Segunda-feira, 8 de dezembro de 2025
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A forma como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu intervir na eleição presidencial em Honduras, ocorrida neste domingo (30/11), é, no mínimo, inovadora.

Dois dias antes das eleições presidenciais, o republicano anunciou que concederia indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (JOH), que está detido nos EUA com uma pena final de 45 anos de prisão por exportar mais de 400 toneladas de cocaína para o território norte-americano, conforme determinado por um juiz do distrito sul de Nova York.

Na semana anterior, Trump também se manifestou enfaticamente a favor do candidato do Partido Nacional de Honduras (PNH), Nasry ‘Tito’ Asfura, a quem prometeu “grande apoio” caso vença as eleições.

Pelo contrário, ele ameaçou retirar toda a ajuda a Honduras caso vencessem a candidata Rixi Moncada, do Partido Liberdade e Refundação, ou Salvador Nasralla, do Partido Liberal, a quem chamou de “comunistas”.

Com o refrão de “não desperdiçar seu dinheiro”, Trump está replicando a estratégia que usou recentemente nas eleições de meio de mandato na Argentina, na qual o partido de seu aliado, o presidente Javier Milei, saiu vitorioso. A fórmula só falhou no Equador de Daniel Noboa, onde um grande revés político foi o resultado [do referendo para uma nova Constituição no país].

Na contagem preliminar, Asfura liderava a disputa contra Nasralla, enquanto Moncada tinha pouco menos de 20% dos votos. Mas ainda falta um longo dia para a conclusão da apuração final, e a diferença entre os dois primeiros colocados parece estar diminuindo.

Uma história comum

Em 2021, Asfura apresentou-se como protegido político de JOH, visto que este não podia ser reeleito por já ter cumprido dois mandatos como presidente. Nessa eleição, o candidato conservador foi derrotado pela atual presidente, Xiomara Castro.

Seu nome apareceu nos documentos do Pandora Papers e atualmente enfrenta um processo judicial, que pôde responder em liberdade após a revogação de uma proibição de saída do país. A unidade fiscal especializada contra redes de corrupção (UFERCO) de Honduras o investiga por suspeita de peculato, lavagem de dinheiro e fraude.

É importante lembrar que, poucas semanas após Castro assumir o cargo, JOH foi rapidamente transferido para os EUA, país que havia solicitado sua extradição sob a acusação de promover uma operação de “tráfico de drogas patrocinada pelo Estado”, segundo a Procuradoria.

O juiz Kevin Castel, do Tribunal Distrital do Sul de Nova York, proferiu a sentença após verificar, por meio de dados de traficantes de drogas, agentes da Administração de Repressão às Drogas (DEA) e informações extraídas de outras prisões, que Hernandez pertencia a uma rede de tráfico de drogas e a promovia, para a qual fornecia proteção armada.

 Em Honduras, Trump replica estratégia que usou nas eleições de meio de mandato na Argentina
Official White House Photo by Daniel Torok

Uma das provas mais divulgadas foi a descoberta do caderno do narcotraficante Nery Orlando López Sanabria, vulgo ‘Magdaleno Meza’, que foi assassinado em uma prisão em Honduras em 2019, antes de JOH deixar o poder.

Agentes da DEA interceptaram as comunicações do ex-presidente e confirmaram que ele fazia parte de uma vasta rede criminosa que incluía até mesmo o narcotraficante Joaquín “El Chapo” Guzmán. O objetivo? Enviar centenas de toneladas de drogas para os Estados Unidos.

O caso, conhecido como “narco-cadernos”, detalhou pagamentos de suborno a autoridades, incluindo Juan Antonio “Tony” Hernández, irmão do ex-presidente, que também cumpre pena de prisão perpétua nos EUA. No momento, não há informações se o indulto de Trump se estenderá ao parente do ex-líder centro-americano.

Trump, surpreendente como sempre, optou por “colocar as mãos no fogo” por JOH, poucas horas antes do evento eleitoral. “Concederei um perdão total e completo ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, que, segundo muitas pessoas pelas quais tenho grande respeito, foi tratado com muita dureza e injustiça”, informou.

Essa ação de Trump não apenas subverte uma decisão do sistema judiciário de seu país, mas também coloca em xeque o trabalho da DEA e sua própria retórica, que nas últimas semanas insistiu em colocar o tráfico de drogas como uma das principais calamidades que afetam os EUA.

Ao mesmo tempo, a postura benevolente de Trump em relação a um político condenado por tráfico de drogas soa paradoxal se ele está na vanguarda da agressiva campanha que Washington implementou no Caribe, supostamente contra o narcotráfico, que foi acompanhada por acusações sem provas contra os presidentes da Venezuela e da Colômbia.

Vale lembrar que a defesa de John, antes de sua sentença em junho de 2024, em um esforço para evitar a prisão perpétua, solicitou uma redução para 40 anos. Hoje, nas palavras de Trump, ele está a um passo de ser libertado, o que indignou a opinião pública norte-americana.

Mais do que um “duplo padrão”, há uma clara arbitrariedade que implica que as opiniões das pessoas próximas a Trump podem ter mais influência sobre suas políticas do que as instituições policiais e judiciais dos EUA.

Assim, traficantes de drogas condenados, se forem de direita, podem esperar clemência e indulto. Enquanto isso, líderes de esquerda, sem qualquer prova, já são condenados por qualquer acusação que se encaixe na retórica hostil do trumpismo.