O favoritismo de Lula e o desespero do mercado
Diante do favoritismo de Lula, setores da Faria Lima e da mídia empresarial articulam ofensiva para arrancar compromissos de arrocho fiscal e corte de investimentos
As agruras da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à presidência da República têm deslocado o debate eleitoral para o programa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, para um eventual quarto mandato.
As dificuldades de Flávio em se desvencilhar dos problemas que cercam sua campanha, como o envolvimento no caso Master, os conflitos com Michelle Bolsonaro e a incapacidade de formalizar a aliança do campo da direita, fortalecem a avaliação de que Lula tem um favoritismo nestas eleições.

8.07.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita serviços especializados e unidades móveis de saúde no Rio de Janeiro, no Hospital Federal do Andaraí, Rio de Janeiro – RJ.
(Foto: Ricardo Stuckert / Lula Oficial)
O país está profundamente dividido, a eleição presidencial está longe de qualquer definição e a disputa deve terminar somente no 2º turno por uma margem pequena. A possibilidade de intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no processo eleitoral brasileiro, deixa o cenário ainda mais imprevisível.
No entanto, as chances do petista cresceram no último período. Diante disso, o mercado e a imprensa empresarial estão colocando peso maior no debate sobre o programa econômico que será apresentado pelo petista e as perspectivas do seu quarto governo.
Em 2022, o centro do embate foi a democracia, ameaçada pela reeleição do então presidente Jair Bolsonaro (PL), depois de um período de crise institucional, movimentação nas Forças Armadas e ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal).
Diante disso, Lula apresentou linhas mais genéricas para a economia e colocou peso na agenda da justiça tributária, com a linha de “colocar os ricos no imposto de renda e os pobres no orçamento”.
Agora, a Faria Lima faz pressão para arrancar compromissos de Lula em relação à política fiscal, com o endurecimento do arcabouço fiscal, a desvinculação de gastos obrigatórios (em saúde, educação e direitos sociais) e o corte de investimentos públicos.
Para pavimentar esse caminho, colocou as artilharias contra a política econômica do governo Lula 3, atacando os indicadores apresentados na gestão de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda.
Editorial da Folha de S.Paulo, intitulado “A ‘herança maldita’ que o PT esconde”, apresenta um balanço negativo da política econômica, com um conjunto de dados para demonstrar a deterioração das contas públicas.
Na mesma semana, vazou na imprensa – em uma reportagem sem fontes – que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, estaria discutindo com Lula o aperto das regras do arcabouço fiscal. Entre as mudanças, a diminuição do limite para o crescimento de despesas para 1,5%, a criação de gatilhos mais restritivos e o controle de despesas obrigatórias.
A tática do mercado é simples: diante das dificuldades para derrotar Lula nas urnas, sequestrar seu próximo governo e tutelar a política econômica. Para isso, atua para consolidar a avaliação da piora nas contas públicas nos últimos anos e opera para arrancar compromissos de aprofundamento das medidas de restrição fiscal.
A opção do PT desde os anos 2000 é contornar esse debate, reforçando o compromisso com o equilíbrio fiscal e o tripé macroeconômico, mas defendendo a necessidade dos investimentos públicos para alavancar o crescimento econômic
Assim, conseguiu uma margem para implementar um programa que atendesse parcialmente o grande capital, os trabalhadores e os mais pobres. No entanto, esse arranjo está cada vez mais frágil e não funcionou como nos anos 2000, antes da crise mundial do capitalismo.
Com a perda do controle da política monetária, com a autonomia do Banco Central, e as restrições à política fiscal, com a regulamentação de regras para o investimento público, as margens estão cada vez mais estreitas.
A campanha de Lula terá que construir uma linha para enfrentar essa pressão do mercado, que deve se agudizar no próximo período. As medidas de Trump contra o Brasil abriram o debate sobre a necessidade de recursos para políticas para garantir a soberania nacional, em um quadro de instabilidade geopolítica.
O cenário de recrudescimento do conflito estratégico entre Estados Unidos e China exige que o Brasil dê um salto para um novo modelo de desenvolvimento nacional com foco na indústria do futuro, com investimentos pesados em ciência, tecnologia e inovação.
Aumentar a dose do ajuste, cedendo à pressão por novas medidas para restringir a política fiscal, enfraquece o arranjo débil que sustenta o governo Lula, prejudica o país no cenário internacional e, sobretudo, adia o projeto de construção do Brasil do futuro no eventual último mandato da maior liderança popular da história da Nação.
(*) Igor Felippe Santos é jornalista e analista político com atuação nos movimentos populares.























