O ataque à Venezuela reafirma o poder estadunidense na América Latina e seu enfraquecimento global
O ataque à Venezuela expõe a velha lógica imperial: petróleo, sanções e golpes travestidos de defesa da democracia na América Latina
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, que incluiu o sequestro do Presidente Nicolás Maduro e a morte de aproximadamente 80 indivíduos, parece ter pego o mundo de surpresa. Os EUA vinham aumentando a pressão contra o país andino no último ano, intensificando as acusações contra Maduro e apreendendo petroleiros em atos que lembram a pirataria e que persistem até hoje. Esta ação unilateral é mais um episódio na longa história de interferência estadunidense na Venezuela e na América Latina. Uma análise histórica revela que a motivação não é a preocupação com a democracia ou os direitos humanos, mas sim o acesso ao petróleo.
Essa história não é recente. Já no início do século XX, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e a Itália realizaram um bloqueio naval à Venezuela depois que seu presidente, Cipriano Castro, se recusou a pagar uma dívida aos EUA e a indenizar os europeus por danos sofridos durante uma guerra civil no país. A Venezuela, então, prometeu 30% da receita aduaneira de seus principais portos para quitar a dívida. Os EUA continuaram a enviar navios de guerra para países caribenhos para assumir as alfândegas e pagar dívidas estrangeiras a si mesmos e a seus aliados; a prática foi conhecida de Corolário Roosevelt, que foi o principal instrumento de dominação dos Estados Unidos sobre a América Latina e Caribe na época.
A partir da década de 1940, com o petróleo se tornando a principal commodity de exportação, as empresas petrolíferas estadunidenses voltaram sua atenção para o país. O crescente interesse dos EUA sobre a Venezuela fez com que no final da década de 1940 o país mergulhasse em uma ditadura militar que correspondeu aos seus anseios imperialistas. Na década de 1950, os Estados Unidos condecoraram seu principal ditador, Pérez Jiménez, com a Legião do Mérito. Esta é a mais alta distinção dos EUA possível de ser concedida a um estrangeiro. O prêmio foi um reconhecimento aos esforços de Jiménez de garantir a presença de empresas petrolíferas estadunidenses na exploração do petróleo venezuelano.

O presidente Donald Trump discursa sobre economia no Horizon Events Center em Clive, Iowa, na terça-feira, 27 de janeiro de 2026.
(Foto: White House / Molly Riley)O presidente Donald Trump discursa sobre economia no Horizon Events Center em Clive, Iowa, na terça-feira, 27 de janeiro de 2026.
(Foto: White House / Molly Riley)
Após essa ditadura, foi estabelecido o Pacto de Punto Fijo, no qual inicialmente três partidos (depois dois: AD e COPEI, formalmente centro-esquerda e centro-direita, mas ambos elitistas) se alternavam no poder, excluindo o partido comunista (o partido mais ativo contra a ditadura que foi proscrito durante o período puntofijista). Esse arranjo durou até a eleição de Chávez em 1998 e foi elogiado por acadêmicos dos EUA como um exemplo de estabilidade institucional, enquanto as relações comerciais com os EUA prosperavam. A maior crise do Pacto de Punto Fijo ocorreu durante o Caracazo, em 1989, em protestos contra os programas de austeridade fiscal do presidente Carlos Andrés Pérez, da AD. Nesse contexto, Chávez tentou tomar o poder em 1992 à força, sendo preso, libertado e finalmente eleito em 1998, favorecido em um contexto de enfraquecimento dos partidos puntofijistas após a adesão à agenda neoliberal.
A eleição de Chávez é significativa por duas razões principais: primeiro, porque encerrou a rotação entre AD e COPEI no governo; segundo, porque priorizou agendas populares e reformas socialistas como prioridades políticas. Seu governo alterou a lei de hidrocarbonetos e colocou a PDVSA como controladora das operações de extração de petróleo no país em 2000; a partir de então, passou a ser retratado como ditador pelo mídia ocidental. Em 2002, Chávez sofreu um golpe com o apoio dos EUA, e em seu lugar foi colocado Pedro Carmona, presidente da principal federação industrial do país (FEDECAMARAS). Ele governaria por meio de decretos-leis. Essa forma “democrática” de governar agradou aos EUA, que foi um dos poucos países a reconhecer Carmona como presidente. Mas Chávez, que havia sido preso, foi libertado pela pressão popular e restaurado ao poder poucos dias depois do golpe.
Desde então, a Venezuela tem sofrido constante pressão dos EUA. Durante esse período, o governo chavista utilizou os altos preços do petróleo para financiar uma série de programas sociais. Muitos desses programas ainda estão em vigor hoje. Exemplos incluem programas populares de habitação, alimentos subsidiados e a emissão de documentos para toda a população. Todavia, esses programas entram em crise com a queda de 70% no preço do barril de petróleo por volta de 2014, que mergulhou o país em uma grave crise, com inflação e sucateamento em projetos sociais.
No entanto, foi sob o governo Maduro que a pressão se intensificou ainda mais, com o início das sanções contra a Venezuela, sob o pretexto de defesa dos direitos humanos. As sanções excluíram a PDVSA do sistema financeiro internacional. Elas também apreenderam os ativos da empresa nos EUA, onde a PDVSA possui uma cadeia de postos de gasolina e uma refinaria de petróleo sob a marca CITGO. Tudo isso ocorreu sob os auspícios do autoproclamado presidente Juan Guaidó, apoiado pelos EUA.
A própria ONU reconheceu que as sanções apenas agravaram a situação dos direitos humanos no país, uma vez que o financiamento de programas sociais e de saúde e educação públicas dependia do petróleo, cuja produção diminuiu a partir de 2017 devido ao bloqueio.
É importante mencionar que o petróleo venezuelano é “pesado”, difícil de refinar, e sua maquinaria requer manutenção constante. Os Estados Unidos, graças a longos anos de parceria, possuem a tecnologia necessária para isso. O bloqueio tecnológico da PDVSA desencadeou um efeito dominó econômico que piorou exponencialmente a vida da população e aprofundou a crise resultante da queda dos preços das commodities.
Em relação à alegação da “ditadura de Maduro”, a história demonstra que isso tem pouca importância para os EUA, que apoiaram a ditadura militar venezuelana e foram parceiros de um governo oligárquico até o final dos anos 1990. O verdadeiro problema do Chavismo para os EUA é que ele diminuiu drasticamente sua influência sobre o petróleo da Venezuela, embora os EUA continuem sendo o principal parceiro comercial do país. Além disso, o Chavismo abriu canais de participação política sem precedentes na história venezuelana. Também realizou uma série de assembleias constituintes que expandiram os direitos da população.
O ataque ao país e o sequestro de Maduro devem ser analisados neste contexto: trata-se de garantir recursos que os EUA consideravam seus. É por isso que Trump afirmou sobre o petróleo: “Foi o maior roubo da história da América. Ninguém jamais roubou nossa propriedade como eles fizeram.”. Ademais, os Estados Unidos deixaram claro no documento National Security Strategy (NSS) de 2025 que têm o objetivo de “Restaurar a dominância energética americana” em petróleo, gás, carvão e energia nuclear.
Com a invasão e retirada de Maduro à força, o governo manteve sua estrutura, governadores do PSUV reiteraram a continuidade normal de seus mandatos e o Chavismo ainda é a maior força política no país e segue no poder. No nível federal, a Vice-Presidente Delcy Rodríguez assumiu o cargo de presidente interina, apesar da bravata de Trump de que os EUA estão governando o país. Enquanto isso, Trump elogiou a “liderança muito forte” de Rodríguez. Rodríguez anunciou o que ela chama de “reforma parcial” da legislação de hidrocarbonetos do país, enquanto as empresas petrolíferas dos EUA pressionam para obter acesso mais fácil ao petróleo da Venezuela. Até agora, Delcy acena para os EUA e acena de volta para o povo, defendendo uma diplomacia destemida com os sequestradores de Maduro. Existem restrições internas na estrutura política para reverter as reformas que o Chavismo trouxe ao país. No entanto, acredito que, se não houver uma mudança rápida, os Estados Unidos podem tentar outro golpe. Isso não seria inédito, como já vimos.
As ações dos EUA sob Trump são uma adaptação do corolário Roosevelt, onde pressionariam e invadiriam países latino-americanos para construir sua hegemonia financeira. No entanto, no início do século XX, os Estados Unidos estavam construindo seu poder hegemônico. Hoje em dia, tal empreendimento é um sinal de seu poder e posição internacional declinante, apesar de ainda ser a potência mais forte no subcontinente latino-americano por uma grande margem, enquanto a China está diminuindo a diferença em nível global. Nas Relações Internacionais, soberania significa a capacidade de resolver autonomamente questões de política interna e externa. Os EUA interferem na Venezuela tanto internamente (apoiando presidentes autoproclamados) quanto externamente (sancionando e sequestrando presidentes legítimos).
Devo abrir um parênteses para ressaltar o papel brasileiro no isolamento da Venezuela. O Brasil negou a entrada da Venezuela no BRICS, se recusou a reconhecer a última eleição de Maduro e foi vagaroso em se manifestar diante das ameaças e dos assaltos piratas de Trump aos petroleiros venezuelanos, aderindo, na prática, à lógica do cerco e das sanções. Ao isolar um parceiro estratégico que fez questão de auxiliar o país com oxigênio no auge da pandemia e do negacionismo bolsonarista no estado do Amazonas, o Brasil expôs não apenas sua submissão à política externa dos Estados Unidos, mas também o grau de seletividade moral de sua própria diplomacia, pronta a falar em democracia enquanto abandona, na hora decisiva, quem ousa confrontar os interesses do imperialismo em nosso continente.
A dominância estadunidense na América Latina deverá ser cada vez mais clara nos anos vindouros. Ela vai em sentido inverso à perda de hegemonia global dos EUA para China, que faz com que a reafirmação imperialista sobre o nosso subcontinente seja um dever de sobrevivência dos Estados Unidos e seu modelo econômico. A invasão da Venezuela mostra que estão atacando os menos alinhados primeiro, mas isso não quer dizer que a parcimônia com relação às posições políticas dos EUA seja sinônimo de paz e tranquilidade para o povo. A história já nos prova que isto não basta.
(*) Bernardo Muratt possui doutorado em Economia Política Mundial pela Universidade Federal do ABC (UFABC). É professor de Relações Internacionais e Ciência Política e pesquisador da Agrarian South Network (ASN). Pesquisa imperialismo e burguesia no Brasil e em países periféricos.























