Quarta-feira, 9 de setembro de 2026
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A outrora magnífica, imponente e imperial águia americana, cujas asas cobriam todos os continentes para impor seus insaciáveis interesses, hoje se vê perdendo suas penas, e suas garras luzem desafiadas. A Europa, que procurava sua união e segurança debaixo daquelas asas, observa desamparada a inimaginável fuga da águia para se recolher no seu desarrumado ninho. A truta, que imaginava pegar facilmente no Golfo Pérsico, resultou um tubarão do qual não consegue fugir sem perder mais algumas penas. Nem a vergonhosa revoada no Afeganistão, em agosto de 2021, permitia predizer um desenlace tão fugaz e desastroso. Mas o que poucos imaginavam ver tão cedo começou bem antes. 

Findada a Guerra Fria e surdos às reiteradas mensagens de Putin, os estrategistas ocidentais continuaram a criar a imagem de uma Rússia ameaçadora (não obstante entre 1992 e 1998 tenha sofrido uma retração econômica do 50% do seu PIB) que devia ser detida na sua voracidade territorial. Assim, de uma imagem criada de ameaça, o ocidente ideológico foi se constituindo numa verdadeira ameaça para Rússia, que foi alterando sua doutrina de emprego nuclear a cada onda ofensiva da OTAN para o leste. 

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Nem a enérgica resposta de Putin na Ossétia do Sul em 2008 foi suficiente para acordar a Europa do pesadelo embrutecedor que a levava resignada ao precipício nuclear. Obstinadamente, desde 2009 começaram a erodir politicamente a Ucrânia. Sob a batuta de Victoria Nuland, acordaram o nazismo ucraniano reivindicando “heróis” das SS como Stepan Bandera, treinaram, financiaram e armaram os grupos de choque que ensanguentariam a Praça Maidan em 2014, no golpe que derrubou o governo democraticamente eleito de Viktor Yanukovych e instalou o governo dócil ao império americano que ordenou a guerra civil contra o Donbass culturalmente russo.

Depois de 15 mil civis assassinados pelas forças de Kiev e de declarações imprudentes de Zelensky solicitando o ingresso na OTAN e renunciando ao tratado de Budapeste, no qual Ucrânia abdicava de possuir armamento nuclear no seu território, em janeiro de 2022 a Duma em Moscou reconheceu a independência das províncias do Donbass (contra a posição de Putin, que defendia apenas sua autonomia). Finalmente, e não sem antes fazer reiteradas advertências e claros movimentos de tropa na fronteira, Putin dá a ordem de iniciar a chamada “Operação Militar Especial” com o ingresso de tropas russas até o coração da Ucrânia, em uma estratégia de guerra relâmpago.

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A velocidade e contundência do ataque russo levou Zelensky a negociar a paz em Belarus em março. Tratava-se de uma negociação que apenas reiterava o que tinha sido negociado em 2015 no Acordo de Minsk 2: integridade territorial da Ucrânia, independência das províncias de Donbass e o não-ingresso na OTAN. Essa, consideramos, foi a primeira negativa bélica à expansão territorial da OTAN e aos interesses estratégicos da Águia Imperial e sua pretora da OTAN. Negativa bélica enfatizada com a conversão da estratégia de guerra relâmpago para uma estratégia de guerra defensiva de desgaste depois que o presidente americano Joe Biden e o primeiro-ministro britânico Boris Johnson convenceram Zelensky a entregar até o último ucraniano numa guerra por procuração para desgastar a Rússia e isolar a República Popular da China. A disposição das peças no tabuleiro bélico indicava claramente que a guerra era entre a Rússia e as forças atlantistas, o que a mídia se ocupou de ocultar reiterando a “agressão não provocada” da Rússia.    

Essa contundente negativa bélica à liberdade de ação estratégica do império, que desgastava mais ao atlantismo que à própria Federação Russa, levou os Estados Unidos a refletir criticamente sobre sua capacidade bélica de impor e até de defender seus interesses no mundo. O resultado dessa preocupação foi o Relatório Final da Comissão sobre Estratégia de Segurança Nacional. Nele, apontavam três vulnerabilidades nacionais dos EUA que tornavam impossível a vitória na próxima guerra mundial, que nesse documento consideravam inexorável para manter a hegemonia global. Eram elas 1) a estrutura militar inadequada para as guerras atuais; 2) o complexo industrial-militar obsoleto; 3) a estratégia diplomática que perdia terreno para a República Popular da China. Se neste momento não tinham condições para enfrentar com êxito uma guerra contra o “quadrilátero do mal”, composto pela China, Coreia do Norte, Rússia e Irã, defendiam que deveria ser recolhida a estrutura militar projetada no mundo para concentrá-la e reformulá-la. Até 2026 deveriam concluir as atualizações para eliminar essas vulnerabilidades e enfrentar essa guerra mundial. 

Chegou-se a 2026, ano em que o império devia mostrar sua renovada musculatura para enfrentar vitoriosamente os inimigos da sua hegemonia global. O presidente Donald Trump, no comando do império, deu a impressão de levar a cabo as sugestões daquele Relatório Final. Tanto pelas novas edições dos documentos de defesa[1] quanto pelas ações, já que começou a retirar as forças estacionadas pelo mundo e manifestou seu desejo de se concentrar no continente americano. Os assassinatos ilegais com o bombardeio de barcos no Caribe, a agressão brutal à Venezuela, o bem-sucedido sequestro do presidente Maduro, a ingerência indisfarçada nos processos eleitorais do continente e a aplicação autocrática da transnacionalização da lei estadunidense pareciam indicar o propósito de assegurar seu domínio sobre a região para discutir o futuro do sistema internacional em termos de política de zonas de poder. 

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante o 250° Grand Prix em Washington. <br> (Foto: Daniel Torok / White House)

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante o 250° Grand Prix em Washington.
(Foto: Daniel Torok / White House)

Talvez engulosinado pelo sucesso na Venezuela ou convencido pelo genocida Benjamin Netanyahu[2] e o lobby sionista, ignorou as advertências dos estrategistas e se lançou no que considerou uma vitória fácil contra o Irã. Traindo os iranianos pela segunda vez no transcorrer das negociações de paz, atacaram ilegal e criminalmente o Irã, cometendo um inaceitável magnicídio ante o silêncio cúmplice da sociedade internacional. Trump decapitou a cúpula religiosa, política e militar do Irã imaginando que a estrutura de poder cairia como um castelo de cartas. Mas, milênios de anos de cultura política e estratégica não passam em vão, e a resposta não demorou mais do que quinze minutos em manifestar sua violência. O comando das forças armadas iranianas tinha adotado uma estrutura de comando e controle em rede, uma estrutura de defesa em mosaico que distribuiu as decisões estratégico-operacionais em 36 unidades móveis por todo o território, desde onde foram atingidos as bases militares estadunidenses, incluída a Base da Quinta Frota no Bahrein, principal base naval americana na região; o que quebrou as pernas logísticas, necessárias para uma guerra prolongada e à distância, e também destruiu importantes radares, cegando operacionalmente os agressores. Em poucos minutos o Irã tinha vencido a guerra que Trump e Netanyahu imaginaram relâmpago, empantanando-os numa guerra de desgaste, administrada político-estrategicamente na sua modalidade, duração e intensidade pelo Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC). 

Aquela truta esgotada, depois da desova na cabeceira do rio, presa fácil da feroz águia americana, tinha resultado em um experto tubarão que mostrou os limites do império americano. Mais que qualquer outra derrota das forças armadas americanas, esta mostrou que as vulnerabilidades apontadas no citado Relatório Final de 2024 não apenas não tinham sido diminuídas, mas continuavam aumentando o abismo com as necessidades das guerras contemporâneas. A ver: 1) a estrutura militar absolutamente inadequada e desmoralizada; 2) o Complexo Industrial-Militar comparativamente aumentou sua obsolescência com produtos sofisticados, caros e ineficientes; 3) Trump foi exemplar em mostrar todo o que não se deve fazer em diplomacia, deixando os europeus desamparados, seus aliados desarmados e os neutros furiosos por sofrerem com a arbitrária guerra tarifária. A derrota que o Irã, como um dos vértices do “quadrilátero do mal”, tinha propiciado ao império, não foi inadvertida pelos atentos outros vértices que anotaram vulnerabilidades e potencialidades que serão aproveitadas como lições para a próxima guerra.

O Irã não apenas ganhou uma guerra improvável com a outrora magnífica águia americana; foi mais longe e gritou para o mundo que o Rei está nu e que o sistema internacional terá que encontrar sua nova forma a partir de uma imparável multipolaridade. 

(*) Héctor Luis Saint-Pierre é professor da Unesp, coordenador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e ex-diretor da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). É autor de “Max Weber: entre a paixão e a razão” (Editora Unicamp) e “A política armada: fundamentos da guerra revolucionária” (Editora Unesp).

Notas:

[1] Estratégia de Segurança Nacional (NSS 2025) de novembro de 2025 e Estratégia Nacional de Defesa (NDS 2026) de janeiro de 2026 publicada com o subtítulo “Restoring Peace Through Strength for a New Golden Age of America”.

[2]  Condenado pelo Tribunal Penal Internacional que em novembro de 2024 expediu mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o ministro da Defesa, Yoav Gallant, sob acusações de crimes de guerra e contra a humanidade

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