Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Como o jornalista Jamil Chade escreveu recentemente na revista Carta Capital, o governo de Donald Trump não faz mais segredo sobre o que planeja na América Latina: retomar o controle sobre a região, reinstalar a Doutrina Monroe e ampliar a presença militar no hemisfério. A publicação, por Trump, de sua nova Estratégia de Segurança Nacional apenas confirmou o que já se anunciava: os EUA abandonaram qualquer dissimulação e assumiram que pretendem retomar o controle político, econômico e militar sobre toda a América Latina. Não é metáfora ou figura retórica e sim um documento oficial, lançado pelo Conselho de Segurança Nacional e acompanhado do deslocamento de caças e navios de guerra para o Caribe. Suas prioridades são conhecidas, isto é, combate às drogas, à imigração e à presença de potências de fora da região, em particular a China. A América Latina é descrita como “nosso continente”.

Para quem não tem a obrigação de saber, a Doutrina Monroe, formulada em 1823 sob a presidência de James Monroe, estabeleceu que as Américas seriam esfera exclusiva de influência dos EUA. Sob o lema “América para os americanos”, o país reivindicou o direito de impedir a presença de potências externas no hemisfério. Na prática, serviu por mais de um século como justificativa para intervenções, golpes e controle político sobre a América Latina e está diretamente ligada à nossa tradição de intervenções que terminaram por moldar, muitas vezes pela força, os rumos políticos da região. (Nessa tradição não se pode deixar de lembrar o papel das elites políticas e econômicas locais, dispostas a submeter seus interesses aos interesses norte-americanos.)

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. (Foto: Daniel Torok / White House)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
(Foto: Daniel Torok / White House)

Da derrubada de Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, ao golpe contra Salvador Allende no Chile, em 1973, do golpe militar no Brasil (1964) aos golpes no Uruguai (1973) e na Argentina (1976), das invasões na República Dominicana e no Panamá às operações clandestinas na Nicarágua, em Cuba, no Cone Sul e no Caribe, sempre sob o manto da Doutrina Monroe, os EUA trataram nosso continente como área de tutela, justificando golpes, ditaduras e bloqueios econômicos em nome de uma suposta “segurança hemisférica”. O século XX latino-americano foi atravessado por ditaduras civis-militares apoiadas por Washington, que promoveram prisões, torturas, desaparecimentos e destruição de projetos nacionais de desenvolvimento. Hoje, quando Trump retoma explicitamente essa doutrina e utiliza novamente a CIA, as Forças Armadas e o poder econômico para redesenhar a geopolítica da região, não estamos diante de um risco abstrato, mas da tentativa de retorno de uma prática histórica que cobrou um preço alto de nossos povos e que não pode, sob nenhuma circunstância, ser normalizada ou aceita.

É tão explícito que já foi chamado de “Doutrina Donroe”, combinação de Donald e Monroe, que restaura sem pudores a velha pretensão imperial do século XIX sob roupagem contemporânea. Com ela os EUA anunciam que negarão a qualquer potência externa – leia-se China, Rússia e todos os que contrariem seus interesses – a possibilidade de estabelecer presença militar, tecnológica ou econômica no hemisfério. E deixam claro que não tolerarão que governos latino-americanos aumentem tributos sobre suas empresas, especialmente no setor de tecnologia, ou que regulem plataformas digitais ou fortaleçam políticas industriais que possam afetar corporações americanas. Há, portanto, uma nova realidade continental instaurada, ou seja, um programa econômico abertamente colonial, que reivindica o monopólio dos acordos comerciais e a expulsão de concorrentes estrangeiros.

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Essa orientação é acompanhada da utilização da CIA para mapear recursos estratégicos da região. O documento afirma que a agência deve “identificar pontos e recursos estratégicos no Hemisfério Ocidental, com vistas à sua proteção e desenvolvimento conjunto com parceiros regionais”. A história latino-americana nos ensinou, a duras penas, o que significa a CIA operar no continente: intervenções políticas, manipulação de eleições, golpes de Estado, operações encobertas e controle de setores vitais das economias nacionais. Nada disso é novidade. A diferença é que agora está tudo à luz do dia, em documento oficial da Casa Branca.

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No campo político e ideológico, Trump abandona qualquer discurso democrático. A Estratégia não menciona democracia, não invoca direitos humanos nem respeito institucional. Afirma, sem rodeios, que a ideologia dos governos latino-americanos não importa, desde que estejam “alinhados” com os objetivos estratégicos dos EUA. O que se busca não são relações exteriores entre Estados soberanos, mas alinhamentos automáticos. Assim, países como Argentina, El Salvador, Paraguai, Peru, Equador e Guatemala são classificados como aliados por cooperarem com as prioridades americanas, principalmente no controle da migração e combate às drogas, enquanto Cuba, Nicarágua e Venezuela são rotulados como inimigos. O continente volta a ser dividido entre obedientes e desobedientes.

É um sinal amarelo para democratas que têm na soberania nacional um norte e um sinal verde para os vassalos de Trump abrigados na direita e na extrema-direita bolsonarista. Não nos esqueçamos que a família Bolsonaro, com o apoio do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, invocou Trump a intervir no Brasil, traindo nossa democracia e nossa soberania. Os desdobramentos daquela chantagem trumpista inicial, condicionando retirar o tarifaço sobre produtos brasileiros a livrar Bolsonaro do julgamento e da prisão, mostraram que Trump queria transformar o ex-presidente em um instrumento para um projeto muito mais amplo: conter o avanço da China e do BRICS, proteger as grandes empresas de tecnologia norte-americanas, reorganizar o hemisfério sob o comando exclusivo dos EUA e impedir que países latino-americanos estabeleçam alianças estratégicas independentes e barrar, a qualquer custo, iniciativas de regulação das big techs e do mercado digital. O Brasil, com sua economia diversificada, seus recursos naturais únicos, sua influência regional e sua liderança na integração sul-americana, é peça central no tabuleiro. E por isso mesmo um dos alvos preferenciais da nova doutrina imperial, ainda que os olhos militares trumpistas estejam direcionados sobretudo a Nicolás Maduro.

Não há, entretanto, respostas homogêneas na América Latina. Elas variam conforme a orientação política dos governos, seu grau de dependência dos EUA e sua capacidade de diversificar parceiros. O México, por exemplo, diante de sua integração econômica com os norte-americanos, tem pouca margem de manobra, apesar da postura soberana de sua presidente, Claudia Sheinbaum. Já a Argentina de Javier Milei aposta todas as fichas no alinhamento automático com Trump. O Brasil, por sua vez, tem buscado, acertadamente, ampliar sua margem de autonomia por meio do fortalecimento do BRICS, agora expandido com Irã, Argentina, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia, Egito e Indonésia, e de uma política externa baseada no multilateralismo e na integração regional. Essa é a única estratégia capaz de proteger o país da nova Doutrina Monroe. Isolado, o Brasil seria presa fácil. Integrado à América do Sul e ao Sul Global, torna-se ator capaz de negociar, resistir e propor alternativas.

O que está em jogo não é apenas comércio exterior, nem tarifas sobre aço, soja ou carne, mas o projeto de país. É a soberania sobre nossos recursos naturais, sobre o pré-sal, sobre a Amazônia, sobre a regulação digital, sobre a política industrial. É a liberdade de definir nossa inserção no mundo sem tutela, chantagem ou imposições externas. A Doutrina Trump, seja lá como queiramos defini-la, inaugura uma etapa decisiva para o continente. Ou a América Latina encontra caminhos de cooperação, integração e defesa de seus interesses comuns, ou poderá ser novamente submetida à lógica imperial que tanto sofrimento e atraso nos trouxe no século passado. Cabe aos governos progressistas, mas também às forças democráticas, nacionalistas, progressistas e socialistas de todos os campos, entender que não se trata de disputa política, e sim de defesa da nossa soberania.

(*) José Dirceu foi ministro-chefe da Casa Civil no primeiro governo Lula (2003-2005), presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e deputado federal por São Paulo.