Quinta-feira, 8 de outubro de 2026
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Desde 2022, a Ucrânia se tornou o centro do mundo. No capítulo atual do drama global, ela foi o grande tema do encontro entre os líderes de Rússia e Estados Unidos no Alasca – o primeiro desde a tragicômica cúpula entre Joe Biden e Vladimir Putin em junho de 2021, que o então presidente americano Joe Biden não tinha pretensão alguma de que “desse certo”; a decisão de expandir a Otan para a Ucrânia, por certo, já estava tomada ali.

Quando a Rússia deflagrou uma operação militar em solo ucraniano em 2022, Volodymir Zelensky era um presidente em meio de mandato, e via sua popularidade ruir. Três anos antes, ele tinha vencido o incumbente Petro Poroshenko por uma margem altíssima no segundo turno, depois venceu as eleições legislativas de meses depois, mas nas eleições locais de 2020 já não havia tanta empolgação.

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Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e EUA, Donald Trump, durante encontro em 2019. (Foto: Kremlin / Wikimedia Commons)
Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e EUA, Donald Trump, durante encontro em 2019.
(Foto: Kremlin / Wikimedia Commons)

Passados três anos entre idas e vindas infindáveis, ofensivas e contraofensivas, a Ucrânia está esgotada em termos de pessoal, mesmo fortemente apoiada pelo complexo bélico americano e pelo establishment europeu – ainda que este arque com o custo político da impopularidade colateral pelos efeitos econômicos da guerra. Hoje, no entanto, Donald Trump se vê diante da emergência de parar a guerra urgentemente.

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As causas são mais do que evidentes. A guerra na Ucrânia é como uma luxação que mantém o petróleo e o gás em permanente inflação, exigindo juros maiores, sob pena de produzir uma inflação generalizada como em 2022. Em um cenário de aumento da inflação por conta do tarifaço – e desvalorização do dólar –, parar a guerra é central para Trump enfrentar meses difíceis que se avizinham. Mas não aconteceu.

O Alasca, a antiga América russa, o limite final dos Estados Unidos

Que a cúpula russo-americana tenha acontecido no Alasca é sintomático: ele é hoje o maior estado americano em território, mas foi encontrado pelos russos nas primeiras décadas do século 18 e foi colonizado na década de 1780 até a venda das terras para os americanos em 1867. Naquela época, os americanos pagaram aos russos um montante equivalente a 157 milhões de dólares atuais – hoje o PIB do estado chega a 68 bilhões de dólares.

 Leia também – Ucrânia: agentes livres? 

Antes, foi pelo Alasca por onde chegaram os primeiros seres humanos ao continente americano, em um terrível sintoma de que a terra é redonda, sendo habitada por inúmeras nações indígenas. Seu simbolismo, portanto, foi total: é possível que territórios sejam transacionados, mesmo entre russos e americanos, como objetivamente aconteceu naquela circunstância, um pouco posterior à Guerra Civil Americana. 

Verdade seja dita, para além do ritual entre os dois líderes, e uma expectativa da mídia russa, a verdade é que nada aconteceu – e, portanto, tudo aconteceu. Trump precisa colocar fim ao conflito, ainda mais em tempos em que a inflação do produtor americano sobe e antecipa uma escalada da inflação do consumidor. Putin, contudo, tem o tempo a seu favor, uma vez que suas tropas avançam em território ucraniano.

A Rússia, possivelmente, não tem como manter a guerra na Ucrânia indefinidamente, mas pelas variáveis atuais, levando em consideração as tropas que ela tem a dispor e as baixas, isso significa que o país pode, realmente, passar anos combatendo nesses termos – talvez uma década ou mais. A Ucrânia não. E os Estados Unidos, nas circunstâncias atuais podem, e até lucram, com o envio de armas para Kiev, mas não com a colateralidade inflacionária.

Enquanto isso, o papel dos europeus é episódico: o grande ecossistema liberal que governa o continente não queria entrar no conflito, sofreu uma enorme pressão econômica por estar nele, mas hoje se recusa a se retirar, muito embora reatar com a Rússia fosse de seu interesse econômico. A explicação para esse mistério é uma neurose da sua política interna, onde se percebe que forças à direita ou à esquerda se beneficiariam disso.

O picadeiro global e as trapalhadas de Donald

A conjunção entre o protecionismo tosco e vulgar com medidas populistas dignas de um bufão parecem colocar Trump em um limite. Hoje, seu desafio é baixar a taxa de juros, desinflacionar o mercado de títulos – isto é, da dívida pública americana – e direcionar esses recursos para o mercado de capitais – as bolsas de valores, no linguajar coloquial; aliás, as mesmas que estão bisonhamente inflacionadas.

Trump ainda espera diminuir juros para aliviar a vida de famílias e empresas endividadas e com a corda no pescoço. No entanto, sem baixar a inflação, deflagrada em parte por ele mesmo, pode até conseguir seu banco central, mas os resultados serão piores do que o esperado. Juros menores diante de uma aceleração de preços induzida colateralmente podem ser fatais no curto prazo. 

Entre o colapso de bolsas de valores inchadas e inflação, obviamente, Trump vai optar por uma escalada nos preços, mas sabe que com isso estará liquidado para a eleição mais importante de sua vida: as legislativas de meio de mandato, a serem disputadas no ano que vem, renovando parcialmente o Senado e totalmente a Câmara dos Deputados, cujos mandatos são míseros dois anos.

Supunha-se que Trump tinha algum acordo pronto dentro dos Estados Unidos para fechar uma posição com Putin, pois aí, apesar de arcar com o desgaste de um encontro com um demonizado presidente russo, ele pelo menos entregaria algo para o público americano – mesmo que não fosse satisfatório em si, produziria efeitos colaterais positivos, como energia mais barata.

Não parece ter sido o caso, no entanto. Putin mostrou força e saiu do isolamento. Trump saiu de mãos abanando. Enquanto isso, as tropas russas avançam pelo leste ucraniano e faltam tropas para Kiev. Zelensky vive um pesadelo de popularidade e seria derrotado se as eleições presidenciais ucranianas fossem hoje – ironicamente, pelo seu antigo comandante-em-chefe original, que ele tratou de demitir por vaidade no início de 2024.

(*) Hugo Albuquerque é jurista e editor da Autonomia Literária.

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