Na camisa de Cabo Verde, 200 milhões de brasileiros enfrentaram a Argentina
A comoção por Cabo Verde revelou algo maior que o futebol: um Brasil que se reconhece na África não por caridade ou exotismo, mas por história, sangue, cultura e memória
A presença de Cabo Verde na Copa do Mundo, e sobretudo as façanhas do goleiro Josimar José Évora Dias, o Vozinha, já no primeiro jogo contra a Espanha, na primeira rodada da fase de grupos, despertaram a atenção dos brasileiros. Mas fizeram algo muito maior: construíram uma ponte atlântica entre o Brasil e os países africanos de língua portuguesa.
Não foi apenas surpresa esportiva. Foi reconhecimento no sentido mais profundo: o de ver a si mesmo no outro.

A conexão foi automática. Nós torcemos, choramos, vibramos com Cabo Verde. Queríamos muito que eles passassem para as oitavas de final. Nas redes sociais, brasileiros chamavam cabo-verdianos de irmãos, diziam “estamos juntos”, “vamos ganhar esse jogo com vocês”, fizeram memes em apoio aos Tubarões Azuis.
(Foto: Aboodi Vesakaran / Pexels)
A percepção, tantas vezes reforçada midiaticamente, de que Brasil e África são territórios separados, isolados, distantes e diferentes se mostrou limitada. Talvez até convenientemente manipulada para impedir que se veja o óbvio: existe uma aliança histórica, afetiva, cultural e política.
Uma transidentidade, como reconhecimento de que brasileiros e africanos não são povos estranhos entre si, mas partes de uma mesma história, separadas politicamente, porém capazes de se reconhecer imediatamente umas nas outras.
Cabo Verde abriu uma ponte que o Brasil fingia não ver
Depois de publicar minha coluna propondo um guia político-afetivo para torcer na Copa, passei a receber diversas publicações no Instagram com conteúdo semelhante. De forma mais simples, elas resumiam a torcida brasileira assim: primeiro, torcemos pelos latino-americanos; depois, torcemos para todos os países africanos.
Mas esta Copa talvez esteja mostrando algo ainda mais profundo: o inverso. Nós, brasileiros, talvez nos reconheçamos primeiro como africanos e depois como latino-americanos.
De fato, torcemos e vibramos muito pelo Paraguai, que eliminou a tetracampeã Alemanha logo nos 16 avos de final. Mas também apoiamos Senegal, Gana, República Democrática do Congo, mas nada se compara ao modo como o Brasil vestiu simbolicamente a camisa de Cabo Verde.
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A conexão foi automática. Nós torcemos, choramos, vibramos com Cabo Verde. Queríamos muito que eles passassem para as oitavas de final. Nas redes sociais, brasileiros chamavam cabo-verdianos de irmãos, diziam “estamos juntos”, “vamos ganhar esse jogo com vocês”, fizeram memes em apoio aos Tubarões Azuis.
É evidente que o confronto contra a Argentina nesta sexta-feira (3) realçou ainda mais esse peculiar patriotismo por Cabo Verde. Mas isso não explica tudo. Antes disso, é preciso olhar para a intensidade da emoção. Muitos comentários diziam que Cabo Verde x Argentina foi o melhor jogo da Copa. E realmente: teve cara e intensidade de final de campeonato.
O maior artilheiro desta Copa do Mundo, Lionel Messi, sendo defendido por um goleiro chamado Vozinha, vindo de um arquipélago com pouco mais de 500 mil habitantes, onde muitas pessoas jogam sem as condições materiais mínimas, como acontece nas nossas periferias. Essa identidade é imediata. É o futebol servindo como revanche histórica, o mesmo sentimento que faz o mundo oprimido amar a seleção brasileira.
O Ocidente construiu no imaginário coletivo a ideia de que a África é um só país, sem particularidades, sem diferenças regionais, sem conflitos próprios, sem complexidade histórica. Essa imagem foi massivamente absorvida também pelo imaginário brasileiro.
Mas, ao nos conectarmos via futebol com Cabo Verde, passamos a conversar diretamente com angolanos, moçambicanos e guineenses. Conhecemos influenciadores africanos e vimos expressões do quanto estavam emocionados por sentir que o Brasil realmente ama os africanos. Vários destacavam que, entre todos os países, somos o único que expressa esse carinho de forma tão espontânea.
O Atlântico não nos separa: ele guarda nossa memória
Isso parece lógico quando pensamos na própria construção do Brasil. Como brasileiros, também somos africanos. É o sangue africano, bem como o indígena, que nos forma.
O Atlântico que dizem nos separar foi alimentado por sangue negro. Não é um vazio entre dois mundos. É uma memória salgada da rota do sequestro, da violência e da sobrevivência. Em alguns trechos desse imenso lago, inclusive, a distância geográfica entre Brasil e alguns países africanos é menor do que entre estados brasileiros. Recife e Cabo Verde estão mais próximos do que Recife e Rio Grande do Sul.
Me ocorre, portanto, que a distância física nunca foi o obstáculo para uma maior aproximação. O isolamento sempre foi político, alimentado por escolhas econômicas e culturais das elites brasileiras.
As críticas recorrentes na imprensa ao esforço de ampliar a presença diplomática brasileira no continente africano, especialmente durante os governos Lula 1 e 2, ajudam a revelar essa resistência. Para parte do debate público nacional, olhar para a África ainda parece exigir justificativa. Como se essa relação fosse periférica, e não constitutiva da nossa própria história e identidade.
O amor de muitos africanos pelo Brasil, sobretudo nos países de língua portuguesa, é compreensível. Somos vistos como esse gigante negro que dominou o mundo com o futebol, que exportou novelas, música e cultura popular. Mas provavelmente muitos sentiam que esse amor era unilateral. Hoje veem que é bilateral.
E, a partir de agora, isso não se desfaz. Se um próximo governo brasileiro quiser ampliar parcerias com a África, terá muito mais apoio popular. O futebol está permitindo uma integração via povos. Uma paradiplomacia que tantas vezes se tenta construir por fóruns internacionais, agências e embaixadas, mas que a presença de Cabo Verde – e também de outras seleções, embora com os caboverdianos o magnetismo tenha sido maior – conseguiu realizar de forma orgânica.
O racismo que atravessa as arquibancadas
Há ainda outro ponto importante: entender que, apesar de estarem no mesmo continente, nem todos os países africanos se veem como aliados automáticos. Muitos africanos manifestam rejeições, principalmente, à África do Sul e ao Marrocos, principalmente, mas também a outros países da África muçulmana, por experiências de racismo explícito e xenofobia vindas desses países.
A solidariedade pan-africana existe. Mas não é ingênua.
No caso brasileiro, a torcida por Cabo Verde também não nasceu do confronto contra a Argentina. Ela já estava posta antes do jogo. O Brasil não escolheu torcer por Cabo Verde apenas porque jogava contra os argentinos. Escolheu porque viu nos caboverdianos algo de si.
Mas o adversário importava.
No caso brasileiro, a torcida por Cabo Verde também não nasceu do confronto contra a Argentina. Ela já estava posta. Já havia carinho, identificação, emoção e reconhecimento antes do jogo. O Brasil não escolheu Cabo Verde apenas porque jogava contra os argentinos. Escolheu porque viu ali algo de si.
O fato de Cabo Verde enfrentar a Argentina acionou outra camada do imaginário brasileiro: a rivalidade futebolística, a memória das provocações, a disputa simbólica em torno de Pelé, Maradona, Messi e Neymar – e também uma raiva mais dura, menos confortável, atravessada pelo racismo que parte da torcida argentina insiste em reproduzir.
Duas cenas do jogo entre Cabo Verde e Argentina me chamaram atenção e me fizeram pensar sobre como essa relação se constrói no imaginário popular – e sobre como ela impacta, inclusive, os esforços reais de integração latino-americana.
A primeira foi o vídeo que viralizou de argentinos jogando latas e outros objetos contra torcedores cabo-verdianos como forma de provocação. Isso não é provocação aceitável. Cânticos fazem parte do jogo, da rivalidade, da tensão de uma Copa. Arremessar objetos contra uma torcida adversária, especialmente contra uma torcida africana que já ocupava no estádio uma posição simbólica de minoria, não faz parte.
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É violência. É intimidação. É vexatório.
A segunda imagem foi a de um repórter negro estadunidense na arquibancada sendo hostilizado por argentinos, inclusive com ofensas racistas como “volte para o zoológico”. Isso não é aceitável. Não é tolerável. Não é admissível.
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Comportamentos desse tipo também são registrados em diversos jogos da Copa Libertadores da América. Não se trata de dizer que todos os argentinos agem assim, mas de observar uma recorrência incômoda entre setores de torcedores que conseguem acessar estádios, viajar para acompanhar partidas em outros países e fazer turismo no Brasil.
O futebol é vitrine. E, nessa vitrine, a Argentina aparece novamente diante de um problema que insiste em negar: o racismo que atravessa parte de sua cultura de arquibancada e de sua autoimagem nacional.
Por isso, a escolha brasileira por Cabo Verde não foi apenas antiargentina. Foi também ética, racial e histórica.
(*) Vanessa Martina-Silva é jornalista e repórter especializada em América Latina. Mestra em Integração da América Latina pela USP, cobre política, integração regional, colonialidade e disputas geopolíticas no continente. É diretora de redação da Diálogos do Sul Global e analista política do programa Rodamundo.
























