Segunda-feira, 20 de abril de 2026
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“Regret nothing” era a frase estampada na camisa de um dos participantes do estupro coletivo no Rio de Janeiro, quando se apresentou para depor na última semana. Em português, significa “não me arrependo de nada”, frase atribuída a grupos de ideologia misógina que se organizam virtualmente. Os envolvidos no estupro são estudantes comuns, mas já investigados por outros crimes de violência sexual. Esse caso despertou o debate sobre a força das ideias de ódio às mulheres e suas consequências em nossas vidas.

O que há de comum entre todas as mulheres é o medo

Nestes últimos dias, estamos sendo bombardeadas com notícias de violência contra mulheres e crianças. Em casa, na padaria, no trânsito, nas conversas no ponto de ônibus: o tempo todo somos expostas ao horror que é ser mulher no Brasil. Cada caso traz uma informação sobre a vítima ou um pequeno detalhe das circunstâncias do crime que nos aproxima, tornando impossível não sentir a mesma dor. Uma delas tinha apenas 12 anos. A outra tentou terminar a relação, mas não conseguiu. Uma terceira foi vítima de um familiar próximo. Eu já fui todas elas.

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(Foto: Maria Objetiva/Fora do Eixo)

(Foto: Maria Objetiva/Fora do Eixo)

Uma angústia misturada com revolta vai crescendo dentro do peito, embolando na garganta, tornando-se quase uma dor física. Pergunto-me: quantas mulheres estão, neste momento, exatamente assim? Com lágrimas nos olhos e os dentes cerrados? Essa identificação é dolorosa demais. De alguma forma, parece que a violência torna-se um espelho, uma identidade comum. Não é “mais uma mulher”: é alguém que poderia ser eu, minha mãe, minha irmã, minha amiga, minha filha. Somos todas nós.

Sentimos medo por ser mulher e por todas as mulheres ao nosso redor. Quantas vezes, num bate-papo com amigas sobre o que desejávamos para o futuro, afirmei: “Deus me livre de ser mãe de menina”? Esse é um pensamento recorrente, difícil de verbalizar, mas profundamente coletivo, pois todas sabem o que significa viver com medo.

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Como pode ser tão normalizado que nossas meninas tenham de crescer em alerta? Não ande sozinha, não confie demais, não use tal roupa? E o mais aterrorizante é que, em casos como o da idosa de 71 anos que foi abusada por um motorista do ônibus, fica provado que nenhuma dessas medidas vai salvá-las.

A questão, afinal, é que não há nada que possamos fazer individualmente para nos salvar. Tomar consciência disso, num primeiro momento, causa desespero. Mas, em seguida, há algo de emancipador nessa constatação.

Onde nasce a violência

Em geral, abusadores, agressores e assassinos são tratados como monstros isolados. Em alguns casos, busca-se explicação em sua condição individual, seja na história da infância ou em experiências de rejeição. São sempre homens “doentes”, que perderam o controle. Mas, se são exceção, por que os casos se repetem todos os dias, cometidos por namorados amorosos, padrastos “legais” ou meninos comuns?

À primeira vista, a consequência lógica dessa constatação seria que não se pode prevenir ou impedir, já que todos os homens seriam potencialmente agressores e assassinos. Mas o ponto fundamental é que os homens não nascem assim: eles se tornam.

Em 2025, o Brasil registrou cerca de 1.470 feminicídios, o que significa, em média, quatro mulheres mortas por dia. Estarrecedor, assim como os números da violência sexual: entre 2015 e 2024, mais de meio milhão de estupros de mulheres foram registrados no país, algo em torno de 196 por dia. Deve-se levar em conta a enorme subnotificação dos casos de violência e assédio, o que indica que esses números podem ser ainda maiores. De fato, não estamos diante de episódios isolados, mas de um mecanismo social.

Esses homens não surgem do nada: são formados numa estrutura de profunda desigualdade e opressão, calcada na divisão entre exploradores e explorados. Nessa sociedade, o domínio dos homens sobre as mulheres cumpre um papel na reprodução dessa exploração. E, quando somado à precarização da vida, ao desemprego e à insegurança que corroem a dignidade da classe trabalhadora, o exercício do poder violento sobre a mulher se apresenta como uma expressão do patriarcado.

Em 1889, Clara Zetkin, destacada dirigente comunista alemã, discursou sobre a situação da mulher no Congresso Internacional dos Trabalhadores, em Paris, explicando a origem da contradição entre a libertação das mulheres e a exploração capitalista de seu trabalho. Ao passar a trabalhar na indústria, a mulher “não pode ficar exclusivamente na família como um mero apêndice financeiro; aprendeu a ser autossuficiente como uma força econômica independente do homem. E, se a mulher não é mais economicamente dependente, não há motivo razoável para sua dependência social”. No entanto, essa independência econômica beneficia sobretudo o capitalista, o dono das fábricas, que explora seu trabalho. A mulher, ao se ver livre da dependência econômica do homem, não se tornou livre: foi submetida à dominação econômica. “De escrava do homem, ela se tornou escrava do empregador: apenas mudou de dono.”

Mais à frente, Zetkin observa as consequências dessa relação para os próprios homens trabalhadores: “o que tornava o trabalho feminino particularmente valioso para o capitalista não era apenas o preço baixo, mas também a submissão das mulheres. O capitalista especulou com esses dois fatores: pagar o mínimo possível à trabalhadora e reduzir ao máximo os salários dos homens por meio dessa concorrência”.

Na produção capitalista, a exploração do trabalho feminino tem efeitos que contradizem sua tendência aparente: torna-se justificativa para o achatamento dos salários em geral, o aumento da jornada de trabalho e o empobrecimento das massas. Em síntese, o que Clara Zetkin nos dizia há 137 anos é que, se o fruto do trabalho social não fosse apropriado privadamente, o caminho das sociedades humanas seria a abolição econômica e social das diferenças que sustentam a opressão das mulheres.

De fato, as ideias de uma sociedade nascem das suas condições materiais. Assim, os homens que odeiam as mulheres o fazem dentro de uma estrutura que sustenta essa desigualdade. Por isso, não é possível esperar que a violência acabará quando “os homens mudarem”. Não podemos confiar nossas vidas à iluminação moral de indivíduos. Para abolir a violência, é preciso abolir também as condições materiais e sociais que a produzem.

Um alerta: não estamos negando a importância da educação. Devemos, sim, formar melhor meninos e homens sobre a questão de gênero, combater ideias machistas e patriarcais; esse é um trabalho necessário, e todas as iniciativas nesse sentido são extremamente importantes. Mais do que isso, porém: é preciso atacar o problema pela raiz; priorizar esse debate nas escolas, combater a cultura do estupro e adotar medidas firmes de regulação das redes digitais. Casos como o do Rio de Janeiro são apenas a ponta do iceberg e não podem continuar se gestando diante de nossos olhos.

Do ponto de vista das mulheres, por outro lado, a luta é por mudanças estruturais: creches públicas, igualdade salarial, políticas de proteção e trabalho digno. O caminho é, sobretudo, o da organização coletiva, como apontou Clara Zetkin: “a emancipação das mulheres, como a de toda a humanidade, será obra da emancipação do trabalho frente ao capital. Somente em uma sociedade socialista as mulheres, assim como todos os trabalhadores, alcançarão a posse plena de seus direitos.”

(*) Isis Mustafa é dirigente do partido Unidade Popular pelo Socialismo.