Domingo, 28 de junho de 2026
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Desde que a Copa do Mundo começou, tenho assistido a praticamente todos os jogos. É curioso, porque esta é a primeira Copa em que consigo acompanhar tantas partidas. Na edição anterior, os horários não eram muito favoráveis; em outras, eu não trabalhava em casa, não tinha televisão disponível o tempo todo ou dependia exclusivamente dos jogos transmitidos pela Globo.

A Copa fora da televisão aberta

Há aí um ponto fundamental: a democratização do acesso à Copa com as transmissões gratuitas no YouTube. Para quem nunca teve TV por assinatura em casa, isso faz diferença. Durante muitos anos, acompanhar uma Copa do Mundo significava assistir apenas ao que a televisão aberta escolhia transmitir.

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Partida entre Coreia do Sul e República Tcheca em estádio da Guadalajara. <br> (Foto: Erik Cleves Kristensen / Flickr)

Partida entre Coreia do Sul e República Tcheca em estádio da Guadalajara.
(Foto: Erik Cleves Kristensen / Flickr)

Agora, com os jogos disponíveis online, a experiência muda. A Copa deixa de ser apenas um evento dos grandes horários da Globo e passa a ocupar o cotidiano: almoço, tarde, noite, computador aberto, televisão ligada, jogo de um país que eu nunca tinha parado para ver.

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E foi assistindo a essa sequência quase compulsiva de partidas que percebi uma coisa: a cada jogo, eu criava mentalmente uma regra para decidir por quem torcer.

Um guia para torcedores ocasionais

Não sou uma pessoa que acompanha futebol o ano inteiro. Não discuto esquemas táticos, não sei escalar seleções inteiras de cabeça, não conheço mais de três jogadores de cada equipe e não tenho repertório suficiente para decidir minha torcida com base em qualidade técnica, histórico de desempenho, desenho de meio-campo ou fase do atacante. Quem acompanha futebol regularmente tem outros critérios – e tudo bem. Este guia não é para essas pessoas.

Este é um guia para torcedores ocasionais como eu: gente que gosta da Copa, se empolga com a rua, com a festa, com o hino, com o drama, com o gol improvável. Quero apenas oferecer critérios para decidir por quem torcer quando entram em campo dois países com os quais não temos nenhuma relação afetiva imediata. Porque, cara leitora, caro leitor, cada um torce por quem quiser, com o argumento que quiser – ou mesmo sem argumento nenhum.

Como gosto de pensar nesse tipo de coisa, criei um sistema geopolítico anti-imperialista para orientar a torcida na Copa. O primeiro critério é simples: antes de decidir para quem torcer, é preciso decidir para quem não torcer de jeito nenhum.

O ranking dos imperialistas malditos

Há países cuja camisa carrega uma história pesada demais para passar batida. Não estou falando dos jogadores individualmente, nem dos torcedores comuns, nem de crianças com o rosto pintado com as cores da bandeira. Estou falando da seleção como símbolo nacional. E, como símbolo nacional, algumas camisas vêm acompanhadas de séculos de colonialismo, escravização, genocídio, invasões, pilhagem, tutela econômica e arrogância imperial.

Por isso, a primeira parte do guia é o ranking dos imperialistas malditos.

O critério desse ranking não é uma contabilidade fria de vítimas nem uma régua para medir sofrimentos históricos. A ordem combina quatro fatores: a permanência da violência imperial no presente, a escala geográfica da destruição, a brutalidade específica de certos crimes coloniais ou fascistas e a capacidade de cada país de limpar sua imagem apesar do horror produzido.

Por isso, os Estados Unidos aparecem no topo: são o império ainda em atividade. A Bélgica vem logo depois pela monstruosidade concentrada do Congo. Alemanha, Inglaterra e Japão aparecem pelo peso do genocídio colonial, do fascismo, da guerra moderna e dos impérios militares do século 20. França, Portugal, Espanha, Suíça e Holanda completam o ranking entre colonialismos clássicos, neocolonialismo, pilhagem atlântica e cumplicidade financeira com o capitalismo imperial.

E se houver um cruzamento entre dois países que estão no ranking da torcida contra? Aí usamos o critério do próprio ranking: quem é o imperialista mais maldito? Torcemos contra ele. Se for Inglaterra contra Bélgica, por exemplo, a Bélgica consegue a proeza de nos fazer torcer pela Inglaterra por 90 minutos – com enjoo, mas com método.

Contra quem torcer na Copa. (Imagem: Vanessa Martina-Silva / Opera Mundi)

Contra quem torcer na Copa. (Imagem: Vanessa Martina-Silva / Opera Mundi)

A torcida como memória de luta

Depois do “para quem não torcer”, vem a parte mais bonita: para quem torcer.

A regra geral é favorecer o Sul Global, os povos colonizados, as seleções de países que enfrentaram impérios, as revoluções interrompidas, os anti-imperialistas históricos, os povos negros, indígenas, árabes, africanos, caribenhos e latino-americanos e todos os países que, de algum modo, carregam na camisa mais do que futebol: carregam memória de luta.

No topo do ranking estão Haiti e Argélia.

O Haiti é a revolução que o Ocidente nunca perdoou. O povo que venceu senhores de escravos, o império francês e o medo colonial do mundo atlântico. Torcer pelo Haiti não é torcer pelo azarão. É torcer pela primeira revolução negra vitoriosa da história moderna. É torcer contra séculos de punição imperial.

A Argélia vem logo depois. Não apenas porque seu Estado se posiciona de forma firme em temas como a Palestina, mas porque a memória popular argelina é profundamente anticolonial. É o povo que enfrentou colonização de povoamento, massacre, tortura, humilhação racial e uma guerra até expulsar a França. A Argélia é a camisa da guerra anticolonial.

Logo em seguida aparece o Irã, por tudo o que representa no enfrentamento direto ao imperialismo estadunidense e ao sionismo israelense. Em uma região organizada há décadas por bases militares, sanções, assassinatos seletivos, ocupações e guerras patrocinadas por Washington, o Irã se consolidou como uma das principais forças de contenção ao eixo EUA-Israel e como ator decisivo na disputa por uma ordem multipolar.

Os latino-americanos vêm na sequência das prioridades porque são nuestros hermanos. Nesse caso, a regra geral é torcer por eles – ainda que com gradações, porque nem toda camisa latino-americana carrega o mesmo grau de diversidade, combatividade popular ou simpatia regional.

Para quem torcer na Copa. Para quem torcer na Copa: queridos e quase-queridos.(Imagem: Vanessa Martina-Silva / Opera Mundi)

Para quem torcer na Copa. Para quem torcer na Copa: campeões do Sul Global.(Imagem: Vanessa Martina-Silva / Opera Mundi)

Os queridos e quase queridos

O esquema seria frágil se tivéssemos apenas os países amados, por quem devemos torcer, e aqueles por quem devemos torcer contra. Por isso, há uma terceira tabela. São os “queridos e quase queridos”: seleções que carregam alguma razão política, histórica ou popular para merecer torcida.

Alguns entram pela memória revolucionária e anticolonial, como República Democrática do Congo (RDC), Gana e Cabo Verde. Outros, pela tradição antifascista, como Bósnia, Tchéquia e Uzbequistão. Há também os que aparecem como feridas abertas do imperialismo contemporâneo, caso do Iraque, ou como expressões de futebol popular, torcida de rua e identidade periférica, como Senegal, Jordânia, Costa do Marfim e Escócia.

No fim da lista estão os controversos: Uruguai, Argentina, África do Sul e Croácia, países com elementos admiráveis, mas atravessados por racismo, revisionismo, xenofobia ou contradições nacionais que impedem uma torcida sem ressalvas.

Para quem torcer na Copa: queridos e quase-queridos.(Imagem: Vanessa Martina-Silva / Opera Mundi)

Para quem torcer na Copa: queridos e quase-queridos.(Imagem: Vanessa Martina-Silva / Opera Mundi)

Este guia é apenas um lembrete de que a Copa do Mundo também é geopolítica, memória, colonialismo, raça, classe, império, periferia e desejo de revanche simbólica.

Como cruzar as tabelas

Para usar o guia, basta cruzar as listas. Se um país da tabela dos queridinhos enfrenta um país da tabela dos imperialistas malditos, a escolha é automática: Bélgica x Irã é Irã; França x Iraque é Iraque; Inglaterra x Gana é Gana; Portugal x Colômbia é Colômbia; Alemanha x Costa do Marfim é Costa do Marfim; Espanha x Uruguai é Uruguai, com ressalvas.

Quando dois queridinhos se enfrentam, o desempate segue a régua política: anti-imperialismo raiz, Sul Global, América Latina, memória revolucionária, antifascismo e torcida popular. Por isso, Jordânia x Argélia é Argélia; Senegal x Iraque é difícil, mas pende para Iraque pela ferida imperial aberta; Colômbia x RDC é quase impossível, mas dá RDC se o critério for soberania africana assassinada.

Quando dois países problemáticos se enfrentam, vale torcer contra o pior. Noruega x França é Noruega; Nova Zelândia x Bélgica é Nova Zelândia; Japão x Suécia é Suécia, só porque o Japão pesa mais no ranking imperial.

Obviamente, não há manual definitivo de nada nesta vida. Este guia pode ser útil para decidir a torcida em algumas partidas. Em outros jogos, porém, a política vai perder para a licença afetiva. Pode ser o ranço falando mais alto, a arquibancada, a história de um jogador, uma camisa ou um gol improvável. Mas, acima de tudo, vale secar qualquer adversário se isso ajudar a trazer o hexa para casa.