Quando a violência cala candidatas, a democracia perde voz
A exclusão das mulheres não decorre apenas da ausência de candidaturas; é sustentada por um ambiente que penaliza quem disputa poder
À medida que o Brasil se aproxima de um novo ciclo eleitoral, torna-se impossível ignorar uma realidade que ameaça a própria qualidade da democracia: o crescimento da violência política e digital contra as mulheres e a persistente exclusão feminina dos espaços centrais de poder.
A aproximação das eleições de 2026 revela uma contradição alarmante. Embora as mulheres representem a maioria do eleitorado brasileiro, sua presença nas disputas pelos cargos de maior poder continua drasticamente reduzida. Até o momento, apenas 11 estados brasileiros apresentam mulheres como pré-candidatas aos governos estaduais. No Legislativo, a desigualdade também persiste: no Senado e na Câmara dos Deputados, a representação feminina segue muito abaixo do peso real das mulheres na sociedade brasileira.

Manifestação de mulheres, que apresentaram a Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes (Foto: Acervo Câmara dos Deputados)
Essa baixa representação não é casual. Ela é resultado de um sistema político ainda marcado por desigualdades históricas, em que a violência política e digital de gênero funciona como instrumento de intimidação, exclusão e silenciamento. No ambiente virtual, essa violência assume formas ainda mais rápidas, massivas e devastadoras. Redes de desinformação, campanhas de difamação, ataques misóginos coordenados, manipulação de imagens, ameaças e intimidação virtual tornaram-se armas cotidianas contra mulheres que ousam disputar poder.
Essa violência não é virtual em seus efeitos. Ela produz danos reais, destrói reputações, compromete candidaturas, adoece emocionalmente, silencia vozes e afasta lideranças femininas da vida pública. Muitas mulheres abandonam candidaturas ou deixam de concorrer por medo da exposição violenta que recai não apenas sobre elas, mas também sobre suas famílias.
Mesmo em países que avançaram significativamente na participação das mulheres nos espaços de poder, como o México, onde a presença feminina nas instituições alcançou níveis históricos, a violência política e digital contra as mulheres continua sendo alarmante. A ampliação da representação não elimina automaticamente as estruturas patriarcais que resistem à redistribuição do poder. Muitas vezes, ao contrário, provoca reações ainda mais agressivas.
Essa realidade demonstra que a resposta democrática precisa atuar em múltiplas frentes. É indispensável avançar no aperfeiçoamento da legislação brasileira para reconhecer, prevenir e punir a violência política e digital contra as mulheres, assegurando proteção efetiva às vítimas, mecanismos ágeis de denúncia e responsabilização dos agressores.
Mas a legislação, por si só, não basta. As leis são fundamentais para estabelecer limites e garantir direitos; porém, sua eficácia depende de uma mudança mais profunda na cultura política, social e institucional. É igualmente urgente investir em educação para a igualdade, formação cidadã e práticas pedagógicas que enfrentem o machismo estrutural desde a base, transformando mentalidades que ainda naturalizam a exclusão e a violência contra as mulheres na vida pública.
Essa transformação precisa alcançar também o próprio sistema de justiça brasileiro, onde ainda persistem decisões, interpretações e práticas institucionais marcadas por preconceitos de gênero que reproduzem desigualdades históricas. Em casos recentes, amplamente debatidos no Brasil, tornou-se evidente como mulheres vítimas de violência ou perseguição política e digital muitas vezes enfrentam não apenas o ataque inicial, mas também a revitimização institucional, quando suas denúncias são minimizadas, desacreditadas ou tratadas sem a devida compreensão da dimensão de gênero envolvida.
Se a democracia exige igualdade no acesso ao poder, o Judiciário precisa ser parte ativa dessa garantia, e não espaço de reprodução das mesmas estruturas discriminatórias que deveriam ser combatidas. Reformar leis é essencial, mas reformar mentalidades dentro das instituições é igualmente indispensável.
Não haverá eleições verdadeiramente livres enquanto candidatas forem obrigadas a disputar mandatos sob ameaça permanente de linchamento digital. Proteger as mulheres na política é proteger o pluralismo, a igualdade e o futuro democrático do país.
Somente quando legislação, educação e transformação cultural caminharem juntas será possível construir ambientes democráticos verdadeiramente seguros para a participação plena das mulheres na política. Sem essa convergência, continuaremos combatendo apenas os efeitos, sem alterar as causas profundas que sustentam a exclusão e a violência.
A democracia brasileira precisa compreender, com urgência, que o combate à violência política e digital contra as mulheres não é um tema secundário ou restrito às mulheres.
Trata-se de uma condição indispensável para a integridade eleitoral e para a construção de uma sociedade genuinamente democrática.
(*) Vanda Pignato é advogada brasileira, ex-ministra de Inclusão Social de El Salvador e especialista em políticas públicas, gênero e direitos das mulheres. Criadora do programa Cidade Mulher, concebido e implementado em El Salvador e hoje referência internacional em atenção integral às mulheres, atuou por décadas na formulação e implementação de políticas sociais na América Latina. Escreve sobre violência de gênero, desigualdades sociais e direitos das mulheres a partir de uma perspectiva latino-americana.
























