Segunda-feira, 15 de junho de 2026
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A ingenuidade política das democracias periféricas consiste em supor que o imperialismo só existe quando suspende-se formalmente as representações parlamentares. Sua eficácia histórica repousa, ao contrário, na capacidade de operar por dentro das formas jurídicas, eleitorais, tarifárias, midiáticas e diplomáticas da ordem existente. A dominação imperial, nessas formações, raramente precisa declarar-se como exceção quando dispõe dos instrumentos necessários para converter a normalidade institucional em mecanismo de constrangimento externo.

Nos quadros da democracia burguesa, convém recordar sua dualidade constitutiva. De um lado, a democracia moderna foi a forma política assumida pela dominação burguesa em determinado estágio do capitalismo, sobretudo em sua fase concorrencial, quando a expansão das relações mercantis exigia garantias formais, previsibilidade jurídica, liberdade contratual e representação compatível com a ordem proprietária. Isso porquê, historicamente, democracia e regime representativo não se confundem. De outro lado, a democracia existente não resultou de concessão magnânima das classes dominantes: foi produto exclusivo de lutas operárias, conflitos nacionais, revoluções de libertação nacional, reformas e pressões populares que obrigaram a dominação a processar-se no interior de normas, direitos e franquias historicamente arrancados.

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O presidente dos EUA, Donald Trump, em entrevista antes de embarcar no helicóptero presidencial Marine One. <br> (Foto: Patrick B. Ruddy / White House)

O presidente dos EUA, Donald Trump, em entrevista antes de embarcar no helicóptero presidencial Marine One.
(Foto: Patrick B. Ruddy / White House)

Na evolução do capitalismo, a etapa imperialista altera essa equação. Quando o capitalismo ingressa em sua fase monopolista, financeirizada e transnacional, a democracia burguesa tende a reduzir a vigência efetiva das normas que, em ciclos anteriores, fora obrigada a reconhecer. Direitos tornam-se rigidez suplantável; soberania econômica, obstáculo institucional; regulação pública, insegurança jurídica; organização popular, ameaça a estabilidade; política industrial, distorção de mercado; deliberação democrática, ruído diante da racionalidade superior dos livre cambismo. O neoliberalismo, nessa chave, não é apenas doutrina econômica: é a forma contemporânea de administração política do imperialismo.

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É nesse quadro que Donald Trump deve ser compreendido. Não como acidente político na história estadunidense, mas como manifestação ostensiva de uma tendência mais ampla e profunda: a compressão necessária das mediações democráticas sempre que elas dificultam a recomposição imperial do capital. Trump não elimina a lógica neoliberal, mas altera sua superfície. Ele substitui a liturgia cosmopolita da globalização por uma semântica de coerção direta. Onde antes havia a retórica da interdependência, instala-se a tarifa punitiva. Onde antes se falava em parceria hemisférica, explicita-se a disciplina da coerção e chantagem. Onde antes a hierarquia se ocultava sob fóruns multilaterais, ela reaparece como sanção, controle migratório, pressão militar, tutela financeira e ingerência eleitoral.

A América Latina volta, assim, à condição de laboratório preferencial dessa nova-velha razão imperial. No Paraguai, a ampliação da cooperação militar com os Estados Unidos e a autorização para atuação de forças norte-americanas em território paraguaio foram lidas regionalmente como deslocamento sensível do equilíbrio estratégico do Cone Sul, sobretudo pela proximidade com Brasil, Bolívia e Argentina. A categoria de base militar, nesse caso, deve ser manejada com rigor: mais do que uma base formal permanente, trata-se de uma infraestrutura político-militar de presença, trânsito, imunidades, treinamento e projeção, precisamente a forma flexível que a presença imperial assume quando não necessita de ocupação clássica. 

No Equador, a tentativa de Daniel Noboa de reabrir o país à instalação de bases militares estrangeiras revelou a mesma lógica. A proposta, rejeitada em referendo, pretendia remover um interdito constitucional herdado do ciclo soberanista anterior e reintroduzir, sob o vocabulário da segurança e do combate ao narcotráfico, a presença militar estrangeira como solução para a crise interna. O eleitorado equatoriano recusou a medida, mas o episódio é mais importante do que seu resultado: mostrou que a militarização da segurança tornou-se uma das gramáticas privilegiadas da recomposição norte-americana na região. 

Na Colômbia, a tensão com Gustavo Petro evidenciou outro mecanismo: a desestabilização por meio da certificação moral. Trump ameaçou cortar subsídios, elevar tarifas e acusou Petro de fracassar no combate ao narcotráfico, chegando a produzir uma crise diplomática de rara intensidade entre Washington e Bogotá. A questão colombiana, historicamente atravessada pelo Plano Colômbia, pela guerra às drogas e militarização interna, reaparece agora sob a forma de pressão direta contra um governo que reivindica maior margem de autonomia. 

Em Honduras, o intervencionismo assumiu feição eleitoral explícita. Trump apoiou publicamente o candidato conservador Nasry Asfura, acusou autoridades hondurenhas de tentativa de manipulação do resultado eleitoral e ameaçou consequências caso o processo não confirmasse a direção política desejada por Washington. A subsequente revogação de vistos de autoridades hondurenhas pelo Departamento de Estado expôs a velha pedagogia imperial: a soberania eleitoral é reconhecida enquanto produz resultados aceitáveis à potência. 

O caso Bukele acrescenta uma dimensão exemplar. El Salvador tornou-se vitrine de um autoritarismo carcerário admirado por setores da nova direita hemisférica. A parceria entre Trump e Bukele, com deportados e prisões arbitrárias, revela a convergência entre política migratória, exceção penal, espetáculo punitivo e legitimação internacional de governos semifascistas. A prisão deixa de ser apenas instituição nacional, convertendo-se em serviço regional da ordem imperialista, uma espécie de terceirização do estado de exceção. 

Com Milei, a engrenagem alcança forma quase doutrinária. A Argentina tornou-se espaço de alinhamento ideológico, financeiro e militar com Washington. O decreto que autorizou exercícios militares com tropas norte-americanas em Ushuaia, Mar del Plata e Puerto Belgrano inscreve a Patagônia — região de projeção antártica, recursos naturais, água, energia e posição estratégica no Atlântico Sul — no mapa sensível da disputa sobre a América Latina. Mesmo quando apresentados como exercícios temporários, tais movimentos possuem claro significado geopolítico, aproximando a presença militar norte-americana de uma das áreas mais estratégicas do continente. 

O Brasil deve ler esses episódios como partes de uma mesma arquitetura, e não como fatos dispersos. Paraguai, Equador, Colômbia, Honduras, El Salvador e Argentina revelam modalidades distintas de uma ofensiva comum: presença militar flexível, reabertura de bases, coerção eleitoral, guerra às drogas, estímulo a regimes de exceção, coerção tarifária, controle migratório e captura de áreas estratégicas. A política de Trump para a América Latina retoma a intuição profunda da Doutrina Monroe, tornando o continente como zona preferencial de segurança, extração e subordinação dos Estados Unidos.

A questão brasileira, entretanto, permanece interna e estrutural. O imperialismo só se estabiliza quando encontra, dentro das formações dependentes, classes aptas a traduzi-lo como racionalidade local. A burguesia brasileira, salvo rarps momentos específicos, não realizou plenamente a função histórica de uma burguesia nacional. Associou-se ao Estado para obter crédito, obras, proteção e contratos; insurgiu-se contra ele quando este pretendeu disciplinar a acumulação privada em nome de objetivos nacionais. Daí a natureza de nosso capitalismo: dependente, associado, rentista, socialmente excludente e intelectualmente colonizado por métricas externas de validação.

A conclusão exige precisão: Trump não criou a dependência latino-americana. Apenas a reorganiza com menos pudor. Seu mérito histórico, embora involuntário, é retirar o verniz da cooperação simétrica e expor friamente a mecânica do poder. O problema maior, embora não seja o único, não está em uma potência agir como potência, mas em formações nacionais que ainda produzem elites treinadas para converter tutela em técnica, subordinação em prudência e renúncia estratégica em modernidade. A América Latina não está apenas diante de Trump. Está diante da pergunta que suas classes dominantes sempre evitaram responder: que tipo de Estado, economia e elite dirigente são necessários para que a independência deixe de ser forma jurídica e se torne capacidade histórica efetiva?

(*) Guilherme Diniz é professor de História do Brasil e dedica-se ao estudo da formação social brasileira, do pensamento brasileiro e das ideias que moldaram o país. Minhas pesquisas transitam por temas como Forças Armadas, republicanismo e nacionalismo no Brasil, buscando compreender as continuidades, disputas e projetos que atravessam nossa trajetória histórica, política e intelectual.