Terça-feira, 9 de junho de 2026
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Há dias em que acompanhar a política exige fôlego. A sensação aparece no meio do cotidiano, entre leituras interrompidas, telas abertas, acontecimentos que se acumulam. Um incômodo leve, persistente, difícil de localizar. O corpo sente antes de qualquer formulação. Algo no ritmo do tempo pesa, aperta, tira o ar. Não vejo como uma crise individual, tampouco de desinteresse. É um sintoma de um mundo acelerado. Uma experiência compartilhada, ligada à forma como os acontecimentos políticos passam a se apresentar e a ocupar o dia.

Assim, a aceleração técnica organiza esse tempo. As notícias chegam misturadas a mensagens, vídeos, notificações, comentários, conflitos virtuais que atravessam as horas em pequenas pancadas. O telefone vibra sobre a mesa, a tela se acende, o acontecimento aparece já acompanhado de reação e solução posterior. A política deixa de ter começo, meio e consequência; passa a circular como presença contínua, quase como um cheiro no ambiente. Não se entra mais nela: vive-se dentro dela.

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Foi conveniente, semana passada, a memória de uma leitura antiga. Em “Velocidade e Política”, livro de 1977, o filósofo Paul Virilio trata a velocidade como algo que reorganiza a própria experiência, comprimindo a duração e afetando a forma como o mundo chega até nós.

Brasília (DF), 01/09/2025 - A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF) montou esquema especial de segurança para o julgamento dos primeiros réus da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF). <br> (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Brasília (DF), 01/09/2025 – A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF) montou esquema especial de segurança para o julgamento dos primeiros réus da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF).
(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Li esse livro em outro tempo, desconfiado das amálgamas de Virilio, quando as ideias ainda entravam devagar, quando a leitura era o precioso silêncio, quando o corpo não vivia em estado permanente de alerta. Sem romantismo com um passado lindo que nunca existiu. Há uma ironia delicada nisso. Aquela leitura, feita com calma, descrevia com precisão um regime que hoje pesa sobre o nosso cotidiano. A lembrança me faz parar para ler de novo.

O que então parecia diagnóstico distante retornou agora como sensação corporal. O corpo reconhece antes do entendimento o encurtamento do tempo, a pressão constante, a dificuldade de respirar dentro do fluxo. A leitura reaparece menos como referência intelectual, mais como memória viva ativa, algo que se confirma na experiência diária. A aceleração deixa de ser o conceito e passa a ser experiência.

Jogando a bola no chão, esse regime torna-se visível em episódios recentes da política brasileira. A cobertura cotidiana em torno da prisão de Jair Bolsonaro é um exemplo. Organizada como uma novela diária, empurrada por pequenos detalhes: despachos parciais, versões jurídicas, bastidores, reações, comentários que se acumulam e se substituem. Cada fragmento desloca o anterior antes que qualquer compreensão se estabilize. O desejo que o próximo microacontecimento confirme o que desejamos.

A figura política permanece intensamente presente, mesmo associada à ideia de afastamento institucional. O tempo da política segue ocupado. A atenção permanece solicitada. O ritmo acelera. A experiência política assume forma seriada, episódica, sustentada por uma sucessão de atualizações que mantêm o acompanhamento constante e dificultam o entendimento mais amplo, o presente condensa o passado e comprime a ideia de futuro.

Algo semelhante ocorre na repercussão de denúncias envolvendo o sistema financeiro e decisões do Supremo Tribunal Federal, como no caso do Banco Master. A gravidade do tema convive com sua difusão excessiva. Informações circulam em versões abreviadas, comentários rápidos, nomes em profusão, resumos apressados, atravessando o cotidiano junto a inúmeros outros assuntos.

A repetição contínua transforma a denúncia em pano de fundo. O excesso produz desgaste. O tempo curto da circulação impede que a gravidade se converta em compreensão durável. O que exigiria elaboração passa a integrar o ruído diário, naturalizado pela saturação.

Esses episódios, tomados em conjunto, revelam uma mesma forma de experiência política. A velocidade encurta a duração dos acontecimentos, enquanto o excesso ocupa todo o campo da atenção. O tempo deixa de funcionar como espaço de sedimentação e passa a operar como superfície móvel, constantemente rearranjada. A política chega em fragmentos, reaparece em séries, espalha-se por detalhes que pedem acompanhamento contínuo.

É aqui que o diagnóstico de Mark Fisher ganha espessura. O capitalismo tardio aparece como um regime que ocupa o horizonte da experiência, moldando ritmos, expectativas e formas de atenção. O tempo apresenta-se permanentemente preenchido. Pouco espaço para pausa, retorno, elaboração. A política circula nesse ambiente atravessada por cansaço, saturação e dificuldade de projeção. 

Nesse ambiente, a angústia instala-se como experiência difusa. Um cansaço que não se resolve com desligamento, uma irritação leve que acompanha o acompanhamento cotidiano da política. O corpo reage antes da compreensão, acompanha antes de organizar, sente antes de julgar. Pensar exige esforço adicional, quase um trabalho de escavação em meio ao fluxo.

Essa angústia interfere na possibilidade de construir racionalidades políticas, tanto pela recusa da reflexão, como pela dificuldade prática de sustentá-la no tempo. O juízo passa a se formar entre interrupções, fragmentos e retomadas incompletas. O pensamento encontra pouco espaço para se depositar. O presente avança sempre um pouco mais rápido do que a capacidade de compreendê-lo.

Volto, então, ao ponto de partida. A falta de ar reaparece como sinal discreto desse descompasso entre o ritmo imposto aos acontecimentos e o tempo necessário ao pensamento. Um índice sensível de como a política passou a ser vivida sob pressão contínua, saturação informacional e urgência permanente. Nomear essa experiência não a dissolve. Mas talvez permita reconhecê-la como parte do problema – e, com sorte, abrir algum espaço para que o pensamento volte a respirar dentro do fluxo.

Aqui paro e retorno às referências. Paul Virilio ajuda a perceber como a velocidade comprime a duração e empurra o corpo para um estado constante de alerta; em Mark Fisher, esse tempo aparece ocupado, sem intervalo, sempre cheio. A política circula assim: presente demais, tempo de menos; os acontecimentos passam, se acumulam, se substituem, sem repouso. Parar um pouco e ouvir a dúvida pode ser uma solução. A dúvida não resolve nada, mas atrapalha a engrenagem. E, às vezes, é aí que alguma coisa pode vicejar.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.