Quarta-feira, 7 de outubro de 2026
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A passagem foi reaberta, mas o progresso foi mínimo. Na primeira noite, apenas algumas pessoas, incluindo um pequeno grupo de evacuados médicos, conseguiram passar após longos atrasos e rigorosas verificações de segurança, deixando cerca de 18 mil ainda à espera de cuidados no exterior. Alguns repatriados se reuniram com seus entes queridos e foram recebidos por suas famílias em Gaza. Os retornados que conseguem atravessar enfrentam um tratamento traumático sob forte vigilância das forças israelenses, com relatos de venda nos olhos, algemas, interrogatórios e restrições que permitem-os levar apenas uma única mala de roupas, levantando sérias questões sobre o processo. Tudo isso ocorre enquanto os bombardeios ainda continuam em Gaza, demonstrando que a flexibilização limitada de Israel não oferece nem verdadeira liberdade de movimento nem alívio real para uma população sitiada.

O posto de controle, a única ligação não israelense de Gaza com o mundo exterior, foi fechado em maio de 2024, quando forças israelenses assumiram o controle de seu flanco sul, aprofundando o bloqueio e interrompendo evacuações médicas essenciais, reuniões familiares e o fluxo de mercadorias, medicamentos, combustível e materiais de construção.

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“Sofremos de uma doença incurável: a esperança”, escreveu o poeta Mahmoud Darwish.

O que o mundo vê como um gesto humanitário é vivenciado no terreno como uma recalibração do controle. A circulação é permitida, mas não livremente. <br> (Foto: © Mazur/cbcew.org.uk /Flickr)
O que o mundo vê como um gesto humanitário é vivenciado no terreno como uma recalibração do controle. A circulação é permitida, mas não livremente.
(Foto: © Mazur/cbcew.org.uk /Flickr)
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Quando surgiu a notícia de que as fronteiras de Gaza estavam se abrindo, a esperança chegou exatamente como Darwish havia alertado: incurável, dolorosa e imediatamente complicada.

A abertura das fronteiras deveria significar alívio, movimento, respiro. Para a maioria das pessoas, a expressão sugere um futuro que se amplia, em vez de se fechar. Mas para os palestinos, especialmente aqueles ligados a Gaza por laços de sangue, memória ou luto, a abertura de uma fronteira nunca chega sozinha. Ela vem acompanhada de uma série de perguntas: por quanto tempo? A que custo? E quem pagou por isso desta vez?

Porque as fronteiras de Gaza não se abrem em tempos de paz. Elas se abrem depois que a devastação e a matança já foram consumadas. Elas se abrem quando pressão suficiente foi acumulada, corpos suficientes foram contados e sofrimento suficiente foi normalizado a ponto de se tornar negociável. Uma “abertura” não é o fim da violência e dos ataques; muitas vezes é apenas um ponto final colocado logo depois deles.

Ver manchetes celebrando a abertura das fronteiras de Gaza enquanto famílias ainda choram seus mortos cria uma sensação chocante — distintamente palestina — de abalo emocional. O alívio nunca pode existir sozinho. Ele precisa compartilhar espaço com o luto, como se a alegria sem tristeza fosse um desequilíbrio inaceitável.

O que o mundo vê como um gesto humanitário é vivenciado no terreno como uma recalibração do controle. A circulação é permitida, mas não livremente. A travessia é autorizada, mas não sem escrutínio, interrogatórios e a lembrança tácita de que essa permissão pode ser revogada a qualquer momento. As fronteiras se abrem não como direitos restaurados, mas como privilégios concedidos temporariamente.

Este é o cruel paradoxo no qual os palestinos são forçados a viver: ser gratos pelo acesso àquilo que jamais deveria ter sido negado. Comemorar por receber permissão para sair ou retornar a um lugar que foi sistematicamente tornado inviável. Chamar isso de “progresso” exige ignorar as condições que tornaram tal anúncio necessário em primeiro lugar.

Gaza não está isolada por causa da geografia, mas por causa da política. E políticas não se suavizam simplesmente porque um portão se abre por algumas horas ou dias. O cerco não termina quando a circulação é permitida seletivamente; ele apenas muda de forma.

Para os palestinos fora de Gaza, a notícia da abertura das fronteiras provocou uma onda de emoções contraditórias — alívio entrelaçado com tristeza. Houve um impulso de esperança de que a circulação, o reencontro e algum alívio finalmente se tornassem possíveis para entes queridos há muito presos pelo cerco, seguido quase imediatamente pela dor da distância e pela culpa do sobrevivente: a liberdade de assistir de longe, impotente para compartilhar os riscos que tornaram essa abertura significativa. Muitos sentiram uma alegria aguçada pela raiva diante de como esses momentos são condicionais e tardios, de como um direito humano básico pode chegar como um rumor e desaparecer com a mesma rapidez.

E, no entanto, a esperança persiste. Não porque as condições a justifiquem, mas porque o desespero nunca teve a palavra final. A esperança sobrevive mesmo quando é repetidamente punida. Mesmo quando é traída por manchetes que prometem normalidade, mas entregam tudo menos isso.

Falar da abertura das fronteiras de Gaza sem falar sobre por que elas foram fechadas — e sobre a violência e o custo que acompanharam sua reabertura — é participar do genocídio em Gaza e de suas consequências.

Darwish chamou a esperança de uma doença incurável porque ela se recusa a morrer mesmo quando a razão exige que morra. Os palestinos carregam essa doença não porque sejam ingênuos, mas porque a alternativa — aceitar o confinamento permanente como destino — é um tipo de rendição que não podemos nos permitir.

Mas a esperança não deve ser confundida com consentimento.

É insuportável viver sob uma ocupação que rouba sua terra e controla todos os aspectos de seus movimentos. Em Gaza, a passagem de Rafah é um símbolo gritante dessa opressão. Apesar de serem os legítimos proprietários dessa terra, os palestinos não podem viajar livremente para dentro ou para fora de sua própria cidade; até mesmo o ar acima de nós parece restrito. Nosso direito de nos mover, viver e respirar livremente é ditado por forças que não têm legitimidade sobre nossa pátria. Esta é uma afirmação diária de que nossa liberdade e dignidade estão sendo negadas.

Até que as fronteiras se abram sem derramamento de sangue que as preceda, sem condições impostas e sem que o anúncio seja ofuscado pela tristeza, os palestinos continuarão a receber tais notícias não com celebração, mas com um silêncio cauteloso.

Porque a liberdade que chega de forma seletiva, temporária, sob controle e ao custo de vidas não é liberdade. É apenas um lembrete de quão distante ainda está a verdadeira liberdade.

Os palestinos se sentem como pássaros destinados a voar livremente, mas com as asas presas. Mesmo quando as fronteiras se abrem, ainda parecem gaiolas — porque, sob a ocupação israelense, o controle permanece e a sensação de liberdade é negada por toda a vida.

(*) Huda Skaik é jornalista, escritora, e estudante de literatura na Cidade de Gaza, na Palestina.

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