Trump foi à China ter uma aula de Tucídides com Xi
Presidente da China acenou com a paz com Trump, mas também traçou expressamente linhas vermelhas, provando que o equilíbrio de forças mundial mudou
O anfitrião Xi Jinping se dirigiu ao seu convidado Donald Trump em Pequim, com altivez, para lembrar que China e Estados devem evitar a Armadilha de Tucídides – um conceito recente da geopolítica americana, desenhado por Graham Allison, que se baseia em uma tese muito simples: potências ascendentes tendem a guerrear contra a potência ainda dominante.
Allison desenhou um cenário, baseado em 16 casos, em que a armadilha teria acontecido na História, ora com vitória da potência incumbente, ora com vitória da desafiante – e com poucos casos de paz. A teoria recebeu boas críticas à direita e à esquerda, mas a espinha dorsal dela é um tanto factual, embora possamos considerar que simplifica demais as coisas.

Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e China, Xi Jinping, durante visita do norte-americano à China.
(Foto: Daniel Torok / White House)
A referência remete ao historiador grego Tucídides, general na Guerra do Peloponeso, quando a ascendente Atenas derrotou a decadente Esparta. Seu legado mais importante foi sua clássica História da Guerra do Peloponeso, um calhamaço em oito tomos, que funda em grande medida o que chamamos de Ocidente – e que resultou no esboço do que entendemos por ciência política, relações internacionais dentre outras disciplinas.
Xi poderia ter, simplesmente, feito alguma elíptica referência aos clássicos chineses – o que soaria enigmático aos ouvidos ocidentais –, mas ele preferiu apelar a algo da cultura de seu interlocutor dessa vez. Assim, situou Trump ou, como diríamos, colocou a bola no chão em um jogo com um – profundamente – impopular presidente americano, que está atolado no Irã.
Realismo geopolítico em tempos cínicos
Trump já deveria ser um pária internacional, mas há momentos em que o cargo veste e investe o ocupante dele. Seus gestos, pelo que eles têm de débeis ou mortíferos, não deveriam permitir que ele transitasse em ambientes civilizados, mas não é Trump que está lá, mas o presidente americano. E ele ainda tem poder, embora o que importe hoje é transacionar com ele sobre o que – e como – será seu declínio.
Não, os Estados Unidos não deixarão de ser um país importante, mas terão de achar uma posição compatível com sua força atual. Uma queda sem negociação pode produzir uma catástrofe, e a pior delas é uma Terceira Guerra Mundial – algo que parecia distante e exagerado há quatro anos, mas que pouco a pouco tem sido normalizado enquanto possibilidade.
Por ora, Trump buscou resolver os nós górdios com força bruta, como nos casos da Venezuela e do Irã, mas não conseguiu impor sua autoridade nas situações em que precisaria fazer o inverso, a paz: é o caso da guerra na Ucrânia, que é incrivelmente lucrativa para alguns setores de sua economia, mas danosa em termos sistêmicos, como a inflação americana prova.
O caso do Irã é uma amostra de que o poder americano, em termos convencionais, já tem limites menores do que um presidente americano poderia admitir. É verdade, também, que desde a Segunda Guerra, os americanos jamais estiveram em conflito contra um país industrializado. O Vietnã dos anos 1960-70 não é o mesmo de hoje, tampouco a Coreia, muito menos Iraque ou Afeganistão.
Ainda que não diretamente implicados, os chineses promovem uma retaguarda estratégica nada desprezível no caso do Irã, um país há muito isolado da economia mundial. Com o crescimento da China, se amplia também um espaço alternativo ao mercado mundial gerido pelo Ocidente, o qual obviamente é chefiado pelos Estados Unidos. Além disso, temos armas, insumos e satélites.
Portanto, desde o fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos jamais precisaram impor sua palavra mediante a força às potências médias – as quais simplesmente obedeceram – mas se isso fosse necessário, esperava-se que seu arsenal fosse suficiente para se impor ao adversário. Como vimos, não foi. Em grande medida, o suporte econômico chinês aos iranianos produziu essa diferença.
Por que Trump iria, então, à China, e por que ela o receberia? A questão é simples: porque Trump precisou e porque os chineses quiseram. Em uma situação usual, os dois líderes não se encontrariam ou buscariam uma sede neutra, mas seria Trump a falar em uma posição de força depois de uma vitória bélica – que não aconteceu, e, nesse sentido, ele sequer teve força de cancelar a reunião. Mas Xi precisava falar e ser ouvido.
O desenrolar da tragédia
A resposta de Trump às afirmações de Xi foram tíbias e erráticas: ele mesmo admitiu que entendeu que o presidente chinês disse, “de forma elegante”, que seu país é uma potência ascendente e os Estados Unidos uma força decadente – mas foi além, concordando com a linha vermelha estabelecida, a hegemonia sobre Taiwan, o que foi um recuo considerável do presidente americano.
Há tempos, Washington pratica a insustentável ambiguidade estratégica em relação à divisão de Taiwan e China, segundo a qual se fala em Uma Só China, mas se apoia a província rebelde – inclusive com armas, além de suporte político e econômico, o que nos últimos anos se tornou também apoio às forças secessionistas em Taiwan, porque até então o assunto envolvia a reunificação chinesa em torno do sistema da ilha.
Trump declinou do apoio a Taiwan, o que é uma bomba atômica moral sobre os líderes que a querem transformar em um país independente da China, sob tutela americana – como são, afinal de contas, Coreia do Sul e Japão, as vedetes da banda capitalista do Extremo Oriente. Isso foi sim uma capitulação à estratégia clandestina dos últimos presidentes americanos.
No mais, os contornos da cúpula e seus resultados – com Trump levando uma débil e desunida comitiva de chefões das Big Tech – também marcam um novo tempo nas relações sino-americanas: desde que elas foram iniciadas formalmente na década de 1840, com o Tratado de Wangxia, mais um dos “tratados desiguais” que emergiram da Guerra do Ópio, os americanos sempre estiveram por cima. Até a semana passada.
Os americanos seguem sem ter como reabrir o estreito de Ormuz, nem retomar suas bases que não só sustentam regimes amigos como, ainda, são decisivas para moldar as atuais fronteiras árabes sustentando boa parte dos Estados da região. O pior de tudo é que Trump foi levado à guerra por Israel e seu poder nos interiores da política americana, mas ele não consegue sequer sair de lá sozinho.
A Armadilha de Tucídides tem importância apenas anedótica. Uma guerra entre chineses e americanos seria uma Terceira Guerra Mundial, colocando em risco a existência humana. Uma guerra fria ou morna poria em colapso uma economia que, hoje, funciona somente de forma integrada em âmbito global – ou seja, nada comparável ao que já tenhamos visto em qualquer momento da História.
A cúpula Xi-Trump, pelo menos, colocou as cartas na mesa e iniciou uma discussão vital para a humanidade: como gerir um processo de adequação dos Estados Unidos ao seu tamanho econômico, diplomático e mesmo militar real? Como a comunidade internacional pode se adequar ao gigantismo chinês? O resultado, apesar de efêmero, pelo menos indicou uma direção positiva.
(*) Hugo Albuquerque é jurista e editor da Autonomia Literária.
























