Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
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A meados de julho, os Democratas Socialistas da América (DSA) lançaram seu novo programa político. O documento reforça alguns dos compromissos centrais da organização, como a luta pelo acesso universal e gratuito à saúde (“Medicare for All”), e insiste nas propostas de acesso à moradia a preços justos. No campo semântico, o programa adota mais explicitamente uma linguagem antirracista, feminista e, sobretudo, centrada na luta de classes: propostas políticas domésticas e internacionais, por exemplo, aparecem agora regidas pela qualificação explícita de serem voltadas à classe-trabalhadora. Mirando os desafios postos pelas eleições de meio de mandato, em que se elegem congressistas federais e a maioria dos governadores de cada estado, o novo programa da DSA põe as cartas na mesa para o que pode vir a significar uma futura administração federal de orientação socialista em solo norte-americano. 

Dentre os principais pontos de interesse no recente documento, no entanto, ao menos um aspecto deve chamar a atenção daqueles que observam as eleições americanas desde fora: quais mudanças um governo social-democrata traria na política internacional  dos Estados Unidos? Para os que acompanham a DSA, esboçar respostas para essa pergunta necessariamente passa por acompanhar os esforços da organização em se solidificar nacionalmente, alçando cargos restritos às municipalidades até o legislativo federal. Estes esforços são, na minha visão, concentrados nos dois outros aspectos que julgo decisivos na orientação recente do DSA: a busca por capilaridade para além de centros urbanos, costumeiramente compostos por eleitores progressistas ou ao menos de voto democrata; e por conquistar votos entre populações não-brancas, que têm abandonado a ala democrata tradicional em direção ao MAGA.

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Se o DSA almeja iluminar o caminho para o socialismo em terras americanas, ele não pode se esquivar do que é repensar o império desde dentro.  (Foto: Joe Brusky / Flickr)

Se o DSA almeja iluminar o caminho para o socialismo em terras americanas, ele não pode se esquivar do que é repensar o império desde dentro. 
(Foto: Joe Brusky / Flickr)

A crítica à centralidade do DSA em centros urbanos em detrimento às demais áreas dos Estados Unidos não é nova. De fato, a revitalização nas diretrizes da organização, e a recém centralidade das políticas de “affordability”, surgem em um momento de particular efervescência com as recentes conquistas em âmbito municipal, capitaneadas sobretudo pela popularidade do prefeito nova-iorquino Zohran Mamdani. Só em Nova Iorque, para além da prefeitura de Mamdani, o DSA contará para o ano que vem com 30 membros para as câmaras estaduais: serão 4 senadores, 11 deputados e 15 dos 16 legisladores apoiados. Segundo os meios oficiais de comunicação da organização, trata-se da segunda maior maioria na história das eleições estaduais americanas. Embora os ânimos políticos da organização pareçam cada vez mais se tornar realidade entre os centros urbanos dos Estados Unidos, com vitórias confirmadas também nas câmaras da Pensilvânia e do Colorado, o novo programa do DSA visa antes de mais nada capilarizar a presença socialista em regiões tradicionalmente menos afeitas a ideais progressistas. Em estados do sul, sua presença ainda é tímida: no Kentucky, por exemplo, estado desde o qual escrevo, apenas uma cadeira da câmara municipal de Louisville é atualmente ocupada por um social-democrata. 

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Para as eleições de meio-período, que ocorrerão no início de novembro deste ano, a conquista da confiança de populações não-brancas se coloca como outro desafio para a onda socialista liderada pelo DSA. Se a figura de Mamdani aproximou a organização da população árabe e muçulmana, crescem, por outro lado, as desconfianças para com o movimento entre as comunidades negra e latina. O relativo baixo apoio entre camadas de eleitores historicamente ligadas ao Partido Democrata, e que nas últimas eleições têm se voltado contra seu establishment em preferência ao voto republicano, apresenta uma dificuldade demográfica particular à organização que se concebe representante da classe trabalhadora estadunidense. Enquanto as populações latinas são as mais diretamente afetadas pela recente brutalização nas políticas imigratórias americanas, as comunidades negras foram responsáveis pelas principais lutas emancipatórias no país. Ambas, ademais, ainda estão desproporcionalmente representadas entre suas camadas economicamente mais desamparadas. 

Os dados preocupam tanto quanto apontam contradições internas à maneira como crescem os ideais socialistas em solo norte-americano. Para alguns analistas à esquerda do partido democrata, como Pascal Robert, o DSA ainda é percebido como uma organização apoiada sobretudo pela classe intelectual de jovens americanos, membros do que Alex Hochuli denominou “MANGOs” (trabalhadores de Mídia, Academia e ONGS, em tradução livre do acrônimo). Embora quadros de proeminência na organização sejam de origem latina, como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, a maioria de seus eleitores ainda é de origem branca, graduada ou pós-graduada, e de estratos de classe média. Conquistar trabalhadores não-brancos para o socialismo, no entanto, deve passar para além de regimes de representação, muitas vezes lidos como resultantes de culpa moral por parte de classes intelectuais privilegiadas. Trata-se de recuperar a esfera prática de conquistas sociais levadas adiante pela história negra do socialismo norte-americano, combinando as já importantes vitórias do DSA com o lastro concreto de lutas que historicamente sempre aproximou populações negras a ideais socialistas. 

A mais importante seção das novas diretrizes do DSA é, no entanto, a textualmente mais curta. Dividida em quatro temas principais, a organização elenca os seguintes eixos para sua política internacional: acabar com a máquina americana de guerra; a luta por uma Palestina livre; acabar com os bloqueios, sanções e embargos econômicos; abolir a Agência Federal de Imigração (ICE). Leitores atentos perceberam como, dos quatro pontos elencados, apenas um não seria explicitamente anunciado pela negativa – e, mesmo no caso de uma luta pela libertação palestina, esta se detalha pelo fim ao financiamento militar a Israel. 

Pairam no ar dimensões propositivas do DSA em relação à sua política externa, contudo. Se a organização visa expandir-se em direção ao legislativo e ao executivo federais, a pergunta que não quer calar é o que significaria para o restante do mundo um governo socialista desde o centro do império. A insatisfação não é nova: durante as primárias para a eleição presidencial de 2016, Bernie Sanders rotineiramente tergiversava quando questionado acerca de temas como a relação EUA-América Latina ou a presença militar no Oriente Médio. O atual senador também exibiu uma demora infame para pôr os pingos nos is quanto às investidas de Israel sobre o território palestino, e continua a personalizar sua defesa ao fim do financiamento militar àquele estado no governo Netanyahu. E, embora a figura de Mamdani tenha, neste sentido, renovado as esperanças, as limitações de um cargo municipal não colocam à prova seus compromissos militantes em relação à política externa americana. 

Entre analistas estadunidenses, tornou-se comum ouvir o slogan de que “política internacional não ganha eleições” – embora certamente ela faça com que eleições sejam perdidas, como desenham as previsões para as eleições de meio de mandato após os desastres econômicos engatados pelo fracasso militar no Irã.  Pois, em termos de império, falar em política doméstica é necessariamente falar em política internacional, e vice-versa: não haverá respostas concretas à crise de desindustrialização ou ao avanço da financeirização da economia domésticas, por exemplo, sem uma reavaliação robusta do lugar que ocupam os 50 estados americanos na economia política mundial. Tampouco haverá mudanças concretas nas políticas de imigração – que caducam desde muito antes do recente governo assumir – sem uma mudança estrutural na maneira como os Estados Unidos se relacionam com os demais países.

Se o DSA almeja iluminar o caminho para o socialismo em terras americanas, ele não pode se esquivar do que é repensar o império desde dentro. 

(*) Pedro Pennycook é doutorando em Filosofia na Universidade do Kentucky