Sábado, 11 de abril de 2026
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Imagine uma sala hexagonal com dispositivos eletrônicos distribuídos pelas paredes, sete cadeiras brancas de estofado laranja, com design moderno, e botões embutidos para o controle de projeção de dados, refletindo hoje uma imagem que poderia ser chamada de retrô-futurista, digna de filmes e séries ficção científica — e que despertaria sentimentos utópicos, ou ucrônicos [1], no observador. Essa era a paisagem da sala de controle principal onde operavam os técnicos centrais no projeto do Cybersyn chileno, a maior experiência da cibernética socialista na década de 1970, encampada em solo sul-americano durante o governo de Salvador Allende. Apesar dos ares utópicos, essa foi uma experiência histórica real, construída dentro e limitada pelas condições do espaço e do tempo em que existiu. Seguindo o tema de uma coluna anterior, seguiremos agora para uma visão sobre a experiência chilena como parte fundamental do esforço de pensar as possibilidades de uma digitalização emancipada.

O projeto em questão é amplamente discutido na obra Cybernetic Revolutionaries: Technology and Politics in Allende’s Chile, de Eden Medina (2011), infelizmente ainda sem tradução para o português. O termo, uma contração de Cybernetics Synergy — ou sinergia cibernética —, apresenta de forma sucinta o espírito do projeto, iniciado em julho de 1971, meses após o primeiro presidente socialista eleito em uma democracia liberal na América Latina tomar posse. É justamente então que o jovem engenheiro Fernando Flores, gerente técnico-geral da Corporación de Fomento de la Producción (CORFO), decidiu contactar Stafford Beer — desenvolvedor do modelo de gestão para grandes corporações, o VSM (Viable System Model) — e convidá-lo, primeiro, para o que se tornaria posteriormente o experimento de aplicação do seu modelo em um projeto voltado à administração de uma economia chilena escassa e em vias de nacionalização.

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Imagem gerada por computador da sala de operações do Projeto CyberSyn. <br> (Foto: Rama / Wikimedia Commons)

Imagem gerada por computador da sala de operações do Projeto CyberSyn.
(Foto: Rama / Wikimedia Commons)

Aceito o desafio, sua arquitetura dividiu-se em quatro compartimentos: Cybernet, Cyberstride, Checo e o Opsroom. Respectivamente, tratavam-se da rede de comunicação via telex, interligando centenas de empresas estatais ao centro em Santiago; um software estatístico para filtragem de dados econômicos em fluxo contínuo, identificando variações significativas para alertar os gestores; o terceiro, um acrônimo de “simulador econômico chileno” (Chilean Economic Simulator), simulava a economia nacional e possibilitava a testagem de cenários [2]. Por fim, a sala de operação — imaginada por Beer como a liberty machine — era o espaço de agência humana no eixo do sistema: o cômodo descrito no começo do texto, situado no Ministério da Economia e projetado pelo designer Gui Bonsiepe.

Toda a estrutura conceitual do projeto era derivada do VSM de Beer, referência de ponta na cibernética organizacional, que, por sua vez, era herdeiro dos princípios de variedade necessária formulados por W. Ross Ashby — ou seja, legatário da tradição sub-simbólica cibernética, pensada analogamente a sistemas orgânicos, desde as redes neurais, como nos conta Raul Espejo, ex-diretor operacional do projeto [3]. Com essa perspectiva, o potencial, ou ao menos a aposta teórica do Cybersyn, era esta: não um planejamento centralizado e hierarquizado como no projeto soviético, mas um horizonte de regulação adaptativa com a autonomia relativa de sistemas internos — com empresas e trabalhadores. O VSM foi usado fundamentalmente como uma ferramenta heurística [4], ou seja, um método “intuitivo” para solucionar problemas complexos, agilizando a resolução. Ou seja: auxiliar em quais dados ignorar e o que merece ser relatado em termos de variação significativa.

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A hipótese de estrutura recursiva foi utilizada como plataforma para desenvolver índices de performance (baseando-se em atualidade, capacidade e potencialidade) de variáveis essenciais para todas as unidades operacionais, do local ao global, com a intenção de medir em tempo real as mudanças no comportamento de variáveis fundamentais para trabalhadores e gestores [5]. Tratava-se de produzir índices sobre recursos humanos e de produção. Ao final de seu desenvolvimento, 60% da economia industrial nacionalizada estava, de algum modo, envolvida no projeto.

Dentre os quatro “compartimentos” do Cybersyn, Espejo relata que foi a Cybernet o que mudou a compreensão geral sobre informação e comunicação (e que é frequentemente citada como “protótipo” da internet, usando telex e um computador). Antes uma ferramenta para transmissão de dados à sala de telex (sobre empreendimentos, comitês e planejamentos), e dessa sala ao centro computacional, não tardou para os gerenciadores na CORFO perceberem seu potencial: a Cybernet tornou-se, então, uma rede de fluxo informacional generalizado, aumentando seu uso para além da economia industrial, vindo de ministérios e diferentes instituições governamentais. Mas foi na greve dos caminhoneiros, financiada pela CIA, que a Cybernet desempenhou papel fundamental, trabalhando dia e noite como ferramenta de coordenação horizontal para derrotar o movimento, com requerimentos e suprimentos sendo administrados pelas próprias empresas, sem necessidade de intervenção hierarquizada. O potencial da Cybernet como fator organizacional — como uma internet incipiente operando como infraestrutura informacional desde a experiência de gestão de crise em uma greve que servia ao boicote imperialista — infelizmente não seria desenvolvido, apesar de ter ficado aparente e ter sido sugerido por Beer. Mas as pessoas que integravam o governo já estavam conscientes de uma intervenção militar iminente [6].

O episódio tornou-se mitológico e mobilizou análises díspares. O fato é que, no fatídico 11 de setembro de 1973, o golpe militar liderado por Pinochet, que perduraria por quase 17 anos, foi violentamente imposto, com o assassinato de Allende e também a destruição física das instalações do Cybersyn. Fernando Flores, preso e torturado durante a ditadura, está vivo ainda hoje e ocupou o cargo de senador entre 2001 e 2009. Escreveu diversos livros teóricos e filosóficos sobre o tema, dentre eles Understanding Computers and Cognition: A New Foundation for Design (1986), em coautoria com Terry Winograd, onde se lê, logo entre as primeiras páginas, a dedicatória: “Para o povo do Chile.”

Esse episódio na história da cibernética chilena aqui brevemente narrado é uma peça fundamental das experiências socialistas, mesmo que não tenha durado tanto tempo. Suas potencialidades também estavam implicadas em contradições com as quais podemos aprender lições sobre a relação entre tecnologia, política, crítica e, quem sabe, pistas para uma subversão emancipatória. Primeiro, a arquitetura do próprio sistema, inspirada em modelos gerenciais empresariais privados, carregava consigo certa ilusão tecnocrática, incapaz de perceber a ingênua crença na transparência de fluxos e variáveis controláveis: era assim, ainda mobilizada pela ideologia cibernética do controle. Superar isso é fundamental: precisa-se distinguir a efetividade da tecnologia legatária do pensamento cibernético e a ideologia cibernética, que tende a reduzir o real e incalculável da política aos seus termos.

Também é razoável reconhecer que o próprio projeto, metodologicamente, enfatizou mais a tecnologia do que o envolvimento daqueles na base, que engajavam na transformação real da economia chilena — uma preocupação que já estava no horizonte de Beer, em sua ideia do Cyberfolk, para integrar sistemicamente o povo no processo de construção de políticas [7]. Mesmo com essa preocupação, o ímpeto de reduzir o indizível do político ao computável (e administrável) da cibernética revelava-se constantemente.

Apesar das possibilidades organizacionais da cibernética de segunda ordem — com paradigmas de planejamento social e dinâmicas recursivas de inscrição dos observadores, somados às tecnologias disponíveis hoje, possuindo um grande potencial —, falta ainda uma dimensão crítica em relação aos limites teóricos implicados nessas epistemologias e inscritos na própria infraestrutura digital, e o que esses limites significam quando se tenta transpor esse quadro conceitual para pensar problemas políticos.

Eden Medina [8] observa bem como o sistema do Cybersyn foi concebido para otimizar fluxos, não para representar contradições. Se por “contradições” compreende-se também os impasses fundamentais que uma política socialista visa abarcar, essa não é apenas uma falha metodológica, mas um limite — lógico, inclusive — fundamental: é preciso explorar as utilidades da informação digital (e da teoria cibernética que a mobiliza) sem, com isso, filtrar por ela nosso vocabulário político e nossos pressupostos organizacionais fundamentais, nem ignorar a complexidade social da política em nome de um inebriamento técnico. Um dos modos de ilustrar isso aparece em entrevista concedida a Rafael Grohmann [9], na qual Medina exalta o Cybersyn como antecessor, em certa medida, do debate sobre design participativo, experiência vinda da América Latina, o que não deve ser ignorado. Contudo, é importante relembrar outros pontos relativos às próprias contradições fundamentais que um projeto socialista precisa enfrentar:

“Parte do que minha pesquisa mostrou é que a forma como a sala [a Opsroom, descrita no começo do texto] foi projetada é voltada para formas de expressão masculinas. A ideia é que você aperte esses botões grandes se quiser deixar claro um ponto de vista, e eles tentam aproximar o usuário da máquina, eliminando as mulheres da sala. Estão eliminando a secretária. Portanto, as mulheres não eram imaginadas como usuárias, com formas de expressão neutras em termos de gênero. Não somos vistas como algo que seria o modo de expressão dominante no espaço. Então, mesmo quando tentamos tornar algo mais acessível, há sempre aquela sombra de quem não estamos imaginando direito e de quem ainda estamos excluindo nos tipos de designs que criamos. E acho que isso é algo muito importante de lembrar.”

Lembrar disso significa também recolocar os projetos políticos dentro do problema da imaginação. A amplitude da realidade social que tais projetos tentam abarcar traz consigo impasses e contradições que precisam ser consideradas para além de limites simplesmente técnicos. Crer no contrário é cair em tecnicismos e tecnossolucionismos tacanhos. O problema é em que medida as contradições são articuladas na imaginação, expressando-se no projeto, ou em que medida serão articuladas na própria irrepresentabilidade que a arquitetura e a lógica do projeto não abarcam.

(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador no Centro de Formação.


Referências: 
[1] A ucronia é muitas vezes definida por sua etimologia  [u: nenhum  e  cronia:  tempo]  ou  pelo  seu  primeiro uso,  na obra de Charles Renouvier,  em  1876, onde aparece como uma  história  alternativa  dentro  da  história. Outro sentido possível é a concepção da ucronia como uma realidade imaginada, desde o passado, no presente ou no futuro, que desenvolve-se de modo diferente à nossa, mas parte de uma factualidade histórica comum. 
[2] Ver em: ESPEJO, Raul. Cybernetics of governance: the Cybersyn project 1971–1973. In: Social systems and design. Tokyo: Springer Japan, 2014. p. 71-90.
[3] Raul Espejo foi Diretor Operacional do projeto durante os dois anos de sua existência. 
[4] Ibid. p. 82.
[5] Ibid. p. 83.
[6] Ibid. p. 85.
[7] Um projeto de respostas em tempo real, por exemplo, durante debates de figuras políticas em espaços públicos  (ibid. p. 87).
[8] MEDINA, Eden. Cybernetic revolutionaries: Technology and politics in Allende’s Chile. Mit Press, 2011.
[9] MEDINA, Eden. (2024). Aprendendo com CyberSyn, 50 anos depois: Entrevista com Eden Medina. [Entrevista cedida a Rafael Grohmann]. Digilabour. Em: https://digilabour.com.br/pt/aprendendo-com-cybersyn-50-anos-depois-entrevista-com-eden-medina/