Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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O cenário atual desmente aqueles que, com discurso triunfalista, previam uma eleição resolvida no primeiro turno a favor de Lula. Ainda há tempo de despertar para a realidade. A extrema direita vem mostrando uma resiliência eleitoral muito grande, além de mais uma vez revelar que está incrustada no aparato judicial e no Estado brasileiro. 

Os escândalos envolvendo os Bolsonaro não decidirão a eleição, sobretudo com o avanço na publicação das conversas do banqueiro Daniel Vorcaro com diversos agentes do poder no Brasil. As revelações envolvendo o filme “Dark Horse” e a relação promíscua abertamente corrupta de Flávio Bolsonaro com Vorcaro não feriram de morte sua campanha e tendem a se misturar à avalanche de informações que está por vir. Mesmo com os ataques promovidos pela família Bolsonaro junto ao imperialismo estadunidense à soberania nacional brasileira e, particularmente, ao PIX, a força eleitoral da extrema direita continua significativa.

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Para piorar a situação, o elenco dos principais candidatos à eleição presidencial é marcado por figuras de direita e de extrema direita, que tendem, no segundo turno, a se aliar ao projeto de Flávio Bolsonaro.

A campanha do presidente Lula parece estar apostando numa repetição da estratégia de 2022: substituir a mobilização a quente e o enfrentamento a partir de um projeto de país fortemente identificado com as classes populares pela luta centrada na rejeição ao bolsonarismo, seguida de um programa “frio” de políticas sociais. Essa estratégia é capaz de mobilizar as classes médias progressistas e moderadas, além das camadas mais pobres identificadas com o lulismo. Porém, abre um caminho enorme para que uma expressiva parcela das classes trabalhadoras, descontentes com seu nível de vida, siga flertando com o discurso “anti-sistema” da extrema direita. 

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante ato de campanha em Juazeiro do Norte, no Ceará. <br> (Foto: Ricardo Stuckert / Lula Oficial)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante ato de campanha em Juazeiro do Norte, no Ceará.
(Foto: Ricardo Stuckert / Lula Oficial)

Queremos então, antes de tudo, afirmar que a estratégia de apostar tudo no público de centro não deveria nortear a campanha. É preciso disputar as camadas populares desiludidas com os efeitos do neoliberalismo e das reformas antipovo que se fortaleceram no país no pós-golpe, que precarizaram a vida popular. 

A aposta na moderação, na sinalização ao mercado, na defesa de mais ajuste fiscal, de mais “arrocho”, de mais corte de gastos, não fará com que o mercado defenda o quarto mandato de Lula. A entrevista do presidente ao Jornal Nacional foi uma lembrança muito importante para saber a posição da burguesia: ela não vê problema em apoiar figuras da extrema direita se ficar demonstrado que elas darão “menos trabalho” para a execução de seu programa, sobretudo depois da demonstração de força dada ao bolsonarismo com as condenações de seus líderes pelo STF.

Flávio Bolsonaro, ao se colocar como “bolsonarista moderado”, sem “ânimos golpistas”, sabe muito bem que, para o grande capital, um gestor da ordem dominante, abertamente entreguista, abertamente subordinado aos Estados Unidos, e que tem compromisso absoluto e total com a destruição dos direitos da classe trabalhadora – políticas sociais, SUS, as universidades públicas e a privatização de todas as estatais – é extremamente funcional. Sobretudo nesta quadra da história, onde a burguesia está decidida a avançar na realização de algo que há muito tempo deseja: atacar estruturalmente a obrigatoriedade do orçamento com saúde, educação e no pagamento da previdência vinculado ao salário mínimo. 

Nesse momento, há quase 30 dias do processo eleitoral, se a campanha do presidente Lula não apresentar um projeto de país bem delimitado, um horizonte de futuro, e insistir na defesa do arcabouço fiscal, na defesa dos marcos da política de austeridade, essa eleição pode terminar de maneira desastrosa. A extrema direita pode voltar ao governo aproveitando-se de uma campanha que não está empolgando, que enfrenta dificuldade de agitar até mesmo as bases lulistas. Na juventude, essa falta de ânimo é ainda mais dramática. 

Os dados mostram que a maioria da juventude brasileira tem inclinações à direita e à extrema direita. Os comícios tradicionais se mostram espaços frios, sem vida, sem empolgação, sem ânimo. A verdadeira “salada de alianças”, sem nenhuma clareza de programa, que subordina frentes progressistas a atores totalmente envolvidos em práticas fisiológicas, percebidos pela juventude como figuras do passado, piora a situação. A falta de bandeiras claras de enfrentamento e de convocação à luta afasta ainda mais os jovens. 

Em 2026, novamente aposta-se somente no medo e na rejeição a Bolsonaro como fator mobilizador. Nem mesmo bandeiras acertadas, como o fim da escala 6×1, estão sendo usadas como meio mobilizador de enfrentamento e agitação. Em nosso entendimento, porque a campanha corre deslocada de um conjunto de medidas que apontem um horizonte capaz de afastar camadas populares, sobretudo da juventude, dos discursos sedutores do mercado neoliberal e da extrema direita. 

O medo, embora um afeto muito importante na política, não é suficiente para criar uma onda no momento eleitoral. Em 2022 acabávamos de sair do pesadelo da COVID e ação criminosa de Bolsonaro naquele período ainda latejava no povo. Hoje a conjuntura é outra. 

Precisamos de muito mais que o medo. Precisamos de um projeto de avanços. Um projeto que avance confrontando os interesses da burguesia, que defenda radicalmente a soberania nacional, que seja aberta e declaradamente anti-imperialista. Precisamos de um projeto que proponha a derrubada do novo teto de gastos e da austeridade fiscal, a reversão das privatizações da era Bolsonaro e Temer, o enfrentamento do endividamento recorde das famílias a partir da diminuição dos juros no cartão de certidão do cartel bancário, o fim da autonomia do Banco Central que mantém a taxa básica de juros da economia, a taxa Selic, em 14%; a segunda maior do mundo.

Precisamos retomar a reforma agrária, mas também retomar a bandeira da reforma urbana, capazes de atacar a especulação imobiliária que está inviabilizando os aluguéis populares e das camadas médias, além de apontar para uma reforma geral no sistema de transporte público e mobilidade urbana. 

Precisamos mudar radicalmente o modal de transporte do país, investindo num sistema metro-ferroviário, que o Brasil já ensaiou ter e foi desfeito décadas atrás para atender aos interesses do capital estrangeiro. É urgente fortalecer a educação e a saúde, enfrentar a crise e o apagão de professores e professoras, o esgotamento e adoecimento dos funcionários públicos na ponta dos sistemas de saúde, de educação, de cultura, de assistência social.

O Brasil não pode voltar para as mãos da extrema direita. Mas, para isso, é preciso de um programa a quente, que mobilize e agite o povo. E essa é uma grande dificuldade do lulismo, que já mostrou, diversas vezes, ter uma relutância estrutural em fazer mobilização de massas, em politizar, em confrontar, embora tenha demonstrado eficiência em diversas campanhas eleitorais. Ocorre que algo está mudando na sociedade. A mensagem atual do presidente Lula tem um apelo muito maior em trabalhadores e trabalhadoras acima de 40 anos. Mesmo para fins de vitória eleitoral, é necessária uma mensagem de futuro. É preciso despertar a consciência do povo, sobretudo da juventude.

Devemos construir um outro horizonte de país e confrontá-lo com o projeto de destruição nacional e de rebaixamento neocolonial do Brasil que a extrema direita apresenta.

Iniciativas como o manifesto da bancada da esquerda radical são muito importantes, porque ajudam a politizar o debate eleitoral, a disputar na sociedade à esquerda, a confrontar o projeto neoliberal e a abrir as avenidas da revolução brasileira. O manifesto da bancada da esquerda radical, bem recebido inclusive por setores à esquerda no petismo e no progressismo, é uma importante pista sobre como podemos e devemos polarizar do ponto de vista ideológico com a extrema direita. Estamos certos que aguçar as contradições é o melhor caminho. 

A mídia burguesa e o grande empresariado, como sempre, vendem o contrário e buscam tornar os setores populares reféns de sua narrativa. Eles dizem que a polarização é ruim, que é algo que precisa acabar. Sonham com um candidato anti-polarização. Nada mais falso. 

A polarização sempre existiu na sociedade capitalista. Polarização entre as classes, que devem apresentar projetos diferentes e antagônicos, pois, enquanto uns ganham lucros bilionários sugando o orçamento público com os juros da dívida, a maioria do nosso povo vive com somente um salário mínimo, endividada com o roubo dos bancos via cartão de crédito, sem terra no campo e com um cotidiano insalubre nas cidades. Esse país é uma panela de pressão prestes a estourar, e vender um cenário enganoso de “pacificação” é tudo o que as elites desejam. 

Esse é o momento para a campanha do presidente Lula dar um giro de 180 graus, mudar de rumo. Faltando praticamente um mês para a votação de 4 de outubro, esse é o momento. Caso contrário, um segundo turno, nas situações atuais, tende a ser muito arriscado, sobretudo sabendo que, no Sudeste e Sul, os governadores são todos de extrema direita, e eles farão todo tipo de manobra possível e inimaginável para garantir um governo federal alinhado aos interesses do imperialismo e da onda neofascista latino-americana. 

Repetimos: tá na hora de acordar. 

(*) Jones Manoel é Historiador, educador popular, doutorando em Serviço Social pela UFAL e candidato a deputado federal pelo PSOL em Pernambuco 

(*) Pedro Alcântara é Doutor em Ciências Sociais, professor e vice presidente do PT em Pernambuco 

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