Protestos no Irã: revolução ou guerra híbrida?
Protestos pela crise econômica expõem contradições internas reais do Irã, ao mesmo tempo em que abrem espaço para tentativas externas de desestabilização imperialista
Quando os vendedores do Grand Bazaar de Teerã fecharam as suas portas no final de dezembro de 2025, por causa da desvalorização do rial iraniano em relação ao dólar, não esperavam que, em poucas semanas, o seu protesto se transformasse em manifestações nacionais contra a inflação no custo de vida e, depois, em confrontos violentos com centenas de mortos.
A violência, ainda muito difícil de avaliar por causa do bloqueio digital imposto pelo governo iraniano, tem sido utilizada pelo presidente Donald Trump para pressionar o líder supremo Ali Khamenei. Trump ameaçou uma nova guerra contra o Irã — em junho de 2025, os EUA apoiaram um conflito armado liderado por Israel contra a nação persa — e anunciou uma sanção comercial de 25% a toda nação que mantiver negócios com os iranianos. Já o chanceler alemão, Friedrich Merz, disse que a República Islâmica está em suas “últimas semanas”.

O Líder Supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em outubro de 2018.
(Foto: khamene.ir / Wikimedia Commons))
Por outro lado, o regime iraniano acusa EUA e Israel de estarem por trás da violência que pode chegar a 500 mortos. O Irã afirma estar sob “ataques terroristas” conduzidos por milícias apoiadas pelo imperialismo e também por grupos separatistas curdos e balúchis.
O que afinal estamos testemunhando: uma repressão sanguinária contra um levante democrático ou ações de guerra híbrida para derrubar a República Islâmica iraniana? Apesar das restrições à internet, que dificultam o acesso à informação sobre o que ocorre no país, o mais provável é que estejam ocorrendo ambas.
Revoltas, revoluções e guerras híbridas
Em junho de 2013, quando os jovens do Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo saíram às ruas contra o aumento da passagem de ônibus, não imaginavam que os atos se tornariam manifestações nacionais contra o sistema político, que acabariam no impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016. A correlação entre esses eventos faz muitos dirigentes do PT ainda verem os protestos de junho como produto das forças imperialistas para desestabilizar a gestão petista.
Essa perspectiva, no entanto, ignora as demandas legítimas que motivaram os primeiros atos de rua: a luta pelo direito à cidade, a diminuição do custo de vida e o combate à violência policial. Por outro lado, é inegável que os protestos foram capturados pela direita, que mudou a pauta central do movimento e derrubou a legitimidade do governo. Junho de 2013 ainda serviu de oportunidade para outras ações imperialistas, como a Operação Lava Jato, que contribuíram para o golpe de 2016 e o avanço da extrema-direita.
É comum na história que pequenos atos de insatisfação acabem, de forma imprevisível, se desdobrando em revoluções populares ou sejam capturados por outras forças políticas. A própria revolução iraniana de 1979 não tinha um caráter islâmico em seu início nem foi iniciada diretamente por grupos muçulmanos. No entanto, após o início da revolta contra o regime do xá Reza Pahlevi, o aiatolá Ruhollah Khomeini, exilado em Paris, retornou ao Irã como grande líder revolucionário.
Já na Síria, em 2012, os protestos populares por democracia, liderados por jovens contra o regime de Bashar Assad, foram capturados por grupos paramilitares financiados pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos que, mais tarde, contribuíram para o surgimento do ISIS. Em 2024, Assad foi deposto por uma organização apoiada por Turquia e EUA, liderada por um antigo militante da al-Qaeda no Iraque. Esse envolvimento imperialista não isenta Assad da brutal repressão contra os movimentos populares da Primavera Árabe.
Os protestos no Irã
O atual ciclo de protestos no Irã, portanto, deve ser entendido como uma articulação dessas contradições. Ele é, ao mesmo tempo, uma onda de manifestações legítimas contra o governo, como reconheceu o presidente Masoud Pezeshkian, por causa do aumento constante no custo de vida em decorrência das sanções estadunidenses, e também resultado de alguma forma ainda incerta de desestabilização promovida pelo imperialismo.
Pezeshkian é um político moderado, eleito em julho de 2024 com o objetivo de fazer reformas econômicas que aumentem a qualidade de vida da população iraniana. No entanto, esse período foi marcado pelo genocídio de Gaza e pelos confrontos com Israel, incluindo a guerra de 12 dias em junho de 2025, que provocou impacto importante sobre o sistema de defesa e o setor petroquímico do país. Isso limitou a capacidade do governo de promover reformas em benefício da população, que viu crescer o custo dos alimentos básicos sempre acima dos 30%, dentro de uma inflação superior a 48% entre outubro de 2024 e outubro de 2025.
A ameaça imperialista externa e o alívio interno de restrições sociais, como a tolerância a eventos públicos e a não aplicação da lei que obriga o uso do véu por mulheres, permitiram ao governo manter estabilidade política apesar da crescente inflação. Até mesmo setores liberais e pró-Ocidente se uniram em torno do governo após a guerra contra Israel.
No entanto, a espiral de insatisfação demonstrada pelas manifestações, que contou com importante participação das classes médias em grandes cidades como Teerã, Isfahan e Tabriz, revela os problemas estruturais que a República Islâmica não está conseguindo superar em meio às sanções ocidentais e a uma inflação global ainda alta desde a pandemia.
O governo mostrou força ao convocar grandes atos em defesa do país e contra a violência na última segunda-feira (12), que contaram não somente com a sua base islâmica, mas também com a juventude secular que liderou os protestos contra a inflação. No entanto, ainda não há clareza sobre a razão do grande número de mortos.
Pezeshkian e Khamenei podem culpar EUA, Israel, as forças separatistas e os supostos grupos terroristas pela violência, mas não têm como ocultar o histórico de repressão do regime, em particular aquele executado pela Guarda Revolucionária Islâmica contra manifestações populares e legítimas, como o movimento de 2022 liderado por mulheres contra a obrigatoriedade do uso do véu.
O Irã não pode ser reduzido a uma simples ditadura islâmica bárbara, como faz a maior parte da mídia ocidental. De fato, existem ações de desestabilização que devem provocar um nível de paranoia em todo governo que enfrenta o imperialismo. No entanto, isso não pode justificar a repressão popular e as suas demandas por dignidade.
(*) Bruno Huberman é Professor de Relações Internacionais da PUC-SP. Pesquisador do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais (GECI) e do Instituto Nacional Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT/INEU). É autor de ‘Colonialismo Neoliberal em Jerusalém’ (Educ, 2023).























