Saúde e digitalização: a ‘tela’ como máquina de captura
Para além dos problemas de saúde mental, a captura da atenção expõe o poder das Big Techs sobre dados, comportamentos e subjetividades
A relação entre saúde e digitalização é frequentemente relacionada ao tempo de tela dos usuários. De acordo com o relatório Global Overview Report, publicado pela DataReportal, o brasileiro passa em média 9 horas e 32 minutos por dia conectado à internet – o segundo maior índice global, superado apenas pela África do Sul (9h38). Para estabelecermos uma referência, a média global do tempo de tela é de aproximadamente 6h38min. A pesquisa da OCDE/Cisco, “Como as pessoas vivenciam as novas tecnologias e a IA generativa?” (dezembro de 2024), realizada em 14 países, revelou que 47,8% dos brasileiros passam mais de 5 horas por dia em frente a telas para fins recreativos, colocando o Brasil em segundo lugar nesse quesito (abaixo apenas do México, com 50,4%).
Dentre estudos recentes, a revisão sistemática de 50 artigos sobre o tema, feita por Santos et al. (2023), concluiu que a maioria encontrou associação entre exposição às telas e problemas de saúde mental em adolescentes. O uso de redes sociais foi negativamente associado ao bem-estar e, em meninas, correlacionado a maior risco de depressão. Outro estudo publicado no British Journal of Clinical Psychology (Li et al., 2025) examinou as associações transversais e longitudinais entre tempo de tela, depressão e ansiedade em adolescentes, identificando que os mecanismos mediadores incluem o deslocamento de comportamentos adaptativos (atividade física, sono, interações presenciais), comparações sociais negativas com padrões irreais e exposição a conteúdos inapropriados. Uma ampla revisão narrativa publicada no Frontiers in Public Health (2025), sob o título “Connected but at Risk: Social Media Exposure and Psychiatric and Psychological Outcomes in Youth” (Conectados mas em risco: exposição às mídias sociais e efeitos psiquiátricos e psicológicos na juventude), sistematizou estudos de PubMed/MEDLINE, PsycINFO, Scopus e Web of Science entre 2010 e 2025, e concluiu que o uso de redes sociais está associado a sintomas de depressão e ansiedade, ideação suicida, distúrbios de imagem corporal em crianças e adolescentes.

Cada vez mais, o circuito da cultura industrializada – e agora digitalizada – submete gradualmente trabalho e lazer à lógica do entretenimento e da comodificação.
(Foto: Cottronbro Studio / Pexels)
O debate sobre uso excessivo das redes e exposição à telas frequentemente passa pelo enquadramento do vício ou da “adicção digital”, com a literatura neurocientífica convergindo, nas últimas duas décadas, para um modelo centrado no sistema dopaminérgico. Apesar desses estudos serem importantes para a análise dos efeitos e implicações neuronais, a questão central aqui é a relação entre campos de pesquisa e regimes epistemológicos: esse tipo de análise mais descreve a fisiologia dos processos de adicção do que explica o “porquê” de sua existência. Uma explicação para tais fenômenos requer a amplitude das implicações e contextos dessas ocorrências, que abarque tanto a dimensão ontológica de tais dispositivos quanto sua existência inscrita em determinado regime/totalidade social.
Geralmente utilizada como recorte, a exposição às telas acaba por reduzir o todo a uma parte ilustrativa, mas que precisa ser compreendida em sua complexidade. A “tela” é algo amplo e com diversos modos de uso. O que chamamos atenção aqui é para a arquitetura e design das plataformas, sua interface, e suas implicações nos modos de distribuição da informação e dos conteúdos, que é uma dinâmica não apenas alienada, mas automatizada por dinâmicas algorítmicas com finalidades mercadológicas, mediações opacas e efeitos formadores. O impacto desses efeitos nas camadas mais jovens revela uma dupla convergência: são tanto as gerações nascidas na “era digital” consolidada, quanto também formam o extrato da população de maior interesse econômico e político das Big Techs.
Primeiro, existe uma dificuldade qualitativa hoje em estabelecer a distinção entre uso recreativo e laboral da esfera digital, especialmente na medida em que, dependendo da área profissional, as relações entre uso de plataformas para lazer e trabalho se confundem – assim como existe também um debate sobre o trabalho não pago no simples uso das plataformas (em que não vamos adentrar aqui). A fragmentação da fronteira entre trabalho e lazer (ou descanso) é uma tendência que já fora percebida por teóricos como Adorno e Horkheimer, ao analisarem o sistema da indústria cultural. A diluição dessa distinção, em curso ao menos desde o final da primeira metade do século passado, ganha uma dinâmica inédita com a digitalização. Cada vez mais, o circuito da cultura industrializada – e agora digitalizada – submete gradualmente trabalho e lazer à lógica do entretenimento e da comodificação, atualizada pela datificação e o circuito de influência digital com sua transposição da vida privada em vida pública, inclusive como expectativa de renda e horizonte de “carreira profissional” na sociedade pós-salarial.
Um ponto fundamental aqui é não reproduzir análises do processo de digitalização destacados de seu contexto real, como a fragmentação da forma social, o colapso da democracia liberal, o horizonte de terra arrasada do mundo do trabalho e o contexto de “policrise” da reprodução social capitalista. A forma do digital emerge e responde a determinadas condições de possibilidade concretas, ditadas pela própria dinâmica do capital: a plataformização do trabalho, com características de “gamificação”, se entrelaça com a plataformização geral da comunicação e da vida, onde o design das plataformas é pensado, desde seu desenvolvimento, para maximizar o tempo de tela dos usuários buscando ampliar a extração de dados, usando técnicas diretamente inspiradas na psicologia behaviorista (BENTES, 2022), levando ao que pode ser chamado de behaviorismo de dados (ROUVROY, 2012). Essa estratégia se alinha à dinâmica do capital fictício e à especulação, atreladas à economia das Big Techs, onde a “tela” torna-se tanto uma superfície de extração de dados – e, assim, valor –, quanto de subjetivação, central para a condição contemporânea do capital.
A pesquisa de Monge Roffarello e De Russis (2023) introduziu a categoria específica de “Padrões danosos de captura da atenção” [‘Attention Capture Damaging Patterns’ (ACDPs)]; padrões que exploram vulnerabilidades psicológicas para maximizar o tempo gasto, as visitas diárias e as interações em um serviço digital contra a vontade do próprio usuário. A partir de revisão sistemática de 43 artigos, os autores identificaram 11 padrões distintos – desde “Time Fog” (névoa temporal, que faz o usuário perder a noção do tempo) a “Infinite Scroll” (Scroll infinito) — e os caracterizaram por cinco propriedades comuns: exploração de vulnerabilidades psicológicas, automação da experiência do usuário, indução à perda de controle e sentido de tempo, e geração de arrependimento posterior.
Alguns mecanismos fundamentais são:
Reforço variável intermitente (slot machine effect) – O mecanismo mais estudado e teoricamente mais robusto. Baseado no trabalho do behaviorista B.F. Skinner sobre esquemas de reforço parcial, consiste em oferecer recompensas (curtidas, comentários, conteúdo relevante) de forma imprevisível e não-contínua.[1]
Scroll infinito, autoplay e eliminação de stopping cues: O scroll infinito, patenteado por Aza Raskin em 2006, é documentado na literatura como um dos mecanismos mais eficazes de extensão involuntária do tempo de uso.
Notificações, FOMO e validação social: plataformas utilizam estratégias de agrupamento e timing estratégico de notificações para criar senso de urgência e ansiedade de ausência (FOMO — Fear of Missing Out; “Medo de Ficar Por Fora”).
E, enfim, os algoritmos de recomendação personalizados: O estudo ‘Algorithmic Addiction by Design’ (arXiv: 2505.00054, 2025) documenta que estudos com neuroimagem mostraram que conteúdo personalizado – como vídeos do TikTok – aciona regiões cerebrais associadas à adicção com intensidade superior à de conteúdo não personalizado (Su et al., 2021). Essa última dimensão é fundamental para pensar a saúde de modo integral, compreendendo a plataformização como, cada vez mais, constitutiva das dinâmicas de formação/subjetivação.
Por outra via, em uma análise teórico-formal crítica, Heimann e Hübener (2023) mobilizam filosofia e psicanálise para demonstrar como os efeitos das mediações algorítmicas de recomendação personalizada alçam agentes de inteligência artificial à posição de atores sociais, produzindo o que chamam de comunidades suplantadas: não apenas por questões político-econômicas, mas também por limites lógicos e epistemológicos, os tipos de interação e subjetivação organizados pela metrificação algorítmica de perfilamentos sociais é incapaz de inscrever e representar modos de negação fundamentais para a socialização, o que produz efeitos formativos deletérios na medida em que condicionam uma dinâmica a-social de resistência/repressão em relação à diferença/alteridade, experiências de frustração, limites (simbólicos/sociais) e, em suma, com a dimensão da negatividade na constituição subjetiva (castração). Isso implica a necessidade de uma abordagem das IAs que não seja nem apenas técnica ou social, mas que abarque uma teoria do inconsciente material – já que a estrutura material da computação e da informação digital altera a própria ordem simbólica que a produz. Esse modo de subjetivação produz dinâmicas identitárias onde a falta/incompletude é estruturalmente excluída, tendo implicações fundamentais para a relação com a (auto) imagem e o corpo.[2] Aqui, encontramos uma intersecção fundamental entre subjetividade, ideologia, economia política e tecnologia.
É comum ouvirmos hoje que os dados são o petróleo do século XXI. Essa analogia tem certo sentido, na medida em que chama atenção para a centralidade dessa nova mercadoria e seu papel fundamental nas dinâmicas globais. Existe certa semelhança pelo seu papel na organização da arquitetura financeira mundial e seu controle imperialista na hegemonia, ainda que ameaçada, das Big Techs estadunidenses. Mas as limitações dessa analogia são ainda mais importantes. Primeiro: dados não são recursos naturais, por mais que certas perspectivas façam parecer que sejam. Eles são produzidos a partir de determinada infraestrutura técnica e, principalmente, a partir de perspectivas ideologicamente implicadas. Segundo: os dados, sua produção e armazenamento em escala massiva, são material primário para a infraestrutura digital automatizada, desde o funcionamento das inteligências artificiais, até as modulações de comportamento oriundas da arquitetura algorítmica em diversas escalas.
Assim, a economia informacional na era da digitalização generalizada integra uma dinâmica de produção não só objetiva, mas subjetiva. A relação com a saúde, que viemos abordando até aqui por uma via específica (as implicações da digitalização para a saúde mental), implica também outra via: o que as informações digitais, especialmente sobre saúde (física e mental), representam hoje em termos de políticas públicas e soberania nacional? Como demonstrou-se até agora, a digitalização hegemônica afeta diretamente não apenas certa sintomatologia localizada por dinâmicas específicas de usuários com plataformas e seu tempo de tela, mas se inscrevem num panorama maior: as condições sociais objetivas de sujeitos em determinado contexto histórico; os interesses político-econômicos inscritos na própria forma – no projeto, arquitetura e design – das plataformas (ontologia técnica); e a condição globalizada do capital, sua temporalidade e espacialidade, relacionada à crise de reprodução social e o papel da digitalização como condicionante neste mesmo processo.
Com a evidente importância estratégica das informações digitais, ficam as seguintes questões sobre a política de dados atual do Estado brasileiro: desde 2014, o Estado gastou mais de R$23 bilhões em licenças de software, serviços em nuvem e segurança digital com empresas como Microsoft, Oracle, Google e Red Hat. Só no período de junho de 2024 a junho de 2025, foram R$ 10 bilhões – R$ 4,6 bilhões pagos pelo governo federal, e o restante por estados e prefeituras. A Microsoft lidera como contratada, com R$ 3,27 bilhões no período analisado, sendo R$ 1,6 bilhão apenas em 2025 (Intercept/GOV). O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), mantém desde o ano passado um contrato com a Palantir – empresa alvo de diversas ações judiciais nos Estados Unidos por serviços de espionagem prestados a clientes como o Pentágono, a CIA e os serviços secretos MI6 e Mossad –; assim como a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo; a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro; o Ministério da Justiça/Polícia Federal; o Exército Brasileiro; o Instituto Butantan; e o NHS (Reino Unido), que reflete sobre o SUS via parceria bilateral.
O mecanismo que torna isso possível é o Marketplace do Serpro (Empresa Nacional de Inteligência em Governo Digital e Tecnologia da Informação): por meio dele, um órgão público pode contratar serviços de terceiros como se estivesse contratando a própria estatal brasileira, dispensando licitação específica. Soma-se a isso o CLOUD Act: a lei dos EUA que obriga empresas de tecnologia a fornecerem dados e informações de usuários a autoridades estatais, o que torna mais que evidente o cavalo de tróia que são tais contratos. O valor (econômico e político) das informações (especialmente, aqui, em saúde, mas não só) são óbvios, resta saber o que faremos em relação à essa subserviência digital que, hoje, tem um aspecto mais do que estratégico.
(*) Cian Barbosa é flamenguista e morador do Rio de Janeiro. Bacharel em sociologia (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ), pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador do Centro de Formação.























