Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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Enquanto se encontra imerso em tensões estratégicas com seus vizinhos, o governo de extrema direita do Japão agora passa a ser atormentado com uma crise econômica reveladora: o iene, a moeda nacional, começa a sofrer uma desvalorização, enquanto a inflação segue dando pontadas, contrariando o mito da economia deflacionária e eterna portadora de juros baixos ou negativos – ponto que é central para a economia americana.

Os americanos se tornaram cada vez mais dependentes do Japão em termos de financiamento de sua dívida pública – ainda mais depois que os chineses tiraram o pé do mercado da dívida americana e se tornaram até um perigo, diante da rodada de tensões iniciada por Donald Trump desde 2017. Os famosos juros baixos e estáveis do Japão serviam como engate para uma série de operações vitais do Tesouro americano.

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O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi

O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, durante encontro no Palácio de Akasaka, em outubro de 2025.
(Foto: Government of Japan / Wikimedia Commons)

Investidores locais e internacionais tomavam empréstimos baratos no Japão, rapidamente revertidos na compra de títulos da dívida americana – estes com juros baixos, mas superiores aos praticados dentro do Japão.  No fim, isso aparecia registrado como dívida americana com o Japão, apenas pelo fato dessa dívida estar custodiada lá, além do fato de instituições japonesas muitas vezes terceirizarem esses negócios para paraísos fiscais, alguns de renome.

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Essa operação, que não é nova, ganhou força quando os Estados Unidos impuseram, via os famosos Acordos Plaza de 1985, o fim do Japão como uma economia produtiva, punindo duramente o povo daquele país, mas apenas rearranjando o jogo com as elites dele: da indústria para as finanças. Para entender como isso se deteriorou, é preciso voltar à história recente do Japão e entender a conjuntura do país.

De país da tecnologia a entreposto financeiro

O Japão era uma espécie de modelo de sucesso do capitalismo até os anos 1980. Muitas vezes apresentado como exemplo de que a subserviência aos Estados Unidos pode gerar prosperidade e até espaço de manobra – os avanços do capitalismo japonês eram notáveis, e o país inclusive substituía os Estados Unidos no imaginário futurista, em algo como um caso de um dominado que colabora com o dominador e caminha para substitui-lo. 

 A rebelião da indústria americana durante a era Reagan fez com que o governo americano impusesse um freio aos japoneses. O câmbio japonês seria valorizado artificialmente e o próprio governo colaboraria em parar de disputar o mercado americano, sobretudo de automóveis e eletrodomésticos – mas o que pode ser lido como uma “derrota nacional” era só mais um reajuste da relação entre as elites americana e nipônica.

O Japão se tornou uma economia estagnada, mas com as elites ganhando dinheiro em outro ramo que não a indústria para exportação, gerando uma dura punição para as classes médias e baixas. O resultado foi aumento da taxa de suicídios, queda da taxa de natalidade e um envelhecimento considerável da população sem investimento suficiente em tecnologia para repor a mão de obra perdida ou envelhecida.

Até a pandemia de Covid-19, nada disso mudou significativamente a estabilidade estagnada do Japão, enquanto muitos olhavam para um problema nada real, o endividamento público do país na própria moeda, com juros baixíssimos, como se esse fosse o problema – o Japão seguia como um grande credor internacional; na verdade, em outras palavras, a economia da dívida não era o problema.

A economia real manda notícias

No começo de 2025, o site Nippon.com deu uma breve nota chamada Japan’s Labor Productivity Remains Low (A produtividade do trabalho do Japão se mantém baixa), a qual trouxe um dado singelo, mas doloroso, do Japanese Productivity Center: houve uma queda relativa da produtividade do país, marcada sobretudo da pandemia para cá, que significou para o Japão uma espécie de momento de rachadura do iceberg – até ali, um descongelamento, mas agora fratura e deriva. 

Com uma dependência de importação de energia do Oriente Médio, a incapacidade de fazer como seus rivais chineses que diversificaram fontes energéticas e, ainda, o envelhecimento da população economicamente ativa, o Japão acusa essa queda brusca de sua produtividade: produzindo menos do que pode e tendo de repor mão de obra por um número pequeno de ingressantes no mercado de trabalho, é natural que os preços aqueçam.

Some-se tudo isso à conjuntura de preços emergentes nos mercados de petróleo, causados pela própria ação americana na Ucrânia e, agora, Irã. Os japoneses só não estão em pior situação pela maneira como a rival China estabilizou os preços globais de energia: ao criar estoques brutais de petróleo e diversificar fontes energéticas, Pequim fez com que o preço do barril não subisse tanto quanto poderia na recente crise.

Mas isso só foi suficiente para absorver uma parte, e não deter, a alta da inflação e a desvalorização cambial do país. Na medida que esses empréstimos para comprar títulos da dívida americana são tomados em iene, a vantagem competitiva desse negócio desaparece, como aponta frequentemente José Kobori. O Japão passa a necessitar de juros maiores, gerando o risco de acabar com essa diferença.

Ainda, com uma moeda em desvalorização, ela pode comprar menos títulos em dólar, jogando pressão sobre seguradoras japonesas que atuam no mercado cambial. É até um movimento natural do mercado que esse polo trilionário de absorção da dívida americana rume para um desfazimento de títulos americanos, embora as perspectivas não sejam boas para o Japão com a necessidade de subir os próprios juros sendo demandada no curto prazo.

A reação do governo japonês atual é débil. Enquanto ele prefere endossar um discurso xenofóbico contra imigrantes – quando o Japão precisaria importar em massa trabalhadores estrangeiros – e satisfazer o chauvinismo de setores da sociedade japonesa com diatribes com seus vizinhos do Extremo Oriente, a ação real dele é agir em conjunto, e sob o comando, dos Estados Unidos, para torrar reservas e segurar o preço da moeda.

O que isso quer dizer para Trump?

Basicamente, os Estados Unidos não deixarão de ser interessados na sua dívida externa, mas o problema é justamente que o custo para rolar a dívida americana se tornará mais caro – e já é assim, com o déficit nominal americano saltando nos últimos meses em razão do encarecimento da rolagem da sua dívida pública, mesmo que ainda por fatores automáticos de mercado, enquanto ocorre uma pressão imensa para o aumento da própria taxa básica de juros.

Parte disso já se viu no ano passado, quando o fracassado tarifaço de Donald Trump ao tentar provar a importância da ausência do dólar, provou o contrário, a ausência de sua importância ao menos total: sem dólares circulando adequadamente no mercado global, detentores de títulos da dívida se livraram de suas posições em dólar para obter a moeda para obrigações de curto prazo, enquanto buscaram saídas de longo prazo para a instabilidade no sistema do dólar.

A incapacidade em resolver o conflito na Ucrânia manteve um edema inflacionário – isto é, um fator que tensiona o mercado global de gás e petróleo – enquanto o Irã se somou a isso não só pelo impacto da guerra por si só na região como, ainda, pela maneira como Teerã se mostrou capaz de controlar o tráfego no estreito de Ormuz. Isso é o pior pesadelo possível para a administração Trump, que esperava fugir aos dois conflitos e seus efeitos.

Por outro lado, as bolsas americanas seguem aquecidas, demandando juros menores para que fundos continuem a investir principalmente em ações do ramo da Inteligência Artificial. Uma alta dos juros drenaria liquidez desse setor e levaria recursos para o mercado da dívida americana, mas a partir daí haveria um problema de caixa – ainda mais tendo em vista o desenvolvimento da IA pela China, na forma de código aberto.

A indústria da IA, por sua vez, tem sido cada vez mais vocal sobre obter recursos públicos, o que a tem empurrado, de forma veloz, para o negócio do setor bélico. O problema é que são justamente as guerras em curso que produzem o caos econômico que ameaça essa mesma indústria – ou seja, para resolver problemas de curtíssimo prazo, a indústria da IA ameaça seu futuro de curto prazo.

Tudo o que Trump menos precisava agora era essa crise japonesa, mas novamente ele não tem uma resposta adequada. O governo japonês, sob o comando de Takaichi Sanae – a primeira mulher a ocupar o cargo e, ao mesmo tempo, a figura mais radicalmente à direita a fazê-lo desde a derrota na Segunda Guerra – se mostra incapaz de diagnosticar os problemas de seu país, imagine só resolvê-lo.

Mas para ter um futuro possível, o Japão precisaria desarmar lentamente a armadilha financeira e se voltar, precisamente, para o setor produtivo – o que demandaria uma aproximação com seus vizinhos, não a tensão atual. Por outro, a solução para o Japão faria ele deixar de ser esse pivô útil para os Estados Unidos, que simplesmente não têm nada a fazer senão usá-lo dessa forma, a menos que corte gastos militares para evitar cortar em setores necessários.

O voluntarismo “isolacionista” de Trump, e de parte da direita americana, fracassou porque ele é incapaz de produzir sequer um modelo de capitalismo capaz de evitar a política de guerras eternas. Hoje, pelos interesses de uma fração insignificante das populações de Estados Unidos e Japão, ambos os países marcham juntos para um abismo – que, por sinal, ameaça a paz de toda a humanidade. 

(*) Hugo Albuquerque é jurista e editor da Autonomia Literária.