Panafricanismo de volta à cena
O panafricanismo do século XXI não pode ser apenas uma estética nem um discurso de identidade confortável. Ele é, ou deveria ser, uma disputa sobre soberania real
Há momentos em que uma palavra retorna não como lembrança, mas como exigência.
O panafricanismo é uma delas.
Durante muito tempo, ele foi tratado como capítulo encerrado da história do século XX – ligado às independências africanas, a nomes consagrados, a um sonho que teria perdido fôlego diante da realpolitik global. Mas o que vejo hoje é outra coisa: o panafricanismo voltou porque a colonialidade nunca foi embora.

Quando penso no panafricanismo hoje, não penso apenas em Estados, cúpulas ou declarações oficiais. Penso em circulação. Em deslocamento. Em corpos e ideias que sempre cruzaram o Atlântico mesmo quando os mapas insistiam em separar.
(Foto: Tope J. Asokere / Pexels)
Os encontros recentes em Lomé e Argel escancararam isso. Não como consenso, mas como encruzilhada. De um lado, a tentativa de reformar as instituições internacionais, ocupar seus espaços, negociar reconhecimento. De outro, a suspeita profunda: e se essas instituições forem, desde a origem, arquitetadas para manter a África num lugar subordinado? Não é uma divergência tática. É uma divergência sobre o próprio terreno onde se pisa.
O que me chama atenção é que essa tensão não é apenas africana. Ela atravessa a diáspora. Atravessa o Brasil. Atravessa qualquer pessoa negra que foi educada a acreditar que pertencimento viria pela inclusão em sistemas que nunca nos imaginaram como sujeitos plenos.
Quando penso no panafricanismo hoje, não penso apenas em Estados, cúpulas ou declarações oficiais. Penso em circulação. Em deslocamento. Em corpos e ideias que sempre cruzaram o Atlântico mesmo quando os mapas insistiam em separar. A diáspora africana não é um apêndice da história africana – ela é parte constitutiva dela. E talvez por isso seja tão incômoda: porque expõe contradições que os Estados preferem silenciar.
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O caso do Brasil é emblemático. Há um discurso forte de proximidade simbólica com a África, mas uma dificuldade crônica de assumir compromissos políticos consistentes quando estes exigem ruptura com alinhamentos coloniais. A ausência brasileira em espaços centrais do debate panafricano contemporâneo não é neutra. Ela revela escolhas. Revela limites. Revela medo de assumir posição num mundo que cobra cada vez mais clareza.
O panafricanismo do século XXI não pode ser apenas uma estética da união nem um discurso de identidade confortável. Ele é, ou deveria ser, uma disputa sobre soberania real: econômica, epistêmica, tecnológica e simbólica. Disputa sobre quem define desenvolvimento, democracia, direitos humanos e futuro. Disputa sobre quem ainda paga o preço da modernidade global.
Talvez por isso a pergunta mais honesta não seja “o panafricanismo voltou?”.
Ele nunca se foi.
A pergunta que fica – e que me acompanha – é outra: qual África vai se afirmar nesse retorno?
E qual diáspora terá coragem de caminhar com ela até o fim da encruzilhada?
(*) João Raphael (Afroliterato) é escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ. É apresentador do programa “E aí, professor?” do Canal Futura.
























