Quando publicou O fim da História e o Último Homem em 1992, Francis Fukuyama já era famoso. Seu livro era um desdobramento de um artigo anterior de 1989, O fim da História?. Cheio de referências filosóficas, e longe de ser uma simplificação teórica, aquele escrito foi recebido como uma ode ao triunfo do Ocidente na Guerra Fria. Fukuyama se tornou uma celebridade pop global graças a ambos.
Já Mark Fisher retomou no subtítulo de seu famoso Realismo capitalista a ideia de Fredric Jameson – de The Seeds of Time (1994) – de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o do capitalismo, conforme a redação dada pela citação de cabeça de Slavoj Zizek. Fisher colocou a afirmação de Jameson enquanto interrogação no título do seu livro. O fim do mundo – que não é algo exatamente novo – voltou à ordem do dia do pensamento.
Sem precisar ir muito longe, ainda nos anos 1990 já era possível perceber que a História permanecia ela mesma bem viva. Depois de 2001, mais ainda – o que levou Fukuyama a ser sempre figura recorrente em noticiários e mesas, sendo interpelado a responder se a História acabou mesmo ou se aquilo era apenas o espasmo de uma moribunda. Os recentes escritos e intervenções dele, contudo, vão na direção de uma reelaboração.
Aí reside uma vontade incômoda para os americanófilos – como o próprio Fukuyama, filho de mãe japonesa e pai americano, mas ele mesmo da comunidade nipônica da Califórnia. Percebendo o desastre da invasão do Iraque em 2003, Fukuyama se afastou dos neoconservadores que ele mesmo admirava, mas nada é tão ruim quanto possa piorar: veio o trumpismo, elevando o constrangimento entre republicanos civilizados à estratosfera.
No fim, com mais de 70 anos, Fukuyama reaparece na grande mídia com seu novo livro, este de memórias, In the Realm of the Last Man – algo como No reino [ou domínio] do Último Homem. Menos que algo sobre seu percurso intelectual, é interessante como suas recalibragens falam menos sobre si e mais sobre os acidentes dos Estados Unidos, tornados a única superpotência de forma desastrada.

Uma parte do título da grande obra de Fukuyama é, precisamente, o Último Homem – assim mesmo, em maiúsculo, porque é nome próprio de conceito do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, o Letzter Mensch, um oposto ao Ubermensch (Super-Homem), cujo sentido foi em parte distorcido pelos nazistas; em Nietzsche havia uma construção romântica (ou pós-romântica) de um homem-além-do-homem e seu equivalente niilista passivo.
Obviamente, o uso de dois conceitos díspares, um hegeliano e outro nietzschiano, seria o prenúncio de um ecletismo talvez profético sobre os rumos da obra, mas certamente o uso que Fukuyama deu à noção de Último Homem – de certa forma, vulgar – acabou sendo por vias tortas profético, pois seu vaticínio sobre as consequências sobre o possível tédio dos cidadãos globais sobre as democracias liberais se mostrou real.
Fukuyama, que recusou o pós-estruturalismo e partiu para formas e fórmulas ultrapragmáticas se tornou conhecido, vejamos nós, precisamente por encadear dois conceitos filosóficos – de dois pensadores incompatíveis e polares entre si –, numa junção que se fez verdade pelo último (e esquecido) elemento. Ainda que possa explicar a sociedade global pela noção de Último Homem, ela não deixa de ser verdadeira.
Se já no seu tempo Fukuyama encontrou críticos potentes como Jacques Derrida – no seu Espectros do comunismo, que também é central para Fisher –, sobre o quão primária era sua formulação de Fim da História (antes de hegeliana, kojeviana), uma vez que o capitalismo permanecia – junto de suas contradições –, por outro lado, ele ignorou a dimensão política do que ele mesmo previu, com a ascensão do “niilismo passivo” entre as massas globais.
Em parte, isso explica fenômenos como Donald Trump, que se tornam recicladores de todo lixo social produzido pela democracia liberal – sim, romantizada por Fukuyama, salvo por ato falho – como um meio, em grande medida suicida e temerário, de evitar que a indignação social tome a direção revolucionária – ou seja, em termos nada materialistas, a segunda parte do título da obra maior de Fukuyama antagoniza a primeira parte.
Se foi criticado à esquerda, em grande medida num escopo filosófico, as críticas à direita da obra de Fukuyama vieram de figuras que retomam, direta ou indiretamente, a temática geopolítica, como Robert Kagan ou Samuel Huntington – que mesmo ignorando a luta de classes e o materialismo, foram obrigados a afirmar que a conflituosidade não terminaria por ali, muito pelo contrário.
Se Karl Marx e Friedrich Engels jamais ignoraram a dimensão estratégica de suas formulações, isso chegou ao limiar com Lênin e os bolcheviques, assim como com o presidente Mao: o marxismo propriamente dito – revolucionário, por sinal – jamais desprezou as intercorrências bélicas e interestatais da luta de classes, invertendo dialeticamente, assim, a velha geopolítica; não a negando infantilmente.
Os novos geopolíticos – que jamais negaram o conflito – pressentem essa questão, mas tratam de sonegar suas causas, enquanto o marxismo ocidental transformou a discussão geopolítica em tabu – quando poderia ter recorrido a Lênin, que a superou na forma da ciência do imperialismo, outro tema tabu. Nisso, Fukuyama se aproximou dos pós-estruturalistas que ele, com alguma razão, renegou no passado, mas de forma piorada.
Sua crença na hegemonia da democracia liberal – e com esse recorte eleito como a única forma de democracia verdadeira –, o levou a reelaborações vergonhosas, como reconhecer o triunfo do sistema chinês – que ele amaldiçoa como “autoritário” –, enquanto dá razão pela colateral aos norte-coreanos por terem, contra o figurino dos anos 1990, se armado o suficiente para não serem molestados militarmente.
Não à toa, em recente entrevista à Jacobin americana, Fukuyama se reinventa camaleonicamente como um “social-democrata” – nas palavras dele – e elogia Zohan Mamdani, o popular prefeito socialista de Nova-Iorque. Sintomático e oportunista, esse rebranding de Fukuyama é menos sobre o quê não entendemos da obra dele, e mais sobre o que ele não entendeu sobre si mesmo e seu tempo – e onde acertou sem ver no que atirou.
Diante disso, somente podemos dizer que estamos mais próximos do fim do mundo do que do fim da História – e que esta morrerá somente quando os ponteiros do fim do mundo se aproximarem mais um pouco, o que não está difícil nem longínquo. A personagem midiática Fukuyama importa menos pelas suas ideias e mais pela sua performance e movimentos – algo que diz muito sobre o espírito do tempo, para manter a ironia.
(*) Hugo Albuquerque é jurista e editor da Autonomia Literária.