Domingo, 7 de dezembro de 2025
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A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.
Jean-Paul Sartre, filósofo e escritor francês

Poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente
Hannah Arendt, filósofa política

Poder é fazer com que o outro faça o que você quer e sem o uso da violência real.
Max Weber, sociólogo e economista alemão

Sempre estivemos em guerra
Ailton Krenak, filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras

Mesmo que queimem os corpos, não queimam a ancestralidade
Antônio Bispo dos Santos, filósofo e mestre de ofícios quilombola

No dia 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro acordou com o eco de uma megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão. 

Mais de 120 mortos, corpos espalhados pelas ruas, uma ação que o governador chamou de “sucesso” contra o narcoterrorismo, mas que organizações de direitos humanos rotularam como o maior massacre da história recente do Brasil – superando até o infame Carandiru, em 1992, onde 111 presos foram executados, em São Paulo. 

Policiais e traficantes armados, tiroteios intermináveis: uma guerra urbana que deixou bairros inteiros em luto e terror.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Protesto contra a operação policial que deixou mais de 119 pessoas mortas no Complexo da Penha, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 – Protesto contra a operação policial que deixou mais de 119 pessoas mortas no Complexo da Penha, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Estado.
(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Mas esse banho de sangue não é um acidente isolado. Ele ecoa uma longa cadeia de chacinas que marcam a história do Rio e do Brasil. Lembrem-se de Jacarezinho, em 2021, com 28 mortos em uma operação “limpeza”; Vigário Geral, em 1993, onde 21 moradores da favela foram mortos vivos por policiais vingativos; e a Chacina da Candelária, em 1993, com crianças de rua assassinadas a sangue frio. No Brasil, de Carandiru a Eldorado dos Carajás, em 1996, com 19 sem-terra mortos pela PM, essas ações revelam um padrão: a violência estatal contra os periféricos, os pobres, os negros e indígenas, é tratada como rotina.

Esse padrão não nasce do nada. Ele é um legado cultural direto do extermínio colonial e imperialista que fundou esta nação. 

Desde a chegada dos europeus, o Brasil foi construído sobre o genocídio sistemático dos povos indígenas – das bandeiras paulistas que dizimavam aldeias inteiras aos massacres nos quilombos, como Palmares, destruído no século 17. 

A escravidão africana, com milhões mortos nas senzalas e nos navios, reproduzia técnicas de dominação total: o corpo negro como descartável, a vida periférica como mero obstáculo ao “progresso”. 

O imperialismo europeu, com suas guerras de conquista na África e na América, ensinou que certos corpos – os “bárbaros”, os “selvagens” – podiam ser exterminados sem remorso, sem julgamento, em nome da civilização.

Aimé Césaire, em seu “Discurso sobre o Colonialismo”, alertou que o colonialismo não é apenas exploração econômica, mas uma escola de desumanização: “É o colonialismo que, na Europa, preparou os fascismos”, diz ele, mostrando como a violência banalizada nas colônias retorna para assombrar os próprios colonizadores. 

No Brasil pós-colonial, essa violência se internaliza, tornando-se endêmica. Achille Mbembe, em “Necropolítica”, aprofunda isso: a soberania moderna não é só biopolítica – gerir a vida –, mas necropolítica, o poder de ditar quem deve morrer. 

Nas favelas do Rio, como nas banlieues africanas pós-coloniais, o Estado exerce essa necropolítica: operações que “deixam morrer” ou “fazem morrer” populações estigmatizadas, reproduzindo as técnicas coloniais de cerco, execução sumária e exposição de corpos como troféus de guerra.

Essas megaoperações de hoje – com drones e narrativas de “baque no crime” – não inovam; elas reciclam o arsenal colonial. O cerco aos morros espelha os cercos às aldeias indígenas; os corpos expostos nas ruas, como em 28 de outubro, evocam as cabeças de escravizados fugidos cravadas em postes. 

É um legado cultural profundo: o extermínio como método de controle social, onde a favela é o novo território colonial, habitado por “outros” cujas vidas não contam. Enquanto o Estado celebra “vitórias”, ignora que essa violência perpetua o ciclo, fortalecendo o medo e a desigualdade que alimentam o crime.

Para romper esse ciclo, precisamos descolonizar não só a história, mas a prática do poder. Senão, os massacres continuarão, ecoando das florestas antigas às ruas do Rio.

(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.