Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
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Na madrugada de 3 de janeiro, testemunhamos um dos atos de maior barbárie perpetrados pelo imperialismo estadunidense no século XXI: invasão e ataque militar, assassinato de 80 pessoas e sequestro do presidente e da primeira combatente de um país soberano. Este não é apenas mais um capítulo na longa agressão dos governos dos Estados Unidos ao povo e ao governo da Venezuela.

A invasão ao território venezuelano, realizada sob acusações fabricadas de “narcoterrorismo” contra o presidente Nicolás Maduro, é uma irrupção singular do rearranjo imperial que Donald Trump se arrogou como missão política. Diante dela e de seus fatos, diversas manifestações de solidariedade ao povo venezuelano e de repúdio ao infame ataque daquela madrugada sombria surgiram, especialmente nas plataformas digitais.

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Ainda que necessárias, muitas dessas manifestações e de seus comentários comete o equívoco de dissociar a agressão imperial de suas vítimas específicas. Quase sempre, são textos, notas e falas precedidas de uma contemporização e tergiversação que busca pedir permissão em praça pública para apresentar sua indignação ao dizerem que “não é sobre Maduro” ou “não simpatizo com Maduro” ou, ainda, “não se trata de defender Nicolás Maduro”.

Nicolás Maduro Moros, Presidente da República Bolivariana da Venezuela sequestrado pelos Estados Unidos. <br> (Foto: Eneas de Troya / Wikimedia Commons)

Nicolás Maduro Moros, Presidente da República Bolivariana da Venezuela sequestrado pelos Estados Unidos.
(Foto: Eneas de Troya / Wikimedia Commons)

Este é um raciocínio rendido à narrativa dos agressores e seus cúmplices, entre os quais a mídia hegemônica brasileira, pois abandona o sujeito político no momento exato em que sua defesa se torna universal. Ora, o ataque é à Venezuela e a Maduro, enquanto figura que encarna, na contingência da história, o posto de mandatário de um país soberano que, desde o dia 2 de fevereiro de 1999, com a posse de Hugo Chávez, busca construir um profundo processo de mudanças políticas, sociais e econômicas orientadas pelo Socialismo do Século XXI.

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Fabricada, a “opinião pública” consolida um consenso administrado por aparelhos midiáticos e acadêmicos que reproduzem a identidade de Maduro enquanto “tirano”, “ditador” e “autocrata” e normaliza os atos de Donald Trump, inserindo-os numa falsa racionalidade política. Multiplicam-se as opiniões, e, mesmo aquelas horrorizadas com o ferro e o fogo que rasgaram os céus de Caracas e derramaram sangue sobre aquele solo, prestam vênia aos manuais de redação da Folha de S. Paulo, do O Globo ou do Estadão.

A própria justificativa para o ataque – o combate ao narcoterrorismo – é uma operação de opinião destinada a ocultar a decisão de controlar as riquezas venezuelanas e esmagar um projeto que se declara abertamente socialista e anti-imperialista. Este projeto político colocou novamente o controle da produção petrolífera nas mãos do Estado, com a Lei dos Hidrocarbonetos Orgânicos (2001), e, nos últimos anos e diante da inúmeras sanções econômicas que sofre, desafia a hegemonia do dólar como unidade monetária padrão de reserva e troca global ao vender ativamente petróleo em rublos ou yuan, estabelecer canais de pagamento diretos com os países parceiros, alinhar-se politicamente com China, Irã e Rússia e ser forte articulador de relações Sul-Sul, tendo solicitado formalmente sua adesão ao BRICS, que, infelizmente, foi bloqueada pelo Brasil.

Os discursos das autoridades dos Estados Unidos descrevem a agressão como uma operação de “contraterrorismo”. Com isso, recompõem a cena, integrando-a à ordem da gestão internacional. Enquanto isso, o discurso de que “não é sobre Maduro” internaliza essa gestão. A análise concreta é substituída pela abstração e, ao fazê-lo, ignora-se que o ataque se materializa por meio das pessoas sequestradas. É uma forma de “força reativa” que, mesmo a partir de uma posição de aparente solidariedade, trabalha para negar a singularidade do que aconteceu.

O evento de 3 de janeiro não é a crise venezuelana em si. Esse evento é o ato preciso e ilegal do sequestro de um chefe de Estado e sua primeira combatente, deputada eleita da Venezuela, Cilia Flores, e a declaração de que a soberania e o direito internacional não são nada perante a vontade do império. Este momento singular acomoda-se à normalidade do poder securitário vigente porque demonstra que as regras do direito internacional, a soberania nacional e a própria democracia representativa e protagônica, já que Maduro é um presidente em exercício, são totalmente contingentes diante da força de polícia do mundo que os Estados Unidos assumem.

Este evento nos lembra mais uma vez que a ordem imperialista é fundada na violência arbitrária, não no direito. As leis e o direito são instrumentalizados para a criação dos enquadramentos que determinados eventos políticos requerem para serem imediatamente descartados quando a pilhagem exige a violação e a violência. Foi assim no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016, e na prisão do presidente Luís Inácio Lula da Silva, em 2018.

A Revolução Bolivariana, com todas as suas contradições internas, disputadas por chavistas, maduristas, comunistas, anarquistas e movimentos sociais, é desde seu início um campo de tensão a essa ordem, pois ousa construir um caminho próprio, em fina sintonia com o velho ensinamento de Simón Rodríguez: “ou inventamos ou erramos”.

O sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores e o morticínio de ao menos 80 pessoas para sua execução torna isso inegável, como antes também o fizeram o golpe de Estado de 11 de abril de 2002, o locaute petroleiro de 2002-2003, ou a ordem assinada no ano de 2015 pelo ex-presidente Barack Obama declarando a Venezuela uma ameaça não usual e extraordinária à segurança nacional dos Estados Unidos, entre outros ataques e agressões.

Ao focar nas abstrações e tentar separar a agressão de suas vítimas nominais, dissipa-se a força reveladora desse evento. Aceita-se o quadro do agressor, que calunia e desumaniza porque quer transformar Maduro em um significante vazio, um mero pretexto descartável, para melhor atacar o significado real, o projeto político que ele, com falhas e contingentemente, representa.

É necessário afirmar a sequência lógica dos fatos: há um país agressor (Estados Unidos) dirigido por uma pessoa (Donald Trump) e um país agredido (Venezuela) dirigido por uma pessoa (Nicolás Maduro). Qualquer formulação que omita um desses termos é infiel. O sujeito que emerge dessa afirmação não é Maduro como indivíduo, mas o sujeito coletivo que se constitui ao defender a inviolabilidade de um princípio universal por meio de seus casos singulares: a soberania dos povos e o direito de existir fora da lógica imperial e de seu permanente estado de exceção.

Este sujeito se opõe tanto ao oportunismo que lava as mãos quanto à força obscura do imperialismo. A afirmação dessa sequência exige solidariedade concreta, que neste momento é, inevitavelmente, solidariedade com o governo legalmente constituído sob ataque, pois é por meio dele que o ataque se efetiva. Governar não se dá no abstrato, mas no concreto de um país sob cerco. A defesa da liberdade de Maduro e Flores é a defesa do direito de qualquer povo escolher seu destino sem sofrer sequestro e da liberdade dos povos do mundo de autodeterminar sua organização política e tecer conforme seus desígnios a sequência de fatos que lhes permita a emancipação.

Ao povo venezuelano, esse direito e liberdade vêm sendo interditados e sancionados desde o momento zero da Revolução Bolivariana, aquele momento em que, nas palavras de Hugo Chávez, os ponteiros da hora histórica, do minuto estratégico e do segundo tático se encontraram e, mesmo com grandes dificuldades, iniciou-se a construção pelas mãos de homens, mulheres, jovens e crianças da via venezuelana de transição a um Estado comunal.

Necessitamos de intervenções intelectuais e políticas que mudem as coordenadas da discussão. Não se trata de uma defesa acrítica de todos os atos de Maduro, mas de uma defesa intransigente do princípio de que seus eventuais erros devem ser julgados pelo povo venezuelano, não por um tribunal imperial que inventa acusações para pilhar recursos. É, portanto, falsa a dicotomia entre apoiar incondicionalmente um governo ou solidarizar-se com um povo abstrato. O povo existe em sua forma política concreta, e atacá-la é atacá-lo.

Como declarou o presidente Lula, os bombardeios à Venezuela e o sequestro de seu presidente e sua primeira combatente ultrapassam uma linha inaceitável, posição que teve a surpreendente adesão do insepulto governo de Gabriel Boric, do Chile. Mas a fidelidade a esta verdade exige abandonar tantas outras abstrações convenientes. Exige nomearmos Trump como agressor e Maduro como agredido, e exige, também, que vejamos na Revolução Bolivariana uma sequência viva de tentativa de emancipação que deve ter seu direito à existência e ao auto-julgamento defendido.

Defender o singular atacado é defender a possibilidade de que uma verdade política possa persistir e florescer. E isso é sobre Maduro, é sobre Cília Flores e é sobre 80 pessoas mortas tanto quanto é sobre geopolítica, sobre petróleo e outras riquezas; porque é sobre a Revolução Bolivariana e sobre o povo venezuelano.

(*) Amarildo Ferreira Júnior é professor no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IFRR) e no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Fronteiras da Universidade Federal de Roraima (PPGSOF/UFRR). Doutor em Ciências: Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA), com estágio no Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas (IVIC), é membro do Amazonicidades – Observatório das Cidades, Vilas e Territórios Amazônicos, da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) e da Red de Patrimonio de Venezuela (REDpatrimonio.VE). É militante da Esquerda Popular Socialista (EPS/PT).