Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Acho necessário tocar nesse assunto, ainda que para alguns possa parecer redundante. Há um equívoco perigoso disfarçado de “realismo” e pragmatismo: achar que geopolítica e luta política se resumem a ogiva nuclear e PIB, e que o resto é perfumaria.

Isso está longe do pragmatismo. É ingenuidade misturada com prepotência, na maioria das vezes de forma grosseira.

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O presidente dos EUA, Donald Trump, durante coletiva de imprensa após ataque contra a Venezuela e sequestro de presidente Nicolás Maduro. (Foto: Molly Riley / White House)

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante coletiva de imprensa após ataque contra a Venezuela e sequestro de presidente Nicolás Maduro.
(Foto: Molly Riley / White House)

Há décadas, as guerras, as invasões e intervenções não começam com soldados na fronteira. Começam com a colonização do debate. Sejamos objetivos. O caso da Venezuela, por exemplo: antes de qualquer sanção nova ou ameaça militar, veio a batalha das palavras. O rótulo de “ditador” repetido, a suspeição da eleição fabricada, o “consenso” imposto de fora para dentro.

Nenhuma intervenção começa com botas no chão. Ela se inicia preparando o terreno simbólico. Esse processo tem vários nomes – soft power é o mais consagrado.

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A história recente é didática e cruel. Foi a mentira das “armas de destruição em massa” (que nunca existiram) que legitimou o massacre de um milhão de iraquianos. Foi a narrativa cínica da “proteção humanitária” que autorizou a OTAN a bombardear a Líbia e transformá-la num mercado de escravos a céu aberto. Foi a retórica da “liberdade” que serviu de combustível para incendiar o Afeganistão. Em todos esses casos, a manchete de jornal chegou antes do míssil.

Quando parte da esquerda adota o vocabulário do Departamento de Estado (comprando o discurso do “narco-ditador”) ou ignora o soft power (o “realista” que o despreza), achando que está sendo “adulta”, ela não está sendo democrática ou dura. Está apenas validando a justificativa moral para o estrangulamento econômico que vem a seguir. Está pavimentando a estrada por onde, depois, passarão os tanques.

Não é mera questão de defender governo A ou B por paixão. Se trata de cálculo e batalha de ideias: a força bruta dos EUA existe, sim, mas ela só entra em campo quando a opinião pública já foi anestesiada pela narrativa dominante, viral e hegemônica.

Quem quer ignorar a guerra da informação achando que é “realista”, na verdade, só terceirizou a própria cabeça. E o pior: está trabalhando para o inimigo de graça.

Soberania não se defende apenas guardando fronteiras, se defende rejeitando a visão de mundo do colonizador. Seja por ingenuidade ou por arrogância, alinhar-se automaticamente à narrativa do império anula qualquer pretensão de autonomia. Se a sua “análise realista” coincide em tudo com o desejo de Washington, sinto informar: você não está sendo pragmático. Você vive sob ocupação mental e nem percebeu.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.