Quarta-feira, 5 de agosto de 2026
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Em 18 de julho de 2026, Breno Altman gravou um programa especial sobre nacionalismo para membros do canal de Opera Mundi no YouTube. A explanação reconstituiu a trajetória do nacionalismo ao longo dos últimos 250 anos a partir da obra de Jean-Jacques Rousseau, que considerava a nação como uma comunidade política. Sucederam-se grandes marcos do nacionalismo revolucionário – como a fundação dos Estados Unidos da América (1776), a Revolução Francesa (1789) e a Primavera dos Povos (1848) – até ocorrer uma inflexão: no final do século 19, houve uma transição do nacionalismo liberal para o nacionalismo imperialista, passando-se da ideia de “nação livre” para “nação superior”. Essa mudança abandonou o caráter de libertação que havia motivado os jovens nacionalistas no início do século 19 e que, mais tarde, influenciaria as lutas anticoloniais do século 20. Desde então, a abordagem do nacionalismo com base na “nação superior” tem se apoiado no racismo para oprimir nações que seriam “inferiores”.

Apesar da trágica mudança de sentido ao longo da história, o conceito de nacionalismo mantém-se em disputa e pode ser reivindicado em prol da emancipação humana. Diante disso, Altman conclui que “não é possível uma luta socialista consequente nos países periféricos que não seja também uma luta radicalmente nacionalista.” Considerando que atualmente temos uma grande oportunidade de desenvolver o nacionalismo brasileiro à esquerda, face aos ataques à nossa soberania somados ao falso patriotismo que graça no debate público, Altman defendeu que devemos criar uma cultura nacionalista que não se confunda com nativismo ou particularismo identitário. É preciso retomar o nacionalismo de libertação.

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Setores à esquerda combatem o que chamam de “identitarismo” para deslegitimar a luta pela inclusão social de grupos historicamente subjugados – um caminho errado para construir um nacionalismo progressista.
(Foto: ABCZ Associação Brasileira dos Criadores de Zebu / Flickr)

Buscando contribuir para essa construção, proponho pensar o nacionalismo a partir de um ponto de vista ainda muito negligenciado nas teorias políticas: a necessidade psíquica de pertencimento.

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Toda teoria política ou corrente ideológica tem, mais ou menos implicitamente, uma certa concepção de “natureza humana”. No caso dos contratualistas clássicos, como Hobbes e Rousseau, havia uma explícita intenção de definir a natureza humana, apesar da carência de ferramentas epistemológicas para aprofundar a abordagem da psique. No final do século 19, surgem os estudos de psicanálise e psicologia como áreas que se debruçam sobre o funcionamento da mente, o que representou um avanço para melhor delinear o que seja a tal da natureza humana e traçar rumos políticos com ela compatíveis.

De acordo com autores como Baumeister e Leary (1995), a necessidade psíquica de pertencimento é entendida como parte incontornável da experiência humana, que é social. A busca por conexão seria tão fundamental quanto comer. Para satisfazer a necessidade de pertencimento, as pessoas precisam se sentir parte de um grupo. Como relações de poder são estabelecidas entre seres humanos, é razoável supor que o pertencimento tenha reflexos políticos, de um modo ou de outro. No entanto, nem sempre tem havido clareza sobre a dinâmica entre necessidades psíquicas e relações de poder. Sabendo-se que um conceito precisa ser elaborado para que sua importância seja reconhecida na forma como nos organizamos, convido a pensarmos o nacionalismo como uma resposta política à necessidade humana de pertencimento.

Operando nos mais diferentes tipos de grupos sociais, como na família e nas comunidades religiosas, o pertencimento também é contemplado com a invenção da “nação”. Não é por acaso que, no século 21, num mundo que deu espaço a algumas décadas de desenvolvimento democrático, setores reacionários invoquem a nação como elemento de coesão social. Trata-se da necessidade de pertencimento se manifestando. Para setores conservadores, as diferentes identidades que emergiram nas democracias liberais são lidas como ameaça à identidade nacional. A mesma lógica imperial que faz supor que uma nação é superior a outras movimenta a reação no plano doméstico que pretende impor valores de um grupo ideológico sobre outros com base em uma suposta identidade pasteurizada sob a epítome da nação. Enquanto isso, setores à esquerda combatem o que chamam de “identitarismo” para deslegitimar a luta pela inclusão social de grupos historicamente subjugados – um caminho errado para construir um nacionalismo progressista. Como aponta bell hooks no livro Pertencimento: uma cultura do lugar, o verdadeiro pertencimento somente se sustenta onde há acolhimento às diferenças. Em Rebalancing the World [Reequilibrando o mundo], Carol Lee Flinders define a cultura de pertencimento como aquela na qual existem características como expressividade e inclusão.

A ausência de uma maior elaboração sobre a necessidade humana de pertencimento obscurece a consciência, que fica exposta a manipulações e crenças enviesadas. Quando enxergamos uma necessidade, temos a oportunidade de protegê-la e integrá-la em benefício de um projeto emancipatório. A instrumentalização do pertencimento tem sido muito bem explorada pela extrema-direita, que se organiza em torno do medo, do ódio ou da ganância. Resta à esquerda compreender como satisfazer o pertencimento de uma maneira saudável.

Com inspiração na reflexão apresentada por Altman, faço a aposta de que inserir o pertencimento no panteão das necessidades existenciais humanas mais básicas pode representar um novo ponto de partida para a construção de um nacionalismo democrático e republicano que combata vieses autoritários de superioridade e resgate o sentido de libertação que animou os nacionalismos insubmissos da história.

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(*) Larissa Ormay é especialista em gestão de políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação, bacharel em direito, mestre em ciência política e doutora em ciência da informação.