Trump: a lógica de sua loucura
O objetivo de Trump é inaugurar uma nova era imperial: sustentar o antigo “sistema imperialista” globalizado revelou-se indesejadamente custoso
Muitos torceram o nariz para quem disse que Kamala Harris, e não Donald Trump, era a candidatura preferida e orgânica do imperialismo. Agora, com a recente ofensiva do presidente estadunidense para tomar a Groenlândia da Dinamarca, país fundador da OTAN, talvez fique mais clara essa afirmação. A estupefação do establishment liberal, representada por Emmanuel Macron na vergonhosa mensagem divulgada por seu interlocutor – “não entendo o que você está fazendo em relação à Groenlândia” –, é um sinal claro do choque pelo rompimento de velhos pactos.
Os ataques imperialistas costumavam ser dirigidos apenas aos países e povos racializados do Sul Global, num consórcio do qual as elites europeias, baluartes dos ditos “valores civilizatórios ocidentais”, cinicamente sempre fizeram parte. Lembremos do presidente francês afirmando, naquele mesmo texto, que “estamos totalmente alinhados em relação à Síria, podemos fazer grandes coisas em relação ao Irã”. Agora, os EUA se voltam contra os seus próprios aliados do velho continente. Trump é um intruso no sistema imperialista baseado na tal “ordem baseada em regras”, uma farsa que sempre favoreceu apenas as grandes potências, mas que agora está em plena degeneração, como admitido francamente pelo primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em Davos.

O presidente Donald Trump discursa para membros da imprensa na Sala de Imprensa James S. Brady, na terça-feira, 20 de janeiro de 2026.
(Foto: White House / Joyce N. Boghosian)
Por mais esdrúxula que aquela afirmação inicial possa parecer, ao olharmos o passado, não há nada de estranho em apontar que Trump estava longe de ser o candidato mais bem-quisto do imperialismo. Ao oposto, historicamente, é característica de tipos fascistas não serem os favoritos das elites, as quais preferem previsibilidade e estabilidade à oscilação dos ditos “populistas”. Fora o jeito grosseiro, os discursos hiperbólicos e a tendência autoritária e por concentração de poder, o maior desgosto das burguesias com estes líderes sempre foi a sua dependência das massas déclassé. Revoltadas com a sua pauperização, elas clamam por medidas que contrariam interesses econômicos capitalistas. Preocupa o andar de cima que estes apelos sejam atendidos.
Trotsky já havia identificado que “a intervenção cirúrgica do fascismo” é vista como “muito arriscada e sem consonância com a situação” por uma parte da grande burguesia. Mas diante de graves crises, as elites medem os riscos, e um grupo do capital acaba por abraçar os líderes fascistas. Em algum grau, trata-se de uma medida desesperada. Não por uma causa nobre, mas apenas por interesse na recuperação das taxas de lucro. É fato, portanto, que Trump foi eleito com o apoio de fração da burguesia imperialista, mas não daquela principal, que vinha liderando a condução do sistema até então, num equilíbrio entre republicanos e democratas, e em aliança com o imperialismo europeu, subalterno ao estadunidense. A preferência deste grupo, evidentemente, era Kamala Harris, muito mais estável e adestrada do que Trump, um sujeito imprevisível.
Mas uma vez vitorioso, fruto da sua popularidade entre as massas, ele se torna o líder inconteste do sistema imperialista e, como é natural, ganha apoio imediato da maioria da burguesia, que é totalmente dependente do Estado para o fluir dos seus negócios. Vide o seleto círculo de bilionários presente na posse de Trump, muitos dos quais, até ontem, eram adeptos da agenda liberal-progressista dos democratas. Assim, quando no poder, comandando a máquina do império, é inevitável que mais cedo ou mais tarde o novo líder traia as suas demagógicas promessas iniciais pró-classe trabalhadora, e atenda aos interesses dos poderosos, pelo menos de parte deles. Do contrário, ele próprio não tem condições de se sustentar.
É hora de jogar as massas ao mar. Assim foi com Hitler, Mussolini e assim o é com Donald Trump. O tal programa MAGA já foi muito ou quase totalmente desidratado. Do seu caráter original populista reacionário, restou apenas o reacionário. Na realidade, hiper-reacionário, que serve de pão e circo aos apoiadores mais fanáticos. Enquanto o presidente aplica uma política econômica que transfere riqueza da base para o topo, a plebe se distrai com as caçadas animalescas a imigrantes pelo ICE e políticas antifeministas e LGBTQIA+.
Vale frisar que as excentricidades tarifárias, de caráter antiliberal, são muito mais instrumento de coerção para abrir mercados (e agora até para tomar terras, vide a Groelândia) do que políticas econômicas sérias. Trump acelerou medidas desregulatórias, reduziu tributos para os mais ricos e cortou gastos sociais. Por isso, as tarifas não descaracterizam o cerne neoliberal do governo de Trump, que se sustenta sobre o poderio imperialista. Podemos repetir a filósofa Nancy Fraser ao afirmar que saímos da fase do neoliberalismo progressista a la Clinton para o neoliberalismo hiper-reacionário de Trump. Ou seja, não se deixou de ter um governo que favorece o grande capital, ainda que sob outra roupagem.
Lembrando Michael Parenti, o fascismo é sempre uma falsa revolução popular. É efetivamente rupturista, mas não revolucionário. Promete a transformação total e, ao final, acaba servindo aos mesmos interesses capitalistas, tal qual os seus predecessores liberais, mas com o teatro de ser “antissistema”. É o caso de Trump, que de fato quer romper com o modelo anterior, mas não para revolucioná-lo. O seu objetivo é inaugurar uma nova era imperial. A tal “ordem baseada em regras” é uma amarra política inconveniente em tempos de radicalização. Além disso, sustentar esse antigo “sistema imperialista” globalizado revelou-se muito custoso para os EUA, vide o desinteresse e desfinanciamento de todas as organizações internacionais, com exceção da OTAN, o braço militar.
Além disso, a ordem atual, que se consolidou no pós-Guerra Fria com a derrota da União Soviética e a hegemonia neoliberal, provocou choques econômicos e sociais sobre as populações nacionais, em especial aquelas mais conservadoras. A rápida penetração das forças de mercado globais levou não apenas à desindustrialização e a maior desigualdade, mas também ameaçou modos de vida tradicionais. A crise de 2008 explodiu esse barril de pólvora. As políticas de austeridade que se seguiram produziram um arrocho econômico ainda maior sobre a classe trabalhadora, causando grave ressentimento. Tal, combinado ao temor pelos novos padrões culturais, levaram a uma forte reação daqueles que viram os seus valores ameaçados.
Como bem descreveu Karl Polanyi, o impulso de expandir e autonomizar os mercados sempre foi seguido por demandas de proteção social. Saudosos do passado, grupos conservadores se insurgiram contra tudo o que estava associado àquela ordem, sem excepcionar as minorias, igualmente vítimas das forças de mercado, mas que conseguiram alguns pequenos avanços, muitas vezes apenas de ordem simbólica. A responsabilidade por esta reação é fundamentalmente do neoliberalismo progressista, que instrumentalizou causas emancipatórias legítimas em troca de medidas de austeridade. É daí que nasce a rejeição a políticas “woke” e “globalistas”, identificadas com a esquerda liberal e que foram terreno fértil para Trump ganhar popularidade eleitoral, explorando o medo das massas.
Com este mundo em crise e, por consequência, os EUA, o seu principal bastião, o presidente estadunidense busca impor à força – seja com a tarifas, seja com ameaça militar – um novo modelo imperialista, de tipo nacionalista, ao estilo do XIX. Cada grande nação deve perseguir os seus próprios interesses autonomamente, protegendo a sua zona de influência, custe o que custar. Não à toa, já afirmou que a Ucrânia não é problema seu, mas dos europeus, e abertamente recuperou a Doutrina Monroe, de 1823, em seu corolário de política externa: “A América para os americanos”. Como os EUA ainda são a grande potência econômica e guerreira do mundo, eles saem à frente nesta nova ordem.
Como todo imperialismo, o de Trump é violento, mas é construído à sua imagem e semelhança: nu e cru, sem as hipocrisias edulcoradas usuais, tão típicas dos democratas. Logo após o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, isso ficou claro: a violação flagrante da “ordem internacional baseada em regras” não veio sequer acompanhada de um belo discurso sobre democracia, nem mesmo sobre evitar o inexistente Cartel de los Soles (desculpa esfarrapada rapidamente abandonada): era tudo pura e simplesmente sobre o domínio do petróleo, para o desespero da imprensa liberal.
Trump é sintoma, não causa dos problemas. Por isso, mais do que capricho seu, este imperialismo hiperagressivo é tão somente a expressão da necessidade de um império em decadência, acossado pela perda de sua hegemonia e que por isso reage com violência. Mas mesmo as feras feridas são capazes de golpes fatais. É o caso do Estados Unidos, que utilizarão todas as forças que lhe restam – e são muitas, em especial a coerção econômica e militar – para evitar a sua derrocada final. Para tanto, não pode haver amarras, sejam legais, institucionais ou éticas. Como afirmou ao New York Times, o seu único limite é a sua “própria moralidade”.
Há, assim, algo de fato particular em Trump: a condução narcísica do poder, sedenta por aplausos e bajulações, e comicamente tresloucada, tal como um rei desvairado. Só guarda o mínimo respeito aos líderes pelos quais tem algum apreço, seja por “química” (o que parece ser o caso de Lula, ao menos por ora), seja por medo, como Vladimir Putin, Xi Jinping e o genocida Benjamin Netanyahu. Lideranças fracas, como as europeias, tal qual ele próprio afirmou, apenas merecem o seu total desprezo e sarcasmo, ou no máximo algumas migalhas.
Na atual fase histórica, de agonia da decadência de um império, cai como uma luva a frase do velho Marx: “A história é sólida e passa por muitas fases ao conduzir uma forma antiga ao sepulcro. A última fase de uma forma histórico-mundial é sua comédia.”
(*) Susana Botár é advogada, graduada em Direito pela Universidade de Brasília, mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo e doutoranda pelo mesmo programa.






















