Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
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No começo do mês de agosto, a Palantir, notória empresa de gestão e inteligência de dados para serviços de governança, militares e empresariais, emitiu uma carta aberta aos seus investidores onde são apresentados alguns dados econômicos verdadeiramente reveladores: um aumento de 93% em sua receita, além do crescimento percentual de suas ações em aproximadamente 30%, ambos em relação ao mesmo período no ano anterior (apesar de operar em relativa queda na Nasdaq, se comparado ao pico das ações no mês de abril deste ano). 

Porém, chama ainda mais atenção a afirmação de que essa empresa, a líder no mercado para operacionalização de dados em operações militares – notoriamente com o sistema Maven, utilizado pelos EUA e Israel contra o Irã, e possivelmente na operação de sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro – teria “conotações marxistas”! Mas qual o sentido dessa afirmação?

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Assinada pelo seu co-fundador e CEO, o excêntrico e comicamente sinistro Alex Karp – formado em direito e doutor em Teoria Social pela Universidade Goethe, em Frankfurt –, frequentemente descrito como “o filósofo no Vale do Silício”, a carta é atravessada também pelo seu estilo frequente, com certas provocações, algo notável desde o livro A República Tecnológica (Intrínseca, 2025), que assina com Nicholas Zamiska, chefe de assuntos corporativos e consultor jurídico da própria Palantir. O chamado “manifesto” da empresa, publicado na antiga plataforma Twitter em 22 máximas, expressa de forma sintética a “filosofia política” presente no livro, que é também, de certa maneira, a diretriz ideológica da empresa.

Novamente em um tom de manifesto, o texto começa com o anúncio da emergência de um movimento global: “a revolução por independência e soberania em IA” que está à caminho. Sua crítica é em direção à entrega das chaves institucionais ao redor do globo para os criadores de modelos de linguagem, deixando-os assim “soltos em suas casas.” O “levante revolucionário” de Estados e empresas teria como demanda o controle dos seus dados e, mais importante, a manutenção da propriedade sobre a inteligência organizacional e empresarial, que é estruturalmente expropriada [by design] pelos modelos produzidos com essa finalidade, conscientemente ou não, nos “laboratórios de linguagem” – um diagnóstico que ressoa na crítica de Stiegler à expropriação tecnológica do saber-teorizar! 

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Contra os modelos de linguagem alimentados pelo trabalho escrito, que é produto da “nossa civilização”, a Palantir seria a beneficiária de uma revolta contra a submissão dessa expropriação, com seus clientes negando-se a tornarem-se “Estados vassalos” de tais laboratórios. O crescimento de receita e valor especulativo da sua empresa seriam indícios factuais de que ela consagra-se como ponta de lança desse processo “revolucionário” em curso. Toda essa retórica revolucionária em um tom cômico de manifesto político pastiche desidratado seria o suficiente para justificar as supostas “conotações marxistas” da empreitada, especialmente se considerarmos a característica irônica e patética dos discursos de um CEO nada ingênuo, com formação filosófica informada pela teoria crítica!

 O CEO e co-fundador da Palantir, Alex Karp, durante o encontro anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, em maio de 2022. <br> (Foto: Benedikt von Loebell / World Economic Forum)

O CEO e co-fundador da Palantir, Alex Karp, durante o encontro anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, em maio de 2022.
(Foto: Benedikt von Loebell / World Economic Forum)

 

Mas a ironia cínica de Karp parece residir mais além. Na terceira parte de sua carta, Alexander ironiza o modelo de negócios das empresas de IA, como já havia feito em entrevistas televisivas. Ele afirma que a Palantir é paga pelo “derivativo da criação de valor”, em contraste com a monetização de cliques, tokens ou chats. Ele ainda ratifica que a “gamificação do desenvolvimento mais significante na história da economia moderna” parece, para a Palantir, equivocado. É constrangedor, mas precisamos admitir que ele não deixa de ter alguma razão, ainda que cinicamente. Contra o “complexo industrial tokenizado”, que pretende traduzir a popularidade e o uso de suas plataformas em valor, capturando também a peculiaridade intelectual de seus clientes e, enfim, seus próprios meios de produção, Karp reafirma que a Palantir sempre negou e continuará negando uma relação parasitária com seus parceiros. 

As supostas conotações marxistas da Palantir são uma piada de mal gosto, mas não só. Vinte dias após a publicação de sua carta, o mercado respondeu bem, com uma alta de 11% nas ações da empresa durante o período. Para uma empresa duramente criticada pelo seu envolvimento no bombardeio da escola feminina Shajareh Tayyebeh de Minab, no Irã, matando 175 pessoas – em sua maioria, crianças –, alvo que teria sido selecionado pelo “serviço prestado” através do software Maven, essa carta pública é mais do que um modo de tergiversar; é também certa estratégia de marketing. Apontar tal “conotação marxista” em sua empresa é sinalizar, ainda que de modo cínico, aos seus clientes, que a vanguarda disruptiva e “revolucionária” do mercado é encabeçada por eles – é uma forma retórica cifrada de tentar se opor à crescente suspeita de blocos internacionais às gigantes de IA. 

Após a publicação de seu “manifesto”, que afirma a superioridade de civilizações sobre outras e a necessidade da imposição unilateral do domínio global norte-americano – e após diferentes entrevistas onde Karp prega uma oposição entre a “mulher acadêmica liberal”, como inimiga do país, e o “homem trabalhador comum”, além de afirmar a necessidade de “impor medo aos inimigos dos EUA” –, Karp parece colocar em prática alguns insights básicos da tradição frankfurtiana, para fins não apenas de mercado, mas de atualização política da retórica e ideologia imperial das Big Techs. Se, como formulado por Walter Benjamin, todo fascismo esconde um potencial revolucionário perdido, Karp pretende ganhar por antecipação invertendo deliberadamente a fórmula: “a revolução está do nosso lado” – um movimento que não é novo na história dos discursos fascistizantes. 

Obviamente, a valorização da Palantir não passa simplesmente por discursos tresloucados e cartas públicas de seu CEO: o avanço imperialista de EUA e Israel sobre o Irã são, hoje, uma das maiores vitrines da empresa, com o alinhamento ao segundo governo Trump, por exemplo, no projeto de desenvolvimento do chamado “domo de ouro” – “um sistema de mísseis antiaéreos similar ao ‘Domo de Ferro’ de Israel, capaz de proteger o país contra qualquer tipo de ameaça, incluindo mísseis nucleares” – sendo uma de suas maiores fontes de investimento. As relações da Palantir com o Estado dos EUA não são recentes, mas estão em sua origem: a In-Q-Tel, empresa estatal de capital de risco para investimento tecnológico, foi uma de suas principais financiadoras desde o princípio. 

Não sem razão, um dos principais motivadores de sua fundação foram os atentados do 11 de setembro, que expuseram uma lacuna na articulação de dados entre agências estatais. Ou seja, desde sua criação, a Palantir encontrou um nicho de mercado na mediação tecnológica entre agências de Estado, voltando-se para a defesa nacional e os interesses imperialistas. As “conotações marxistas” da empresa revelam-se, assim, uma espécie de mensagem invertida: Alexander Karp está explicitamente comunicando, pelo discurso que promove, a necessidade de sua existência – ou, a de seus serviços – para a manutenção do império, através de uma análise “crítica” dos impasses nas dinâmicas de soberania, em um momento de profunda reorganização das estruturas do capitalismo global. 

(*) Cian Barbosa é sociólogo (UFF), doutor em filosofia (UNIFESP) e doutorando em psicologia (UFRJ), onde integra o Laboratório de Estudos sobre a Subjetividade e Emergências Humanitárias. Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador do Centro de Formação — onde encontram-se abertas as inscrições para o curso ‘Marxismo e Psicanálise’. Para mais informações, clique aqui.