Quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
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A última coluna, publicada há menos de uma quinzena, já parece o eco distante de um outro período. Talvez isso justifique o recurso, mais literário do que histórico, à imagem de Roma sitiada pelos bárbaros de Alarico. Mas vale lembrar que há sempre o perigo do anacronismo. E que certamente não foi Lula quem atravessou o Rubicão.

Desde aquela longínqua coluna, Trump confirmou o tarifaço contra o Brasil; mentiu descaradamente sobre a balança comercial dos dois países; cometeu uma ameaça grosseira contra o judiciário brasileiro e, com isso, provocou um rearranjo das placas tectônicas da política brasileira que, tenhamos claro, está longe de terminar.

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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Encontro com a Sociedade Civil. Centro Cultural Matucana 100. Santiago - Chile. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Encontro com a Sociedade Civil. Centro Cultural Matucana 100. Santiago – Chile.
(Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Os primeiros terremotos, bem altos na escala Richter da política, davam sinais de um movimento combinado de fortalecimento da posição de Lula, isolamento progressivo do bolsonarismo e uma poderosa remexida nas expectativas da direita pretensamente moderada para 2026.

Se para Lula a posição de estadista defensor da soberania nacional é um papel assumido sem maiores dificuldades, mais surpreendente foi a progressiva, mas rápida, adesão da imprensa corporativa. Tanto à defesa de um nacionalismo institucional que parecia ter desaparecido da política brasileira quanto a uma crítica ao total desgoverno da reação dos principais candidatos a sucessor do capitão.

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Alguém chegou a comentar nas redes sociais que o famoso editorial do Estadão do dia 09/07, Coisa de Mafiosos, parecia ter sido psicografado de Oliveiros S. Ferreira. Para quem não tem idade para lembrar, era um dos últimos indivíduos de espécie em extinção: um cientista político de direita com sólida formação intelectual.

Folha e O Globo ainda estavam paralisados pela surpresa, mas tiveram que reagir à onda de choque provocada pelo Estadão e rapidamente se alinharam na defesa do país, na crítica, àquela altura inevitável, aos bolsonaros pai e filhos e no desapontamento com Tarcísio. Doloroso, certamente, na medida em que Zema e Caiado ainda não são levados a sério nas precificações paulistas e cariocas.

Para os chatos como eu, que temos brigado com os velhos e novos palpiteiros esquerdistas, tem sido muito divertido verificar como todos, a maior ou menor contragosto, se sentem obrigados a cerrar fileiras.

Alguns, mais sensatos, se preocupam com as ações que Haddad e Lula devem começar a preparar na área econômica, dado que não é prudente apostar na diminuição da paranoia de Trump, especialmente agora que o cerco em torno dos arquivos de Epstein vem crescendo.

Outros, que começaram, décadas atrás, na esquerda e hoje disputam o troféu de cadáveres insepultos (mas bem remunerados) do comentarismo nacional, nos oferecem bons motivos para sorrisos, com as admissões contra a vontade, de que “é hora de ser brasileiro”! (sic), pérola de Fernando “tanguinha de crochê” Gabeira, ou o lamento de que “Trump tirou Lula do abismo” do Demétrio ex-trotskista Magnoli. 

Na área governista os acertos do destaque a Alckmin como negociador mor e as falas cada vez mais assertivas e didáticas de Tebet parecem indicar que, além da consolidação de Haddad como o segundo no poder, Lula já está montando seu time para 2026.

E não deixa de ser divertido acompanhar os ensaios mal ajambrados de crítica a Lula pela antecipação da campanha eleitoral quando até as pedras amigas do Mino Carta são obrigadas a reconhecer que essa decisão foi tomada pela plutocracia paulista, mais uma vez iludida com Dória (eles não aprendem?) e escancarada pelos aprendizes de feiticeiro de Alagoas e Amapá. 

Além da posição indiscutida de estadista, que aliás, não lhe custa nenhum artificialismo, Lula ganhou nesse processo, até agora pelo menos, a perspectiva de aprovação da mudança no IR, rapidamente oferecida pelo profissional Lira. Aprendemos que bandidos também tem seus moleques deslumbrados e seus adultos na sala. 

Descobrimos também que Luís “Mato no Peito” Fux não tinha recebido o selo de fidelidade por iniciativa isolada da filial de Curitiba, mas tinha o appointment da matriz em Langley, Virginia. Será divertido verificar qual será seu voto (o único que falta) na decisão da tornozeleira para o ex-capitão, ex-presidente e ex-liderança da direita brasileira. 

Mas o aprendizado mais relevante foi o que deveria ter sido o óbvio desde o início. Trump pode ser louco, mas não rasga títulos de milhões de dólares. Há notícia de que alguém soube antecipadamente das tarifas e realizou uma operação de compra e venda de 3 a 4 bilhões (isso mesmo, revisão, bilhões com B) de dólares. No jargão do mercado, trata-se de informação privilegiada, e é crime. 

Depois da denúncia soube-se que o mesmo ocorreu no anúncio das tarifas contra a África do Sul e o Canadá. Isso traz uma explicação mais plausível do que hesitação e inconsistência para a coreografia trumpista ao anunciar e recuar tarifas. O que ele perde em credibilidade, alguém – que só ele sabe – ganha em milhões, talvez bilhões, de dólares.

Mas é bom voltar a Roma para lembrar que, como recurso literário, um sítio pode ser de instrutivo a divertido. Mas na vida real provavelmente significará destruição de riqueza, fome, violência institucional e física e até mortes. Nada na conjuntura internacional nos autoriza a acreditar no melhor. 

(*) Carlos A. Ferreira Martins é Professor Titular Sênior do IAU USP São Carlos