Terça-feira, 23 de junho de 2026
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Uma vez, assistindo a uma série histórica, fiquei chocado com a informação de que, enquanto escrevia a declaração de independência dos Estados Unidos da América, George Washington tinha ao seu lado um homem negro escravizado. Enquanto redigia as belas palavras que iniciam uma Constituição, uma carta de direitos, garantindo igualdade e liberdade para os homens num Estado fundado por imigrantes que abandonaram o antigo regime e fundam o Novo Mundo, o pai-fundador da Nação norte-americana tinha ao seu lado um ser humano que não faria parte desse mundo novo.

Esses paradoxos, presentes nas bases de construção da mais antiga democracia do mundo, representam bastante meu imaginário sobre os Estados Unidos da América. Nada disso aparece nos filmes de Hollywood. Denise Ferreira da Silva, em seu livro “Homo modernus: por uma ideia global de raça”, reconstrói as bases sobre as quais a sociedade moderna foi fundada: o paradigma de um homem universal que só pode se constituir enquanto tal na medida em que nega a humanidade dos “outros” da Europa, se tornando uma espécie de “Eu transparente”, que encara a natureza do mundo enquanto cria os outros de si como um “Eu afetável”, distinto, sobre o qual todas as violências e desumanizações podem acontecer sem que haja alguma espécie de culpa ou crise ética. 

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Por isso a segregação foi possível, os linchamentos foram aceitáveis, a negação de direitos políticos às pessoas negras foi um ideal nessa democracia e hoje, a negação da humanidade segue sendo uma máxima na mais antiga democracia do mundo. 

A Copa do mundo de 2026 está apenas começando, mas o racismo foi o primeiro e principal convidado para a festa que deveria unir os povos. <br> (Foto: The White House / Flickr)

A Copa do mundo de 2026 está apenas começando, mas o racismo foi o primeiro e principal convidado para a festa que deveria unir os povos.
(Foto: The White House / Flickr)

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A Copa do mundo de 2026 está apenas começando, mas o racismo foi o primeiro e principal convidado para a festa que deveria unir os povos. A égide do Estado que a tudo pode em prol da autodeterminação e da segurança contra a ameaça constante desses “outros” fundamenta os desmandos que selecionam aqueles que são considerados “aceitáveis” e aqueles que não o são. 

Infelizmente, o técnico somali Omar Artan, eleito melhor árbitro do continente africano em 2025, foi uma das vítimas da tese da transparência dos EUA. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Miami portando passaporte diplomático, visto válido e credenciais oficiais da Fifa, ele foi abordado, detido e obrigado a suportar mais de onze horas de interrogatório para, logo em seguida, ser despachado em um voo de volta para a Turquia. O sonho de apitar a primeira Copa do Mundo foi interrompido, como o de outras autoridades e torcedores considerados “outros” da universalidade do homem branco europeu. 

A própria Fifa tem se mantido omissa e silenciosa frente a essas injustiças. Omar, no entanto, foi recebido de volta à Etiópia como herói. Ao menos a tese da transparência parece estar criando a solidariedade entre esses “outros”, que têm buscado cada vez mais recuperar sua autodeterminação como inegavelmente humanos, para além de qualquer suposta determinação do colonizador. A bola ainda vai rolar, mas dessa vez, ao menos nos EUA, o árbitro seguirá sendo o racismo.

(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.