Quinta-feira, 16 de abril de 2026
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Acordo com a notícia de que meninas foram mortas numa escola iraniana. O resto do dia passa a girar em torno disso. A notícia fica. Fica com as imagens, com os comentários, com as versões interessadas, com a sensação de que o crime já entrou no mundo cercado de álibis e de que, no fim, ninguém vai responder por ele. Em Minab, no sul do Irã, a escola Shajareh Tayyebeh foi atingida em 28 de fevereiro, no início da ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel. Morreram mais de 160 crianças e professoras. A investigação segue aberta. A resposta não veio. A punição, menos ainda. 

É isso que pesa desde cedo. A cena do massacre basta para quebrar qualquer manhã. O que pesa também é o que vem junto dela: a experiência já conhecida de assistir a um crime dessa dimensão entrar na circulação pública cercado de cautelas, dúvidas seletivas, justificativas técnicas, explicações que esfriam o horror antes mesmo que ele possa se fixar como escândalo. A morte de meninas numa escola aparece no mundo e, quase no mesmo instante, começa o trabalho para reordená-la numa linguagem que a torne suportável para quem a produz, para quem a defende, para quem precisa seguir chamando de civilização o que já se acostumou a administrar cadáveres infantis. 

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Ataque israelense contra Teerã no dia 12 de juho de 2025. (Foto: Mohammadjavad Alikhani / Mehr News Agency)

Ataque israelense contra Teerã no dia 12 de juho de 2025.
(Foto: Mohammadjavad Alikhani / Mehr News Agency)

Ao longo do dia, leio o que vai saindo, volto ao assunto, vejo o esforço de muita gente para sustentar a gravidade do que aconteceu. Vejo também o resto: o orientalismo automático, a prontidão para suspeitar primeiro do país atacado, a facilidade com que o agredido é redescrito até que a agressão perca nitidez. Em pouco tempo, a cena já está povoada por filtros, reservas, deslocamentos. O massacre continua sendo um massacre, mas passa a circular compensado pela busca diversionista, por ressalva, por cálculo. É aí que a notícia deixa de ser só notícia e vira matéria de desgaste. Ela ocupa o dia inteiro porque o crime chega acompanhado da sua administração.

Então, me vem Georg Trakl, poeta austríaco que atravessou o início da devastação da Primeira Guerra. Num verso de Unterwegs, ele escreve: “de novo e de novo aquela tarde passada retorna”. O verso cabe aqui em analogia porque certas notícias não terminam quando o dia acaba. Elas voltam porque ficaram sem resposta, porque seguem sem punição, porque o mundo continua de pé em torno delas.

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Trakl escreveu a guerra a partir do colapso que ela deixava no corpo e na percepção. Quem lê hoje certos massacres à distância sente outra coisa, muito menor, mas ainda assim real: a guerra passa a ocupar o dia, a organizar a atenção, a interferir no humor, a desgastar a capacidade de sustentar espanto. Ela não nos atinge como as bombas reais, nos obriga a participar da guerra dentro da consciência, no convívio repetido com crimes que retornam, que se repetem. 

Teerã é logo ali. A massa de destruição pesa sobre as nossas cabeças, mesmo à distância. A distância geográfica continua inteira. O cotidiano, não. A guerra entra pela tela, pelas frases que circulam, pelas imagens que voltam quando parecia possível pensar em outra coisa. Altera o peso das horas, desloca o humor, introduz uma tensão contínua no interior da rotina. O trabalho continua, os compromissos continuam, as pequenas tarefas continuam, e tudo isso passa a se desenrolar sob a pressão de um acontecimento distante que já se instalou perto demais.

Junto com isso, alguma coisa vai mudando na percepção. A atenção perde firmeza. A sensibilidade procura meios de suportar. Cada novo massacre encontra uma consciência já cansada do anterior. Cada nova imagem se deposita sobre imagens que ainda não saíram. Forma-se aos poucos um aprendizado brutal: seguir o dia carregando mortos na cabeça, ouvir justificativas repugnantes, continuar funcionando à espera do próximo horror. Esse prolongamento tem efeito político. Um mundo submetido ao retorno constante do massacre se torna mais fatigado, mais sitiado, mais vulnerável à administração do intolerável. A revolta não desaparece. Vai sendo comprimida, forçada a viver sem consequência, empurrada para dentro de um circuito em que o crime se repete, a desculpa se repete, a impunidade se repete.

É isso que tento segurar quando escrevo. Tento impedir que a manhã seguinte encontre tudo já acomodado dentro de mim. Tento não entregar tão depressa ao esquecimento as meninas mortas, a escola destruída, a linguagem suja que se acumula em torno do crime, a sensação de que o mundo seguirá adiante como se fosse possível seguir adiante assim. Escrevo para retardar essa acomodação. Escrevo porque ainda quero preservar alguma coisa da revolta antes que ela também entre no looping e comece a voltar apenas como cansaço.

…“de novo e de novo aquela tarde passada retorna”.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.