Pistas históricas para outra digitalização: o caso da cibernética soviética
Antes da internet global, cientistas soviéticos imaginaram redes nacionais de computadores para planejar a economia, mas enfrentaram resistência política
A crítica da digitalização tem uma tarefa fundamental: ao mesmo tempo em que visa compreender os modos de dominação e exploração reforçados e também inaugurados pela expansão totalizante das mediações digitais (que por sua vez são produzidas e organizadas sob a lógica da valorização do valor, dos investimentos proprietários e do controle monopolista), ela também precisa superar o determinismo, a teleologia e o essencialismo inscritos nas próprias concepções sobre o desenvolvimento tecnológico e digital.
Essa tarefa não é fácil em um mundo onde o tecno-solucionismo é contraposto por uma espécie de reflexo simétrico, acreditando ser seu opositor: a tecnofobia. A crítica da digitalização precisa ter cuidado para não incorrer em nenhuma dessas duas armadilhas ideológicas, sob o risco de acabar reproduzindo justamente elementos do que visa superar. É preciso diferenciar algo entre a digitalização realmente existente e as potencialidades emancipatórias da digitalização. Para isso, se faz incontornável também o esforço de recuperar as histórias de produção, apropriação e tentativas de subversão política da tecnologia digital — desde a cibernética e a informática —, sejam elas bem sucedidas ou não, nas diferentes tradições e experiências emancipatórias.
A Escola de Leningrado

Processadores de texto em exposição em um dos pavilhões da Exposição das Conquistas da Economia Nacional da União Soviética, em 1985.
(Foto: U.S. Department of Defense / Wikimedia Commons)
Para começo de conversa, é propício relembrar as experiências soviéticas, a começar pelo caso da cibernética na Escola de Leningrado. Tendo surgido nos EUA da década de 1940, tanto a inteligência artificial quanto a cibernética — respectivamente, com as publicação pioneira de Warren McCulloch (1898-1969) e Walter Pitts (1923-1969), e o livro fundacional de Norbert Wiener (1894-1964) — foram combatidas na URSS como pseudociência mecanicista dos países capitalistas até o começo da década de 50.[1] Entretanto, após a morte de Stálin e já no final dessa década, vendo a produção dos primeiros computadores no ocidente, departamentos de pesquisa começaram a surgir em território soviético — sendo o primeiro de 1958, criado em Moscou.
Com a “primavera cibernética” da década de 1960, emergia à cena científica o Laboratório de Cibernética Teórica fundado na Universidade de Leningrado (LGU) pelo matemático Vladimir Andreevich Yakubovich, colocando a cidade no mapa da ciência global e estabelecendo ligações fundamentais entre a matemática pura e as aplicações tecnológicas mais avançadas, da robótica à inteligência artificial — distinguindo-se da ampla interdisciplinaridade ocidental justamente pela abordagem quase estritamente matemática, posteriormente aplicável a outros campos.
Suas publicações são notoriamente relacionadas à teoria do controle, da estabilidade e do estudo de sistemas não-lineares. Mas, além disso, seus avanços no campo dos sistemas adaptativos e na teoria de sistemas de aprendizado também são fundamentais, com contribuições que serviram de legado para gerações de outros cientistas. Em meados da década de 1960, duas grandes contribuições na teoria dos sistemas de reconhecimento de padrões e no método das desigualdades recorrentes (permitindo construir algoritmos que convergem em um número finito de passos para a solução de sistemas de desigualdades) foram apresentadas por Yakubovich, colocando-o, junto de seus colaboradores, como um dos pioneiros do machine learning.
Cibernética e política soviética
Com a mudança ideológica em relação à recepção da cibernética, passando de pseudociência burguesa do controle para uma nova fronteira do desenvolvimento científico na URSS, sua apropriação serviu também como ferramenta de disputa política e reflexão sobre planejamento. Vale ressaltar também como o movimento cibernético tornou-se uma espécie de “guarda-chuva” para áreas científicas antes censuradas, como a linguística estrutural e a genética[2]. Em uma associação próxima entre cibernética e computação, que parece óbvia hoje mas não era tão exclusivamente imediata à época, os cientistas soviéticos se aproveitaram da imagem popular do computador como uma “máquina objetiva da verdade” e subverteram as críticas ideológicas anteriores, abrindo caminhos para o uso de modelos matemáticos em diversas disciplinas e encampando o objetivo de “cibernetização” das ciências.
Um ramo específico posteriormente reinterpretado pela cibernética soviética foi a economia matemática. Transformada em economia cibernética, passou a conceitualizar o pensamento econômico soviético em termos de sistemas responsivos de controle [feedback system of control], onde a regulação e gestão do fluxo de informações serviria à maximização da eficiência e funcionamento otimizado do sistema. É importante lembrar também que toda essa dinâmica, da recriminação à cibernética até sua apropriação pelos soviéticos, se desenrolou durante as primeiras décadas da Guerra Fria.
Enquanto isso, e justamente nesse contexto, se desdobravam acontecimentos militares de suma importância. Em meados dos anos 1950 o planejamento militar soviético passou a se preocupar com o desenvolvimento do sistema de defesa aérea americano, o SAGE [Semi-Automatic Ground Environment], basicamente uma “rede nacional centralizada de centros computadorizados para comando e controle, capaz de coordenar uma resposta à ofensivas aéreas massivas” [2]. Os soviéticos desenvolveram respostas em três sistemas distintos inspirados no SAGE, cada uma com sua rede de computadores, desenvolvidos independentemente por diferentes agências especializadas.
O modelo SAGE inspirou também projetos civis, por exemplo a proposta de Isaak Bruk em 1956, para criar uma rede hierárquica de máquinas de controle “para coletar, transmitir e processar dados econômicos e facilitar tomadas de decisão por simulações computadorizadas” [2]. Seu trabalho foi aprofundado tornando-se um instituto, até ser transferido em 1961 para o Conselho de Pesquisa Econômica do Estado.
Mas na aplicação diretamente organizacional das tecnologias computacionais, o engenheiro militar Anatoly Kitov foi idealizador de um projeto ambicioso, proposto a Nikita Khrushchev em 1959: uma rede nacional de computadores voltada para a superação da administração burocrática em um planejamento científico digital. Sendo o chefe do Centro de Computação do Ministério de Defesa soviético, Kitov detinha uma posição privilegiada para a proposta, sendo também um dos pioneiros da cibernética soviética, participando de sua reabilitação em artigos e livros que se tornaram referências para gerações de pesquisadores.
Seu projeto visava “reduzir o número de funcionários, o uso ineficiente do processamento de dados e redundâncias administrativas, produzindo grandes redes de computadores que iriam operar entre a produção econômica e padrões políticos de decisão”[3]. Ele defendia que a computação da administração econômica iria tornar possível alcançar ao máximo as principais “vantagens econômicas do sistema socialista: economia planejada e controle centralizado” [2]. As lideranças soviéticas levaram a sério as propostas de Kitov, convocando uma reunião para deliberar uma mecanização e automação ampla da produção industrial junto ao desenvolvimento acelerado de computadores. Entretanto, impediram qualquer reforma organizacional, especialmente suas ideias mais radicais de reforma, como a “rede nacional de computadores e um sistema de administração automatizado para toda a economia.”
O sucesso parcial, entretanto, ainda motivou os cientistas cibernéticos soviéticos a continuarem sua empreitada. Aksel Berg, Kitov e Aleksei Lyapunov propuseram a criação de uma rede unificada de centros de processamento informacional controlada pelo Estado. Posteriormente, argumentaram sobre a capacidade da administração automatizada reduzir radicalmente o tempo humanamente necessário para a resolução de tarefas, levando a um novo grau de eficácia o planejamento e controle da produção e distribuição de recursos, desde a produção, passando pela contabilidade até os transportes.
Kitov, enquanto isso, formulou uma ideia para a redução drástica dos custos de um sistema nacional computadorizado utilizando integralmente redes para usos civis e militares. Essa proposta foi submetida diretamente às lideranças do Partido, mas atravessada pelo comitê do Ministério de Defesa, em um contexto onde seu maior apoiador, Aksel Berg, já não integrava o governo. Seu projeto foi rejeitado. Seu apelo direto à liderança do Partido e suas críticas à situação da computação no Ministério de Defesa irritaram profundamente o comitê. Kitov foi fortemente boicotado, perdendo sua posição militar, acadêmica e sua filiação ao Partido em razão de questões tanto formais quanto relativas à organização do poder soviético na época. Seus críticos militares temiam qualquer “associação com possíveis fragilidades econômicas, enquanto autoridades políticas preocuparam-se com a perda de controle e a ausência de ideologia na gestão automatizada” [3].
Uma Economia Cibernética
A ideia de uma organização cibernética da economia Soviética agradava líderes do governo e do Partido. Já em outubro de 1961, às vésperas da abertura do 22° congresso do Partido Comunista, o Concelho Cibernético da academia Soviética de Ciências publicou um livro intitulado “Cibernética a Serviço do Comunismo”, onde eram apresentados grandes potenciais benéficos de modelos e aplicação computadorizada para diversos campos [2].
No 22° Congresso, o Partido apresentou a terceira versão de seu programa, onde a cibernética já constava como uma das ciências cruciais na construção das bases técnicas e materiais do comunismo, além de apresentar um plano de automação integral, criando um alarde considerável no Ocidente, frente à possibilidade da URSS constituir-se como uma economia completamente integrada e controlada por princípios cibernéticos[2]. Em uma das passagens do programa soviético, lia-se:
“A automação será efetuada em uma escala massiva, com ênfase crescente em oficinas e fábricas totalmente automatizadas, proporcionando uma elevada eficiência técnica e econômica. […] A cibernética, o computador eletrônico e os sistemas de controle serão amplamente aplicados nos processos de produção na indústria, na construção e nos transportes, na investigação científica, no planejamento, na concepção, na contabilidade, na estatística e na gestão” [3].
Vale ressaltar a preocupação estadunidense, vide a criação de um ramo especial da CIA para estudar a ameaça cibernética soviética, apontando para o risco da criação de uma “Rede Informacional Unificada” – que, entretanto, nunca iria realizar-se de fato na URSS. Nesse cenário, em 1962 o cientista da computação e diretor do Instituto de Cibernética de Kiev, Viktor Glushkov, foi encarregado de elaborar um plano para a integração e automação cibernética soviética. Familiarizado com as ideias de Kitov, seu planejamento consistia em uma rede de computadores nacionais para monitorar trabalho, produção e circulação do varejo, articulando mais de 100 núcleos regionais interconectados que forneceriam um banco de dados acessível em todos os lugares.
Os planos de Glushkov, agora junto de Nikolai Fedorenko, também visavam a reorganização total da burocracia governamental e agora, ainda mais controverso, o monitoramento de todo trabalho, produção e venda, chegando-se até mesmo a propor a abolição do dinheiro físico, apostando inteiramente numa estrutura de pagamento eletrônico[3] – ideia que foi aconselhado a retirar da proposta central, mas não deixou de ser posteriormente apresentada de forma separada. Sua inovação dentro do planejamento cibernético soviético vinha também de uma proximidade com os economistas, o que inicialmente não ocorria, devido à abordagem estritamente matemática.
Ao propor a total reorganização da burocracia soviética, sua visão radical enfrentou oposição voraz tanto dos administradores industriais quanto de economistas reformistas liberais – os primeiros por temer a exposição de sua ineficiência, tornando-os obsoletos; e os segundos por compreenderem a proposta como uma atualização conservadora da centralização de controle econômico. Críticos soviéticos e ocidentais viam sua proposta como uma espécie de “computopia” [3]. Submetendo-a em 1964, a avaliação da mesma foi retardada por motivos políticos, dada a saída de Khrushchev e sua substituição por Leonid Brezhnev, enfrentando mesmo assim resistência por ser vista como uma ameaça às hierarquias de poder na esfera econômica.
Tecnologia enquanto política
O projeto de Glushkov foi gradualmente reduzido. A condição política da URSS no período minou o projeto, ao mesmo tempo em que suas ramificações institucionais e disputas por manutenção do poder criaram dinâmicas que impediram a proliferação de tecnologias militares para a esfera civil – além de particularizarem até mesmo os sistemas militares, inviabilizando uma padronização que possibilitasse integração geral. No final dos anos 1960, com os rumores sobre a ARPANET norte-americana, um novo clima surgia para reativar seu projeto. Glushkov apresentou uma visão ainda mais radical: “propôs unir sistemas de informação e gestão de todos os níveis – desde empresas individuais, passando por sistemas ministeriais baseados em filiais e nós regionais até o nível superior do governo – para criar o Sistema Estatal de Gestão Automatizado para Coleta e Processamento de Informações para a Contabilidade, Planejamento e Gestão da Economia Nacional”, abreviado em russo como OGAS.
Seu argumento era baseado em ampliação de escala: quanto maior o sistema de automação, melhor seria sua efetividade econômica – sem deixar de ressaltar, estrategicamente, que o controle seria apenas sobre o fluxo de informações e não diretamente nos processos econômicos. Poderíamos fazer analogia com uma espécie de “Big Data” estatal, um “banco universal de informação” acumulando todos os dados possíveis da menor à maior escala nacional. Isso foi obviamente visto por críticos liberais como um possível sistema onipresente de vigilância – uma crítica que não era de todo equivocada, ao menos potencialmente. Em 1971, o Vigésimo Quarto Congresso do Partido autorizou a realização do projeto em grande escala, uma decisão que foi posteriormente revogada, impedindo que o OGAS saísse do papel. O mesmo se repetiu nos congressos de 1976 e 1981.
Os projetos de informatização e computação foram progressivamente reduzidos, servindo à dimensões institucionais, locais, mas nunca nacionalmente integrados. Foram, enfim, reduzidos de uma grande rede a uma colcha de retalhos, parafraseando o historiador Slava Gerovitch (2008). Para ele, a visão de gerenciamento automatizado como mecanismo de reformas dos ciberneticistas soviéticos derivou-se de aspirações tecnocráticas (poderíamos acrescentar, tecno-solucionistas).
A proposta de criar um sistema auto-regulado orgânico para otimizar a organização sócio-econômica, sincronizando tanto indivíduos quanto planejamento nacional, era vista necessariamente como um sistema implantável apenas “de cima para baixo”. Além disso, enfrentou impasses políticos específicos que atravessavam a dinâmica de poder em sua distribuição e disputa na época, produzindo tensionamentos que impediram sua própria realização.
Apesar do OGAS nunca ter sido realizado, algo similar em menor escala foi implementado no Chile de Allende, com o Cybersyn – enfrentando conflitos políticos similares e tendo sua radicalidade inicial reduzida. Mas isso é assunto para um outro texto. Os desafios para pensar usos político-emancipatórios da cibernética e da informática, a partir das experiências históricas e retroagindo desde as condições atuais da digitalização realmente existente continuam abertos, mas uma coisa é certa: retomar as experiências socialistas, desde seus projetos realizados ou não, é tarefa fundamental.
(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador no Centro de Formação.
























