O imperialismo e o retorno da questão militar
O rearranjo militar estadunidense na América Latina abre uma disputa decisiva: que papel terão as Forças Armadas brasileiras no século XXI?
A presença militar dos Estados Unidos na América Latina precisa ser examinada como um problema estrutural da soberania regional. Não se trata apenas de localizar bases em um mapa, mas de compreender como a instalação de enclaves militares, centros de vigilância, acordos operacionais, pontos logísticos e dispositivos de cooperação em segurança reorganizam a relação entre poder externo e autonomia nacional local. O problema central está no fato de que a militarização estrangeira do espaço latino-americano cria uma soberania sobreposta: formalmente, os Estados continuam independentes; materialmente, parte de suas decisões estratégicas passa a ser condicionada por interesses, doutrinas e comandos definidos fora da região.
Esse fenômeno atinge o Brasil de maneira indireta, mas profunda e preocupante. Ainda que o país não abrigue uma base militar estadunidense em seu território, encontra-se cercado por uma malha de instalações, acessos e acordos que incidem sobre seu entorno geopolítico imediato. A Amazônia, o Atlântico Sul, as fronteiras setentrionais, as rotas marítimas, os recursos energéticos, os minerais estratégicos e os corredores logísticos regionais tornam-se elementos de uma disputa mais ampla. Embora esse cerco não precise assumir a forma de ocupação direta para produzir efeitos, basta que imponha limites à autonomia diplomática, condicione políticas de defesa e normalize a presença militar de uma potência estrangeira como árbitro da segurança continental para que surjam atritos diplomáticos ou militares.

Solenidade do Dia do Soldado, em 25/08/2023.
(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
A história latino-americana demonstra, porém, que esse processo não é episódico. Desde a Doutrina Monroe, a região foi tratada pelos Estados Unidos como zona preferencial de influência. No século XX, essa orientação assumiu formas diversas: intervenções militares diretas, apoio a golpes de Estado, treinamento de forças repressivas, financiamento de operações anticomunistas e imposição de doutrinas de segurança nacional subordinadas à lógica da Guerra Fria. No século XXI, o vocabulário se atualizou. Fala-se em combate ao narcotráfico, crime organizado transnacional, ajuda humanitária, segurança cibernética, migrações, influência chinesa e presença russa. Mas a estrutura permanece inalterada: a segurança latino-americana continua sendo frequentemente traduzida segundo os interesses estratégicos de Washington.
As instalações mais evidentes desse dispositivo são a Base Naval de Guantánamo, em Cuba; a Base Aérea de Soto Cano, em Honduras; as estruturas militares em Porto Rico, especialmente no eixo de Roosevelt Roads; o ponto de cooperação de segurança em Comalapa, em El Salvador; e as instalações de Aruba e Curaçao, no Caribe meridional. A essas se somam arranjos de cooperação, treinamento, acesso operacional e inteligência em países como Colômbia e Peru, além de exercícios militares recorrentes sob coordenação do Comando Sul dos Estados Unidos. Ainda que algumas dessas estruturas sejam apresentadas oficialmente como locais de cooperação, e não como bases tradicionais, sua função política e estratégica é inequívoca: garantir presença, vigilância, mobilidade e capacidade de projeção de força.
Para o Brasil, esse quadro possui implicações decisivas. O país não está separado do sistema regional de poder. Sua soberania territorial depende do controle da Amazônia – que se estende por nove países da América do Sul –, da preservação do Atlântico Sul como zona de paz, da autonomia tecnológica de defesa, da capacidade de dissuasão e de uma diplomacia regional capaz de impedir a fragmentação estratégica da América Latina. Quando bases, radares, centros de treinamento, instalações logísticas e acordos militares estrangeiros se multiplicam no entorno brasileiro, não estamos diante de uma questão diplomática periférica. Estamos diante de um deslocamento concreto do equilíbrio regional de poder.
A disposição espacial desses enclaves revela uma lógica de contenção indireta. O Caribe funciona como plataforma de vigilância e projeção. A América Central opera como corredor logístico e político. O norte da América do Sul torna-se zona sensível de monitoramento amazônico, energético e fronteiriço. O Atlântico Sul permanece como área decisiva para o controle de rotas marítimas, cabos submarinos, recursos energéticos e cadeias comerciais. Nenhuma potência global organiza instalações militares no exterior por neutralidade técnica. A presença militar antecede, acompanha ou garante interesses econômicos, tecnológicos, diplomáticos e políticos.
Uma análise à esquerda precisa enfrentar esse problema sem cair em simplificações. A crítica ao imperialismo não pode se converter em desprezo abstrato pela questão militar nacional. Ao contrário: ela exige recolocar o tema da defesa no centro do debate sobre soberania popular. Forças Armadas submetidas ao povo, ao interesse nacional e à Constituição são instrumentos indispensáveis para qualquer projeto autônomo de país. O problema não reside, naturalmente, na existência da instituição militar, mas em sua possível captura por doutrinas estrangeiras, alinhamentos automáticos, concepções importadas de segurança e uma visão subalterna do lugar do Brasil no mundo.
O rearranjo militar estadunidense na América Latina abre uma disputa decisiva: que papel terão as Forças Armadas brasileiras no século XXI? Serão forças auxiliares de uma ordem hemisférica comandada por Washington, treinadas para internalizar agendas externas sob a aparência de cooperação técnica? Ou serão instituições de Estado orientadas para a defesa da soberania, da integridade territorial, da Amazônia, do Atlântico Sul, da indústria nacional de defesa e de uma política externa independente?
Essa pergunta não é secundária. Sem efetiva soberania militar não pode haver real soberania econômica. Sem autonomia estratégica, não há desenvolvimento nacional. Sem capacidade de defesa, qualquer projeto popular permanece vulnerável a chantagens externas, bloqueios tecnológicos, pressões diplomáticas, sanções, sabotagens e intervenções indiretas. A esquerda brasileira, ao longo de sua história, muitas vezes oscilou entre a denúncia correta do militarismo autoritário e a dificuldade de formular uma política nacional de defesa. Essa lacuna precisa imediatamente ser superada.
A presença militar estadunidense no entorno do Brasil deve ser analisada como parte de uma disputa maior pelo controle dos recursos naturais, das rotas comerciais, das cadeias energéticas, da infraestrutura crítica e da orientação política dos Estados latino-americanos. A Amazônia, o pré-sal, os minerais estratégicos, os cabos submarinos, os portos, a base industrial de defesa e a capacidade de integração sul-americana são elementos de um mesmo tabuleiro. O que está em jogo não é apenas segurança. É poder e controle tutelar.
Por isso, discutir as bases e instalações militares dos Estados Unidos na América Latina é discutir o destino estratégico do Brasil. A soberania nacional não pode ser reduzida a uma palavra de ordem eleitoral. Ela exige doutrina, orçamento, indústria, ciência, tecnologia, inteligência, integração regional e direção política. Exige também que as Forças Armadas deixem de ser pensadas como corporação isolada e passem a ser compreendidas como parte de um projeto nacional-democrático de defesa.
O cerco existe porque o Brasil importa. Importa por seu território, por sua população, por seus recursos, por sua posição atlântica, por sua fronteira amazônica e por sua capacidade potencial de liderar uma ordem sul-americana menos dependente. O desafio histórico consiste em transformar essa constatação em estratégia. Uma esquerda que deseje governar o Brasil com profundidade não pode ignorar a Questão Militar. Deve disputá-la, qualificá-la e submetê-la a um horizonte de soberania popular. Porque, numa região marcada por esses dispositivos de vigilância e enclaves estrangeiros, a independência não se proclama: luta-se por ela.
(*) Guilherme Diniz é professor de História do Brasil e dedica-se ao estudo da formação social brasileira, do pensamento brasileiro e das ideias que moldaram o país. Minhas pesquisas transitam por temas como Forças Armadas, republicanismo e nacionalismo no Brasil, buscando compreender as continuidades, disputas e projetos que atravessam nossa trajetória histórica, política e intelectual.
























