Terça-feira, 3 de março de 2026
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O resultado das últimas eleições presidenciais em Portugal é dos mais alarmantes para os setores populares e progressistas, além de catastrófico para a esquerda radical. A eleição de António José Seguro, ligado ao Partido Socialista (PS) mas “candidato independente” no pleito, não representa, sob nenhuma hipótese, uma derrota política da extrema-direita lusitana. Na realidade, o projeto político encabeçado pelo partido Chega! e seu carismático líder, André Ventura, saiu fortalecido da contenda e viu sua marcha rumo à hegemonia política no âmbito da direita portuguesa cada vez mais real e próxima.

Ciente disto, o discurso de Ventura após a contagem dos votos mal parecia o de um candidato derrotado. Antes pelo contrário, um certo ar triunfante espalhava-se por seu comitê eleitoral, que vibrava a cada frase do líder proto-fascista: “pusemos fim a um sistema de 50 anos de bipartidarismo em Portugal!”.[1] Repetidas vezes, reafirmou a sua satisfação com os resultados: “lideramos a direita em Portugal e vamos em breve governar este país!”, afirmava, sob aplausos intensos. “Não vencemos, mas estamos no caminho desta vitória!”. O saguão de um hotel de luxo em Lisboa, aos gritos de “Portugal, Portugal”, como se fosse uma partida de futebol da equipe nacional, foi palco deste espetáculo paradoxal, no qual o candidato da extrema-direita bradava contra as elites e contra o sistema como se fosse um líder popular, quiçá um revolucionário:

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“Nunca havia existido um movimento tão popular, tão genuíno, tão da base deste país contra suas elites e seu sistema como nós conseguimos fazer (…) homens e mulheres comuns que lutam contra a elite deste país”; 

O líder do partido de extrema-direita de Portugal "Chega!", André Ventura, durante entrevista na campanha presidencial de 2021. <br> (Foto: Agencia LUSA / Wikimedia Commons)

O líder do partido de extrema-direita de Portugal “Chega!”, André Ventura, durante entrevista na campanha presidencial de 2021.
(Foto: Agencia LUSA / Wikimedia Commons)

“Travamos o bom combate (…) todo o sistema estava contra nós: a Europa, Bruxelas, e o mundo contra nós” (…) e também vencemos dentre os emigrados portugueses mundo afora”;

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“Política não é sobre números: é sobre transformar este país (…) vamos continuar esta luta”.

Palavras que poderiam ter saído das bocas de Lula da Silva ou Fidel Castro, mas que hoje são, cada vez mais, propriedade privada da direita radical, em diferentes latitudes. Já possuímos as ferramentas teóricas para compreender este fenômeno trans-ideológico, ontem e hoje.[2] O que importa assinalar, agora, é que a alegria de Ventura e seus seguidores não significa um delírio político ou mera linguagem hiperbólica. Analisando friamente os números das últimas eleições presidenciais, pode-se captar as razões de tamanho otimismo. Em 2021, quando candidatou-se ao Palácio de Belém pela primeira vez, Ventura obteve 11,9% dos votos. Agora, saltou para 23,5% no 1º turno e 33,1% no 2º turno, mostrando não apenas um crescimento incomparável em relação a todos os demais partidos e candidatos, mas também uma capacidade de galgar o apoio de outros setores da direita lusitana em momentos de embates contra o “sistema”.[3]

Para se ter uma ideia, o Bloco de Esquerda (BE) obteve 3,9% nas eleições de 2021 e, ainda assim, despencou para míseros 2% na eleição atual. A sorte do Partido Comunista Português (PCP) foi igualmente desoladora: uma queda acentuada de 4,3 para 1,6% entre os dois pleitos. Ambas as agremiações correm o risco de se tornarem irrelevantes na política partidária (embora o PCP ainda mantenha importante presença nos sindicatos e o BE nos movimentos sociais). Pior ainda, como o próprio Ventura salientou, os votos no Chega! nas presidenciais de 2026 superaram os votos da direita tradicional nas eleições legislativas do ano passado (33,2% vs. 31%), e obtiveram um aumento de quase 300 mil votos em relação à sua própria votação naquela eleição, uma cifra expressiva para o diminuto colégio eleitoral do acantonado país ibérico. Não surpreende, portanto, a sensação de “grande estímulo”, segundo Ventura, que os resultados atuais trouxeram à sua marcha rumo ao poder. 

Embora o sistema de governo em Portugal seja parlamentarista, existem importantes prerrogativas asseguradas ao Presidente da República, na condição de Chefe de Estado (as mais importante são a dissolução do parlamento e o comando supremo das Forças Armadas). A constante postulação de candidatos presidenciais identificados com o regime em vigor e alegadamente apartidários ou suprapartidários, sempre com “sentido de Estado” e projeção midiática, tanto pelo PS como pelo PSD (os dois grandes partidos do “sistema”) tornou o exercício de Ventura nas presidenciais mais fácil e forneceu-lhe um formidável trampolim para suas ambições políticas futuras: é sempre ele contra o sistema. E o futuro se aproxima, ao que tudo indica. Nenhum governo estável de direita será possível em terras lusitanas sem a participação do Chega!, que por sua vez já anunciou não aceitar nenhum papel periférico numa hipotética coalização de direita que possa governar com estabilidade e, assim, impedir que os próximos Orçamentos do Estado sejam “chumbados”, como dizem por lá.[4]

Diante deste quadro, devemos conter toda ânsia negacionista entre nós e parar imediatamente de alimentar ilusões sobre vitórias pírricas, como esta do último domingo em Portugal. Quem lá viveu nos últimos anos (como o autor destas linhas) ou teve acesso às dinâmicas políticas locais por outros meios, sabe que o rumo geral da sociedade portuguesa é, inequivocamente, direcionado à direita do espectro político. Lá, como alhures no mundo ocidental, as pequenas conquistas das classes trabalhadoras, que um dia pareciam asseguradas, agora estão na ordem-do-dia de extinção pela revolução direitista em curso (não é possível chamá-la de revolução conservadora pois atualmente são eles que lutam contra a ordem estabelecida e nós, esquerdistas (?), que cerramos fileiras junto aos liberais, dando tudo para conservar o sistema da ameaça do “fascismo”). 

É claro que a realidade é sempre dialética e no meio do atual afã direitista pode surgir, pari passu, uma esquerda combativa e radical. Na verdade, é fundamental que isto aconteça, para o bem da humanidade. Mas nenhum sinal palpável, até agora, nos dá mostras disto. E até lá, não somente em Portugal, mas também por aqui, continuaremos a chafurdar na lama reacionária que assola, e na qual atolam-se, crescentes segmentos de nossas sociedades. Contudo, ainda assim, aqui e acolá, encontraremos na esquerda  radical quem verá motivos para comemorar e acreditar, tal como Poliana, que o lado bom das coisas sempre irá prevalecer. 

Só que não”, diríamos no Rio de Janeiro. 

Ou, como diriam nossos camaradas lusos: “eh pá, não!”

(*) Miguel Borba de Sá é historiador pela UFRJ, doutor em Relações Internacionais pela PUC-RIO e Mestre em Ideologia e Análise de Discurso pela Universidade de Essex.

Notas:

[1]  Em alusão ao regime democrático iniciado com a Revolução dos Cravos, que pôs fim à ditadura salazarista do Estado Novo, em 25 de Abril de 1974.
[2]  Ver, dentre muitos: Adorno, T. (2020) Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Ed. Unesp; Stefanoni, P. (2022) A Rebeldia tornou-se de direita? São Paulo: Ed. Unesp.
[3]  Importa notar o papel desempenhado pela candidatura do Almirante Gouveia e Melo, também como candidato “independente”, que obteve 12% no 1º turno e juntamente com a Iniciativa Liberal, que obteve 16%, emprestaram votos à Ventura no 2º turno. O discurso antipolítica encarnado pelo militar que “salvou” o país durante a pandemia coaduna-se perfeitamente com a imagem anti-sistêmica que o Chega! Busca promover.
[4]  A atual gestão de Luís Montenegro (PSD) é, como sabemos, um governo de minoria na Assembléia da República, que depende da oposição, nomeadamente o PS, para a aprovação ou abstinência nas votações sobre o Orçamento do Estado, cujo fracasso tende a levar à queda do Governo (de acordo com a avaliação da presidência da república, que também pode sugerir alternativas no caso de crises políticas desta natureza).