Tapajós: centro nervoso da contradição do governo
De nada adianta subir a rampa do Palácio com os povos originários, mas governar sentado à mesa com as agroindústrias multinacionais
Há mais de um mês, povos indígenas do Baixo, Médio e Alto Tapajós mantêm ocupação diante do porto da Cargill, gigante multinacional da agroindústria, em Santarém (PA). Com toda a coragem dos nossos povos originários, essa ação de resistência pretende parar, custe o que custar, o projeto que transformará o rio Tapajós em corredor permanente de exportação de commodities. É a resposta organizada dos 14 povos que vivem ali e sabem, pela experiência histórica, que o capital destrói tudo por onde passa.
Sem dúvidas, desde a ocupação da COP 30, a força dos povos indígenas têm inspirado a todos nós, ao mesmo tempo que escancara a grande contradição que há entre os interesses da maioria do povo e a política neoliberal do governo brasileiro.
O estopim desta luta foi o anúncio de um edital de R$ 74,8 milhões para a dragagem do Tapajós, etapa preparatória para consolidar a hidrovia. A dragagem consiste em aprofundar o leito do rio para permitir a navegação contínua de grandes comboios carregados de soja e milho, o que significa alterar o regime natural das águas, interferindo nos ciclos de cheia e seca, impactando a reprodução de peixes e fragilizando ecossistemas inteiros de várzea. Outra denúncia é que a intensificação do tráfego de grandes embarcações aumenta o risco de acidentes e contaminação por combustíveis, altera a dinâmica da pesca, interfere na mobilidade das comunidades, além de ameaçar moradias e áreas produtivas. Tudo isso feito sem nenhuma participação popular, direito garantido pela Convenção 169 da OIT, e o projeto avança como se o rio fosse vazio, como se ali não existissem povos.

Indígenas Munduruku fasem protesto no Rio Tapajós em novembro de 2014.
(Foto: Greenpeace/Bruno Kelly)
Esse processo faz parte da consolidação do chamado Arco Norte, um conjunto de portos nos estados de Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Maranhão para escoar os grãos do Centro-Oeste para a Europa, China e Estados Unidos. Na prática, significa o aprofundamento da dependência primário-exportadora do Brasil ao capitalismo imperialista, pois visa apenas reduzir custos e ampliar margens de lucro do agronegócio, além de integrar ainda mais a Amazônia às cadeias globais de commodities.
Governo a serviço do agronegócio e do capital
Diante da ocupação em Santarém, o governo recuou no pregão da dragagem, mas manteve intacto o coração do problema: a inclusão de mais de 3 mil quilômetros de rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização, por meio do Decreto nº 12.600/2025. Uma grande covardia, que assegura a continuidade do projeto de privatização dos rios.
A questão fundamental é que o governo de Lula sustenta um discurso ambiental no cenário internacional, mas na prática, consolida um modelo econômico voraz, inteiramente voltado à exportação acelerada de grãos. Seus ministros até falam em soberania, mas são precursores da lógica da concessão privada e da demanda do mercado de commodities. De nada adianta subir a rampa do Palácio com os povos originários, mas governar sentado à mesa com as agroindústrias multinacionais. A farsa fica evidente: é impossível conciliar o chamado crescimento econômico com o bem-estar do povo e do meio ambiente, pois esse modelo de desenvolvimento explora a Amazônia até a última gota, submetendo-a aos interesses do mercado global.
Essa operação é realizada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que alavanca as grandes obras para atender à expansão do agronegócio e da mineração, como as hidrelétricas de Belo Monte e Santo Antônio, empreendimentos que também foram apresentados como indispensáveis ao “desenvolvimento nacional”, mas deixaram um legado de deslocamentos forçados e impactos ambientais graves. Ao estruturar as concessões ao setor privado e oferecer garantias, o BNDES atua como organizador das condições financeiras para que o capital privado opere com segurança e rentabilidade.
Além disso, o próximo passo é a presença dos fundos internacionais, organizando a financeirização da própria natureza. De fato, hidrovias concedidas, com contratos de longo prazo e garantias estatais, passam a integrar carteiras de investimento como fontes previsíveis de retorno atreladas à exportação de commodities. Dessa forma, a disputa no Tapajós expõe como o capital financeiro internacional subordina a dinâmica dos rios e a vida das comunidades à lógica do lucro.
Os povos indígenas lutam por todos nós
Na última semana, movimentos sociais e organizações indígenas também ocuparam a sede da Cargill em São Paulo (SP), com vistas a aumentar a pressão sobre o governo, uma vez que a Justiça determinou a desobstrução do porto em Santarém. A ampliação dessa luta revela a consciência de que é responsabilidade da nossa geração parar a criminosa política de privatização e superexploração do meio ambiente.
A linda batalha travada em Santarém explicita a força dos povos do Tapajós, expõem a contradição central do governo e afirma que esses povos não aceitarão o roubo de seus territórios por meia dúzia de acionistas sedentos por lucro.
(*) Isis Mustafa é dirigente do partido Unidade Popular pelo Socialismo.























