Mídias digitais e a diluição da leitura
A crescente diluição da leitura pelas redes sociais serve aos princípios de um projeto social cada vez mais desimplicado politicamente da realidade, favorecendo a direita
Com a dispersão global das mídias digitais que funcionam em tempo real, virtualmente sincronizado e integrando a circulação da informação – e, assim, também de mercadorias – pelo globo, encontramos nessas primeiras décadas do século uma aceleração intensa e ininterrupta em praticamente todas as esferas da vida, promovida pelo sentido do desenvolvimento tecnológico (ou seja, orientado pela lógica do capital). Assim, a reorganização digital das mídias e da informação anuncia um novo tempo, ou uma mudança na experiência do tempo, que serve cada vez mais à imediatez do que pode ser chamado de capitalismo tardio.
Integramos uma realidade onde a especulação financeira e o capital fictício atualizam-se digitalmente, ao mesmo tempo em que a digitalização contorna antigas lacunas legais para explorar mercados antes teoricamente ilegais (como apostas, jogos de azar, contribuindo também para o desmantelamento de direitos trabalhistas com a plataformização da prestação de serviços). Uma realidade onde a opinião pública é mediada pela curadoria algorítmica de espaços digitais monopolizados por bilionários (e que possuem riqueza equivalente ao PIB de muitos países), passando a participar diretamente da política (como visto exemplarmente no 2º governo trumpista), interferindo globalmente em países de diversos continentes. Enfim, integramos uma realidade onde a experiência sensível é cada vez mais condicionada pelos estímulos midiáticos e metrificados de plataformas que operam – sem distinguir dia e noite – para capturar a atenção e o engajamento de todos nós, extraindo dados infinitamente.

A leitura é um hábito que frequentemente foi relegado às elites, e cada vez mais torna-se uma prática contrária ao modo de subjetivação das massas. A leitura pressupõe uma relação diferente com a mídia escrita, seja ela na tela ou no papel – e aqui não estamos falando da leitura operativa, funcional, mas da necessidade de imersão no texto.
(Foto: Nivo Pictures / Pexels)
O ponto fundamental na reorganização social do tempo está na infraestrutura da linguagem e do simbólico – seja pela oralidade, pela escrita ou, finalmente, em sua dispersão audiovisual – promovida pela digitalização. Essa última etapa só é possível com a infraestrutura digital, integrada globalmente por uma rede orientada por informações codificadas e o tensionamento da apropriação privada dessas informações, para entrarem no circuito da mercadoria e, por consequência, do valor.
Com isso, vemos a crescente dominação de uma experiência estética regida pela midiatização digital da voz e da imagem, onde toda experiência é encurtada, toda extensão é excluída e a subjetivação é reduzida à relação entre estímulo e resposta, entre o sujeito e a curadoria automatizada de conteúdos, conduzida pela algoritmização em plataformas que pertencem aos maiores bilionários da atualidade. Na lógica dos algoritmos prioritários das mídias digitais, toda simplificação, todo apelo ao estímulo “imediato” – seja pela ridicularização do outro ou de si mesmo, seja pela conspiração, seja pela espetacularização da violência, etc. – é recompensado.
Isso tem diversas consequências, em escala jamais vista, na medida em que o “modo de produção digital” alcança dimensões inéditas. Uma dessas consequências é a captura da experiência por uma relação midiática com o espaço e com o tempo. Essa nova relação irá produzir uma aversão à temporalidade ampla, ao mergulho em experiências que não sejam limitadas pela temporalidade desse formato: as mídias digitais hegemônicas nos tornam cada vez mais rasos, imediatos, não reflexivos – ou nem mesmo contemplativos. A consequência lógica da subjetivação produzida pelas mídias digitais hegemônicas é uma negação completa da herança cultural da humanidade na escrita e na oralidade, é uma imbecilização pelo hiper-estímulo, é uma produção de indivíduos automatizados e atomizados, onde sua relação com o mundo é mediada por dispositivos que partilham de “interesses” opostos à politização, ou à emancipação política da maioria.
Voltando às consequências desse processo, é fundamental apontar à tendência de abdicação à leitura. A leitura é um hábito que frequentemente foi relegado às elites, e cada vez mais torna-se uma prática contrária ao modo de subjetivação das massas. A leitura pressupõe uma relação diferente com a mídia escrita, seja ela na tela ou no papel – e aqui não estamos falando da leitura operativa, funcional, mas da necessidade de imersão no texto. Por mais que a leitura seja um imperativo hoje – na medida em que lemos tweets, manchetes, outdoors, letreiros na rua, memes e muito mais –, a experiência de imersão em um texto que demanda concentração e tempo é cada vez mais sabotada. O “projeto” de subjetividade inerente à individuação das mídias digitais é informado e formado pela imediaticidade dessas próprias mídias, de tal modo que se torna quase tentador falar de uma sociedade pós-literária – como foi dito pelo filósofo Peter Sloterdijk[1] –, ou seja, uma sociedade onde o texto é reduzido à sua funcionalidade na economia-política das mídias digitais e o livro, a escrita e a literatura perdem sua função de síntese antes fundamental.
Com a leitura relegada aos 280 caracteres de microblogs, ou aos textos sensacionalistas e jargonizados em redes como Facebook ou legendas de fotos do Instagram, a experiência da temporalidade textual, fundamental para o tipo de introspecção própria à essa experiência simbólica, se esvai gradualmente. É como se estivéssemos vivenciando um processo de aprisionamento imaginário do texto, onde as condições que propiciavam o trabalho do simbólico, ou seja, o trabalho da dialetização na escrita e na leitura, são fragmentadas. Essas condições estão em jogo e são articuladas em termos frequentemente utilizados, como “economia da atenção”, ou a relação de condicionamento entre estímulo e resposta nas mídias digitais, mas também perpassam a precarização do trabalho, a perda dos horizontes de expectativa, a desvalorização da formação e a pulverização da subjetividade neoliberal encarnada no chamado sujeito-empresa.
Todos esses diagnósticos colocam um imperativo antiliterário quase como inescapável em nossa realidade. Em 2024 estimou-se que desde 2020 houve uma redução de quase 7 milhões de leitores no Brasil, sendo “o consumo rápido de conteúdos fragmentados, como postagens curtas e vídeos rápidos nas redes sociais” um dos fatores fundamentais desse decrescimento. Os impactos sociais, culturais e políticos desse decrescimento são evidentemente observáveis, mas curiosamente são celebrados em vários campos da esquerda, mesmo a supostamente radical. A redução da percepção crítica é ignorada, na medida em que visualizações e seguidores parecem compensar a perda do engajamento político. Isso é obviamente um erro.
Na medida em que a política é reduzida à métrica das redes, somos todos rendidos à despolitização do digital. A verdade inconveniente se mostra a seguinte: o horizonte pós-literário é uma vitória da direita, e na medida em que somos convencidos de que entregar conteúdos mastigados é o realismo do jogo, somos reduzidos ao realismo político que é anti-radical, ou seja, anti-político. Como foi dito em outro texto, a organização digital contemporânea da informação – prioritária, monopolista, imperial – serve a um princípio totalmente contrário à emancipação política da qual somos partidários.
A crescente diluição da cultura literária serve, evidentemente, aos princípios de um projeto social cada vez mais desimplicado politicamente da realidade. Nesse contexto torna-se cada vez mais urgente militamos pelo contrário: a leitura torna-se cada vez mais uma prática de resistência – para usarmos essa palavra já datada – contra as tendências reativas do contemporâneo. Quando executivos das Big-Techs limitam o tempo de tela dos próprios filhos, ao mesmo tempo em que estimulam a leitura, deveríamos perceber aí um sinal do que realmente está em jogo na disputa cultural e política de nosso tempo.























