Quanto custa ao Sul Global depender do dólar?
O custo da hegemonia do dólar para o Sul Global expõe o privilégio dos Estados Unidos de financiar sua dívida e seus gastos com as reservas dos países periféricos.
Quando o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, aumenta sua taxa de juros, os efeitos ultrapassam rapidamente as fronteiras norte-americanas. Moedas se desvalorizam, capitais deixam países emergentes, governos passam a pagar mais caro para se financiar, as dívidas públicas sobem e produtos ficam mais caros. O que parece uma decisão de política monetária doméstica acaba influenciando o preço dos alimentos, dos combustíveis e dos investimentos em boa parte do planeta. Essa dependência ajuda a explicar por que a desdolarização deixou de ser um tema restrito aos economistas e passou a ocupar o centro do debate geopolítico. Mais do que discutir qual moeda será utilizada nas transações internacionais, o que está em jogo é o custo que a atual arquitetura monetária impõe aos países do Sul Global.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o dólar ocupa uma posição privilegiada na economia internacional. Como principal moeda de reserva, de comércio e de financiamento, ele permite aos Estados Unidos emitir a moeda que o restante do mundo precisa acumular para realizar transações, formar reservas internacionais e garantir sua inserção na economia global. Em seu mais recente dossiê, A arquitetura do poder: o dólar, a financeirização e a luta pela soberania, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social define essa condição como um “privilégio exorbitante”. Graças à centralidade do dólar, os Estados Unidos conseguem financiar déficits públicos, manter o maior mercado financeiro do mundo e sustentar elevados gastos militares, isso porque sua dívida é considerada um dos ativos mais seguros do sistema financeiro internacional.

A dependência do dólar limita a autonomia das políticas econômicas nacionais.
(Foto: RawPixel)
Para os demais países, porém, a lógica é inversa. Economias em desenvolvimento precisam manter volumosas reservas em dólares para se proteger de crises cambiais e garantir suas importações. Boa parte dessa reserva é investida em títulos da dívida pública norte-americana. Na prática, recursos acumulados por países do Sul Global ajudam a financiar o próprio Estado dos Estados Unidos. Segundo o dossiê, trata-se de uma transferência permanente de riqueza dos países periféricos para o centro do sistema financeiro internacional. É um paradoxo pouco discutido: enquanto muitos governos enfrentam restrições fiscais para investir em infraestrutura, saúde ou indústria, parte de suas reservas contribui para sustentar a estabilidade financeira da maior potência econômica do planeta.
Assim, a dependência do dólar limita a autonomia das políticas econômicas nacionais. Quando investidores retiram recursos de países emergentes em busca de ativos considerados mais seguros nos Estados Unidos, moedas locais se desvalorizam rapidamente. Para conter a fuga de capitais e evitar crises cambiais, muitos bancos centrais elevam as taxas de juros, desacelerando o crescimento econômico e reduzindo investimentos produtivos. Além disso, como grande parte das commodities é negociada em dólares, oscilações da moeda estadunidense afetam diretamente os custos de importação, pressionam a inflação e reduzem o poder de compra da população. Em outras palavras, decisões tomadas em Washington frequentemente condicionam políticas econômicas implementadas em Brasília, Pretória, Jacarta ou Buenos Aires.
O poder do dólar, no entanto, não decorre apenas de sua utilização no comércio internacional. Ele também está associado ao controle da infraestrutura financeira global. Nas últimas décadas, os Estados Unidos ampliaram em 933% o uso de sanções econômicas, transformando o acesso ao sistema financeiro internacional em um instrumento de política externa, ainda segundo o dossiê. Países submetidos a bloqueios podem perder acesso a mecanismos essenciais para realizar pagamentos internacionais, contratar financiamentos ou importar produtos estratégicos.
Esse uso crescente da moeda como instrumento de pressão política incentivou diversos países a buscar alternativas. É nesse contexto que ganha força o debate sobre a desdolarização. Segundo o documento, esse processo ocorre por diferentes caminhos: ampliação das reservas em ouro, utilização de moedas locais no comércio bilateral, acordos de swap cambial, desenvolvimento de moedas digitais emitidas por bancos centrais e criação de sistemas alternativos de pagamentos internacionais, como o CIPS, liderado pela China. Essas iniciativas procuram reduzir a dependência do dólar e ampliar a autonomia financeira dos países participantes.
Nesse sentido, a desdolarização não é apenas um debate técnico sobre moedas ou bancos centrais. Para boa parte do mundo, a hegemonia do dólar nunca significou apenas uma vantagem para os Estados Unidos; ela também impôs limites ao desenvolvimento, à soberania econômica e à capacidade dos países periféricos de definir seus próprios caminhos. Portanto, para os países do Sul Global, trata-se, sobretudo, de ampliar o espaço de decisão sobre suas próprias políticas econômicas e reduzir a vulnerabilidade diante de um sistema financeiro concentrado em torno de uma única moeda.
* Cristiane Ganaka é economista e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social























