Quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
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Ontem, o presidente da Segunda Turma do STF, Gilmar Mendes, concedeu uma liminar que suspende trechos centrais da lei de 1950 que regula o impeachment. É o velho Gilmar “de volta” ao centro da política.

De fato, é uma decisão brusca, que reorganiza o tabuleiro político no meio da travessia e cria, inevitavelmente, atrito entre Poderes.

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O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, durante entrevista para a Agência Brasil. <br> (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, durante entrevista para a Agência Brasil.
(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Vamos tentar olhá-la sob a secura da política, sem a espuma das primeiras leituras: três forças se tocam aqui — a reação à tática da extrema direita de fabricar inimigos para mobilização constante, a disputa entre Legislativo e Supremo pelo desenho das regras do jogo e a dificuldade crescente da democracia liberal em administrar seus próprios mecanismos de proteção.

Quando a revisão da Lava Jato desmontou o enredo que sustentava a cruzada anticorrupção, a extrema direita encontrou no STF o inimigo de reposição de que precisava. O tribunal foi sendo arrastado para esse lugar de antagonista permanente, convertido em combustível diário para mobilização. Quem estava lá? Gilmar.

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No governo Bolsonaro, esse antagonismo ganhou forma estável: o STF virou peça central do enredo conspiratório que mantinha a base mobilizada, e a fabricação do inimigo deixou de ser só retórica para se tornar método de governo. Hungria e El Salvador mostram o passo seguinte desse processo: tribunais comprimidos até ceder, constituições tratadas como travas. Esse é o objetivo da extrema direita, que nao é também descartado pelo Centrão.

O que sabemos, ainda, é que Brasil não chegou lá, mas o ambiente em que a liminar de Gilmar ressurge carrega o desgaste acumulado dessa fabricação do inimigo. Esse deslocamento teve efeito cumulativo: ao transformar o tribunal em antagonista permanente, a extrema direita produziu um conflito que passou a regular o ambiente político, pressionando instituições que já operavam sob fraturas anteriores.

Carl Schmitt, jurista que forneceu munição intelectual ao nazismo, concebia a política como a distinção entre amigo e inimigo. A extrema direita brasileira, lendo ou não Schmitt, operou esse manual com disciplina: converteu o STF em antagonista estável para manter sua base mobilizada. Hungria e El Salvador mostram o estágio final desse processo: tribunais comprimidos até cederem. O Brasil não chegou lá, mas a liminar de Gilmar surge nesse ambiente saturado, como reação de uma corte que deixou de ser apenas ator jurídico para se tornar alvo de uma engrenagem de ressentimento. O tribunal já opera sob o desgaste acumulado de ter que se defender.

Executivo e Legislativo projetam seus cálculos nesse cenário. O governo tenta evitar que a disputa descambe para um conflito aberto com o Congresso em véspera de ano eleitoral, enquanto o próprio Congresso mede até onde pode tensionar sem parecer aliado do bolsonarismo residual que ainda resiste no plenário.

Operadores econômicos acompanham com atenção: qualquer alteração no equilíbrio institucional mexe em expectativas, vetos e humores que raramente aparecem na superfície, mas condicionam decisões e reposicionamentos. Nessa disputa velada, cada gesto público carrega cálculos internos que raramente aparecem, mas orientam a forma como os Poderes tentam proteger seus espaços num ambiente que deixou de oferecer garantias mínimas de estabilidade.

O gesto do animal político chamado Gilmar se instala como brusco, estratégico e consciente de seu efeito imediato, fere os pruridos da cartilha liberal, mas é necessário.

Ele move peças, reorganiza tensões e recoloca o STF no centro da disputa. O gesto não pacifica; apenas redesenha o campo no qual Executivo, Legislativo e os interesses econômicos tentam preservar seus espaços antes que a temperatura suba de novo. Gilmar opera com experiência acumulada; ajusta o tabuleiro por instinto político e leitura rápida do momento, produzindo um arranjo provisório que, por alguns dias, dá forma a um cenário feito de atrito constante.

O resultado não encerra o embate. Antes, expõe a fragilidade do arranjo institucional, a disputa contínua pelo sentido da Constituição e o desgaste de uma democracia que tenta funcionar sob pressão ininterrupta desde a ascensão da Lava Jato. Se algo aparece com nitidez nesse percurso, é o estreitamento das margens entre autodefesa institucional e intervenção direta no jogo político — um limite precipitado pelo próprio processo que cercou o STF e que agora condiciona cada movimento, inclusive este.

A liminar, nesse sentido, não resolve o que está em disputa; apenas evidencia que o país opera dentro de um arranjo esgarçado, onde cada Poder tenta limitar danos enquanto avança um centímetro. A democracia continua funcionando, mas com folga cada vez menor para absorver choques que já fazem parte do cotidiano político.

Há sinais de desgaste que se acumulam e já moldam o modo como as instituições reagem umas às outras. As decisões deixam de ordenar o cenário e passam a disputar espaço com crises simultâneas que ninguém consegue administrar por completo. Cada movimento cria fricções novas, enquanto consensos mínimos se desmancham antes mesmo de serem testados.

O país avança, mas sempre com a sensação de caminhar sobre um terreno que não sustenta o próximo passo. É o quadro de 2026 e adiante.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.