Tarcísio de Freitas na mira: greves crescem nas universidades de São Paulo
A morte de uma professora na UNESP e a precariedade cotidiana catalisam um ciclo de mobilização que mira o governo Tarcísio
A professora do Instituto de Artes da UNESP, Sandra Regina Campos, foi vítima de um mal súbito e veio a óbito em meio à sua aula na noite de 7 de abril. Como a universidade não conta com uma política de emergência médica nem ambulatorial, mesmo com os esforços dos seus alunos, foi impossível salvar a sua vida. Essa tragédia, que escancara o desmonte da UNESP por meio da falta de funcionários, infraestrutura precária e péssimas condições de permanência, foi o estopim para uma greve com ocupação dos estudantes do campus Barra Funda, ao lado do Diretório Central dos Estudantes Helenira Resende.
Os estudantes da USP também vivem uma realidade dramática e aprovaram uma greve estudantil que já atinge mais de 130 cursos, impulsionada por pautas que se repetem ano após ano: falta de moradia, bandejões precarizados e um auxílio permanência de apenas R$ 850, insuficiente diante do custo de vida em São Paulo. Os estudantes que vivem no Conjunto Residencial da USP (CRUSP) não têm direito ao passe livre estudantil e recebem apenas R$ 330 para sobreviver ao longo do mês. No início das aulas, os cruspianos ficaram duas semanas sem água devido a falhas da SABESP. Ao mesmo tempo, salas superlotadas, déficit de docentes e terceirizações aprofundam a sensação de destruição da educação.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, durante solenidade de passagem de comando da Polícia Militar.
(Foto: Pablo Jacob/Governo Estado SP)
Logo depois, diversos cursos da UNICAMP também aprovaram paralisação das aulas na próxima semana.
Nessa toada, a greve geral estudantil em São Paulo se desenvolve para dar um basta no desmonte das universidades, mirando no principal responsável por todo esse processo: o governador Tarcísio de Freitas e seu projeto para a educação. Vale lembrar que os estudantes secundaristas estão numa dura jornada contra a militarização das escolas, pelo fim do projeto privatista “Sala do Futuro” e pela reversão do corte de R$ 11 bilhões no orçamento.
No próximo dia 4 de maio, acontecerá o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo, e o Fórum das 6 (instância que reúne estudantes e trabalhadores dessas universidades) apresentará as suas pautas; em seguida, o movimento organiza, ainda em maio, a construção de uma grande marcha estudantil até o Palácio dos Bandeirantes, inspirada nas jornadas de junho de 2013 e nas ocupações de escolas em 2015. Dany Oliveira, diretora do DCE Livre da USP Alexandre Vannucchi Leme, representando os estudantes grevistas, conta com empolgação e brilho nos olhos: “temos certeza de que esse levante estudantil é a força que precisávamos para defender a educação de hoje e de amanhã”.
Precarizar para privatizar: velha cartilha, novos métodos
O que une esses processos é o estrangulamento orçamentário que está em curso nessas universidades e as escolhas políticas para lidar com a escassez.
Hoje, USP, UNESP e UNICAMP dependem de uma fatia fixa da arrecadação do ICMS: 9,57% do imposto estadual é destinado ao conjunto das três universidades. Desse total, cerca de 5,02% vai para a USP, 2,34% para a UNESP e 2,19% para a UNICAMP. Com a reforma tributária e a extinção do ICMS, existe uma pressão para elaborar uma nova forma de financiamento das universidades, que sofrem os primeiros impactos já neste ano fiscal.
O resultado aparece no cotidiano: universidades incapazes de garantir o básico. O orçamento aprovado para a USP em 2026 prevê 84% de gastos com a folha de pagamento (R$ 7,92 bilhões) e apenas R$ 1,33 bilhão para investimentos em infraestrutura, assistência estudantil e expansão. Na UNESP, estima-se que o déficit de servidores técnicos e professores chega a 50%.
Esse estrangulamento é uma estratégia. Ao manter as universidades em permanente crise, o governo abre espaço para a entrada crescente da iniciativa privada, por meio de convênios com empresas, fundações e parcerias público-privadas. A produção científica se orienta por demandas do mercado, serviços são terceirizados, e o serviço público vai sendo guiado pela lógica da rentabilidade. Exemplo disso é o escandaloso programa “Experiência HC”, denunciado pelos grevistas da Faculdade de Medicina da USP, que cobra uma bagatela de quase R$ 9 mil de estudantes de outras instituições por estágio de um semestre no Hospital das Clínicas (HC).
As greves estudantis, portanto, não são apenas respostas à falta de bandejão ou de moradia, mas denunciam um projeto de universidade que está transformando as universidades em mercadorias.
As greves também mostram que não há saída individual para um problema estrutural. É possível resolver os problemas que estão na mesa hoje, mas isso exige um movimento unificado dos estudantes de São Paulo, com organização, luta e muito enfrentamento. Só assim poderemos exigir recomposição imediata das verbas, ampliação da permanência estudantil, contratação de professores e servidores e o fim das terceirizações.
Dany faz um chamado à luta: “É necessário barrar o avanço da iniciativa privada e reafirmar que a universidade deve servir ao povo, não ao lucro. Nós estamos aqui lutando pelo futuro da educação pública em nosso país. Se a gente permitir que esse desmonte aconteça aos poucos, daqui a uns anos será impossível reverter esse processo. Então vamos parar tudo agora! Fora Tarcísio e seu projeto de sucateamento!”
(*) Isis Mustafa é dirigente do partido Unidade Popular pelo Socialismo.
























