo (FPA).