Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
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Entre 28 de dezembro de 2025 e 8 de janeiro de 2026, o Irã foi atingido por uma série de atentados, sabotagens terroristas e ações violentas em seu território. Explosões, assassinatos seletivos, ataques a infraestruturas e operações cibernéticas deixaram centenas de mortos e um rastro de destruição, criando deliberadamente um clima de medo e instabilidade social.

Esses acontecimentos não foram espontâneos. Inserem-se no padrão clássico das operações secretas de desestabilização, historicamente associadas à atuação da CIA e do MOSSAD, como parte da guerra híbrida conduzida contra Estados que resistem à ordem imperialista e sionista.

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A ofensiva contra o Irã não levou ao colapso esperado — expôs, ao contrário, os limites do poder imperialista e da coerção militar. <br> (Mostafa Meraji / Wikimedia Commons)

A ofensiva contra o Irã não levou ao colapso esperado — expôs, ao contrário, os limites do poder imperialista e da coerção militar.
(Mostafa Meraji / Wikimedia Commons)

Foi nesse ambiente artificialmente inflado que Donald Trump voltou a ameaçar um ataque militar direto dos Estados Unidos contra o Irã. Essas ameaças, porém, não foram nenhuma novidade, mas a continuidade de uma estratégia de coerção multidimensional, cujo objetivo permanece o mesmo há décadas, com o intuito de enfraquecer o Irã internamente e desmontar sua soberania política.

Guerra econômica, sanções, intimidação militar, operações secretas, manipulação da informação, isolamento diplomático e deslegitimação política têm sido amplamente empregados pelos EUA e por Israel. 

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Quase todas as ferramentas do arsenal imperialista e sionista foram utilizadas, com exceção de uma invasão em larga escala. O que se observa hoje não é uma estratégia eficaz, mas uma escalada alimentada pela frustração e pelo declínio estrutural do poder dos EUA.

Apesar da intensidade dessa ofensiva, o objetivo central fracassou. O Irã não colapsou. Seu sistema político segue funcional. Sua postura estratégica permanece intacta. Suas instituições resistiram. Mais do que isso, a soberania nacional continua sendo um fator de coesão, mesmo diante de tensões internas. A chamada “mudança de regime” por coerção externa mostrou-se politicamente inviável.

É nesse ponto que se explica o recuo, ainda que temporário, da ameaça de ataque direto. Não se trata de prudência nem de respeito ao direito internacional. O fator decisivo é outro: um ataque dos EUA ao Irã colocaria o regime sionista diante de perdas potencialmente catastróficas.

A experiência recente já deixou isso evidente. Na Guerra dos Doze Dias, em junho de 2025, a resposta iraniana atingiu profundamente os territórios palestinos ocupados, expondo as limitações reais dos sistemas de defesa antimísseis israelenses. Desde então, o Irã deixou claro que qualquer nova resposta será superior em alcance, intensidade e duração.

O fato central é simples e incômodo: Israel não está em condições de se defender de uma campanha prolongada de mísseis iranianos. Sistemas como o Iron Dome, David’s Sling e Arrow foram concebidos para cenários limitados, não para ataques massivos, sustentados e com saturação contínua. 

Em um novo confronto, centros urbanos, infraestruturas estratégicas, bases militares e polos econômicos estariam diretamente expostos e seriam destruídos.

Nesse cenário, o risco deixa de ser apenas militar e assume caráter existencial. Um conflito aberto com o Irã poderia abalar os pilares do projeto sionista, cuja sobrevivência depende da percepção de superioridade militar permanente e da capacidade de manter a guerra longe de seu próprio território. Pela primeira vez de forma explícita, a guerra retornaria ao coração do regime de ocupação.

Os EUA compreendem essa equação. Trump, cuja lógica política privilegia golpes rápidos e midiáticos, não demonstra disposição para sustentar uma guerra longa, regionalizada e de desfecho imprevisível. Um ataque inicial poderia ocorrer, mas a resposta iraniana arrastaria os EUA e Israel para um conflito fora de controle.

O adiamento do ataque, portanto, não representa abandono da opção militar, mas um ajuste tático. As sanções continuam. A pressão política permanece. A militarização da região se intensifica. As operações encobertas seguem como instrumento privilegiado de desgaste.

A realidade, porém, é cada vez mais clara: a coerção imperialista não produz obediência. Produz resistência, escalada e instabilidade regional. O poder imperial dos EUA pode impor sofrimento, mas não pode subjugar indefinidamente uma sociedade cuja legitimidade se funda na independência, na resistência e na dignidade nacional.

É por isso que a guerra anunciada não aconteceu. Não por paz, mas por limite. 

Por enquanto.

(*) Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (2. Ed. Anita Garibaldi/Ibraspal, 2022).