Sexta-feira, 27 de março de 2026
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Em 1843, o bispo Samuel Ajayi Crowther desenvolveu o primeiro dicionário Yorubá-Inglês. Nascido na chamada Yorubálândia, Samuel foi feito escravo por diversas vezes, até ser finalmente libertado, passando à custódia de missionários europeus. Nesse processo, ele se converte ao anglicanismo, se tornando o mais conhecido cristão africano do século 19. Grande abolicionista, o bispo tinha como objetivo codificar o Yorubá, até então uma língua tonal de caráter oral. Nesse processo, suas traduções materializaram o que já se pensava sobre Èṣù (Exú) – a primeira estrela criada por Olódùmarè (o Deus Supremo dos Yorubás) –, colocando o orixá como o diabo, numa transferência cultural que equalizou divindades distintas, e com papéis distintos em cada uma das religiões.

O ato de Crowther foi apenas a consequência lógica de um processo secular. Já em 1741, antes do colonialismo inglês unificar os povos Yorubás e outras etnias no que conhecemos como Nigéria, António da Costa Peixoto, em Obra nova de língua geral de Mina, identificou o orixá Èṣù e o vodun Legbá como demônios, numa tentativa de destruir o referencial social, cultural e religioso dos povos da chamada Costa dos Escravos. Esse processo, que se solidificou no Brasil como uma verdade absoluta, é um dos principais fatores responsáveis pelo chamado racismo religioso, que é nada mais que uma faceta do velho e atual racismo à brasileira. De responsável pelos caminhos, pelos mercados, pela comunicação, língua e outros aspectos do movimento – sendo ele mesmo uma divindade dialética – , Èṣù passou a ocupar o lugar de mal absoluto, transposto na maneira como grande parte da mídia, das igrejas evangélicas, e infelizmente, até pelo povo de santo enxerga o grande Òjíse (mensageiro).

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Exposição de longa duração do Museu Afro. <br> (Foto: Museu Afro)

Exposição de longa duração do Museu Afro.
(Foto: Museu Afro)

Mas o povo de santo, em sua maioria, tem resgatado a memória de Èṣù com a grandeza que ele merece. Responsável por guardar os corpos negros, por guiar seus devotos pelo mundo colonial, Èṣù é um símbolo de luta, igualdade, e revolta contra as opressões cotidianas. Um dos eventos mais importantes dos últimos anos, organizado pelos devotos de orixá em território Yorubá e diáspora é o “Èsù Is Not Satan” (Exú não é o diabo), celebrado todo dia 24 de dezembro, como forma de celebrar a divindade, expondo ao mundo sua verdadeira faceta, que não tem nenhuma ligação com as ontologias cristãs, tendo vida, cultura e valores próprios, oriundos do território Yorubá, e preservado do outro lado do atlântico, em países como Brasil e Cuba.

O intelectual brasileiro Clóvis Moura deu grande atenção ao orixá em sua obra O Negro, de bom escravo a mau cidadão?, de 1977. No capítulo “Um símbolo libertário: Exú”, Moura explora tanto a figura do orixá Èṣù, como das entidades intituladas “Exú” em outros cultos afro-brasileiros, como a Umbanda e a Quimbanda. Essa faceta de Èṣù como o mais humano dos orixás, ao mesmo tempo que usada para comprovar sua natureza diabólica –  basta observar como o seu símbolo, o Ogó (de caráter fálico), causou e ainda causa arrepios nos mais conservadores e racistas – também foi apropriada pelos negros e pobres em suas revoltas contra o racismo e a condição de classe precária.

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Toda essa dinâmica de recuperação da verdadeira imagem e representação Èṣù fazem parte das obras de artistas como Mario Cravo Neto, Pierre Verger, Mestre Didi, Moisés Patrício, Georges Liautaud, Rafaela Kennedy, Rochelle Costi e Juliana Araujo, dentre tantas outras que fazem parte da exposição Padê – sentinela à porta da memória. Ao resgatar a figura de sentinela dos orixás, das festas de candomblé, e da sua posição enquanto guardião do corpo, a exposição desmonta os esquemas coloniais de codificação de símbolos negro=africanos. A importância disso se dá na história, com o papel que as crenças e ritualísticas dos Yorubás, Fons, Bantus e Malês tiveram em diversas tentativas de derrubada do regime escravocrata no Brasil, Haiti, e outras nações de maioria negra. 

Mais do que revelar uma nova forma de olhar Èsù, numa decolonialidade que não tem fim em si mesmo, a exposição serve como lembrete de que os negros africanos, libertos ou não, também tinham uma divindade para a qual suplicar, sem a necessidade de um catequismo violento. Por outro lado, em 2026, ainda é necessário reafirmar que Èṣù não é o diabo, algo com o qual eu e centenas de milhares de pessoas convivemos diariamente. Portanto, Padê é mais uma importante iniciativa de combate ao racismo religioso, e um esclarecimento sobre uma das divindades mais importantes e múltiplas da África e da diáspora negra.

Padê – sentinela à porta da memória
De 21 de março a 26 de julho de 2026
Visitação: de terça à domingo, das 10h às 17h (permanência até às 1h)
Curadoria: Rosa Couto
Local: Museu Afro Brasil Emanoel Araujo
Portão 10, Av. Pedro Álvares Cabral, s/n – Vila Mariana, São Paulo – SP, 04094-050
Entrada gratuita. Terça a domingo e feriados das 10h às 20h (fechado às segundas). Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.

(*) Marco Aurélio, mais conhecido como Marcola, é estudante de história e fotógrafo documental nas horas vagas. Escreve e pesquisa o rap, o samba e outros temas da cultura popular brasileira.