Terça-feira, 3 de março de 2026
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A Venezuela, sob ameaça após os ataques de 3 de janeiro, e em perspectiva ao lado do reflexo histórico que é o Irã, nos permite estudar os modelos do nacionalismo petrolífero clássico e da resistência pragmática. Mas, além da economia, alguns analistas apresentaram a teoria de que o petróleo venezuelano e iraniano não é apenas um negócio, mas munição vital no cenário de guerra proposto pelos Estados Unidos.

A reforma de 2026: privatização ou tábua de salvação tática?

Para entender a atual reforma, devemos olhar para os números vermelhos. Em 2014, a Venezuela tinha receitas anuais de petróleo de quase 40 bilhões de dólares. Após as sanções dos EUA e o bloqueio financeiro, esse número caiu para apenas 740 milhões de dólares em 2020. O Estado, proprietário do recurso, ficou sem capacidade para extraí-lo e sem bancos para receber o pagamento.

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A Venezuela, sob ameaça após os ataques de 3 de janeiro, e em perspectiva ao lado do reflexo histórico que é o Irã, nos permite estudar os modelos do nacionalismo petrolífero clássico e da resistência pragmática. <br> (Foto; Jan-Rune Smenes Reite / Pexels)

A Venezuela, sob ameaça após os ataques de 3 de janeiro, e em perspectiva ao lado do reflexo histórico que é o Irã, nos permite estudar os modelos do nacionalismo petrolífero clássico e da resistência pragmática.
(Foto; Jan-Rune Smenes Reite / Pexels)

A resposta foi a Lei Anti-Bloqueio de 2020, que deu origem aos Contratos de Participação Petrolífera (CPP). De acordo com as contribuições da recente reunião de alto nível, os CPPs não são concessões tradicionais. São contratos de serviços em que o setor privado investe e opera, cobrando seu investimento diretamente através da produção física (barris), eliminando a transação financeira que os EUA poderiam bloquear.

O governo defende o sucesso do modelo: as receitas em cinco anos aumentaram para um recorde de 14 bilhões de dólares em 2025, o que, embora longe das receitas históricas, foi consideravelmente superior aos 740 milhões de dólares no pior momento de 2019. A reforma agora busca dar status legal a esse mecanismo, retirando-o do âmbito da excepcionalidade, que muitas vezes colocava o Estado venezuelano em desvantagem. Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, resume isso como uma “flexibilização das tarifas”, na qual o setor privado fornece o capital e o Estado mantém a soberania sobre o campo petrolífero. Enquanto Caracas discute a nova base jurídica para se adaptar às novas condições das relações energéticas com os EUA, Donald Trump enviou uma mensagem de Washington no dia 23 de janeiro confirmando a mudança de postura do presidente dos EUA sobre a geopolítica do petróleo: “A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo… maiores que as da Arábia Saudita”, sugerindo que os EUA poderiam ganhar “muito dinheiro” com essa relação pragmática.

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O choque de visões e as críticas internas

A reforma gerou algumas críticas. O ex-ministro do Petróleo Rafael Ramírez, que enfrenta acusações de corrupção na Venezuela, descreveu a medida em 27 de janeiro como uma “revogação da nacionalização de 1976”. Para aqueles que historicamente defenderam o nacionalismo petrolífero, os CPPs, no âmbito da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, entregam o controle operacional (que consideram ser o valor real) às empresas transnacionais.

O governo rebate com “pragmatismo de guerra”: o modelo de 2006 (com 90% da receita indo para o Estado) era ideal em tempos de paz, mas inviável sob cerco. O novo esquema garante entre 65% e 70% da receita e, mais importante, mantém a indústria viva. Isso representa uma retirada forçada devido às circunstâncias, a fim de evitar o sufocamento total.

A Nova Guerra Fria: o fator China

É aqui que a dimensão global entra em jogo. Por que Donald Trump e Washington agora mostram tolerância tácita a esse modelo venezuelano (como visto pelas licenças concedidas à Chevron), mantendo sua retórica dura? A resposta pode estar no objetivo de conter a China.

Várias análises, incluindo as de conservadores como Tucker Carlson, apresentaram uma tese que ressoa na mídia e nos think tanks geopolíticos: os Estados Unidos estão se preparando para um conflito cinético ou comercial em grande escala com a China. Nesse cenário, o controle das reservas de petróleo venezuelanas deixa de ser uma questão de mercado e se torna uma questão de pura segurança nacional.

Carlson adverte que o governo Trump considera inaceitável que as maiores reservas do mundo (Venezuela) e uma das chaves do Golfo Pérsico (Irã) estejam abastecendo a China. “O petróleo está indo para a China… deveria estar vindo para nós”, é a interpretação subjacente à nova doutrina de Washington.

Dessa perspectiva:

Cortar recursos ao inimigo: o objetivo não é mais apenas “mudar o regime” em Caracas por razões “democráticas”, mas desvincular a Venezuela da China. Se os CPPs e as licenças permitirem que o petróleo venezuelano flua para o Golfo do México (EUA) em vez de Xangai, Washington ganha uma batalha estratégica sem disparar um tiro.

O caso iraniano: com o Irã, a situação é mais volátil. Carlson sugere que a hostilidade em relação a Teerã visa cortar a principal artéria de energia segura da China no Oriente Médio. Controlar ou neutralizar o petróleo iraniano deixa a maquinaria industrial e militar da China vulnerável a um bloqueio naval. E, ao mesmo tempo, controlar as rotas de abastecimento.

Essa “Nova Guerra Fria” explica o paradoxo atual: os EUA, ao mesmo tempo em que transformam o Caribe em uma grande base militar, estão permitindo que a Venezuela respire economicamente (por meio da Chevron e, no futuro, da participação de outras grandes empresas americanas), porque preferem uma Venezuela pragmática que venda para o Norte, em vez de uma Venezuela não alinhada que seja um fornecedor seguro de energia para a China e, financeiramente, contribua para colocar o prego no caixão do dólar como moeda global.

O espelho histórico: Irã e Venezuela (O “Petroleumscape”)

Essa dinâmica não é nova. A Venezuela e o Irã compartilham uma “paisagem petrolífera” histórica. Ambos sofreram golpes orquestrados pelo Ocidente quando tentaram nacionalizar seus recursos (1948 e 1953). Ambos fundaram a OPEP em 1960 para se defenderem.

Nos últimos anos, a aliança Caracas-Teerã tem sido existencial. O Irã ensinou a Venezuela como lidar com sanções (frotas secretas, reparos em refinarias, entre outros). Agora, ambos os países se encontram no centro da disputa entre os EUA e a China. A reforma legal na Venezuela é, em sua essência, uma manobra para sobreviver neste tabuleiro de xadrez: garantir seu próprio fluxo de caixa para aliviar a ameaça dos EUA, mesmo que a gravidade geopolítica inevitavelmente pressione Washington a exercer maior pressão sobre ambos os países.

Essa história vem se repetindo há mais de 100 anos

A reforma parcial da Lei de Hidrocarbonetos é muito mais do que um ajuste técnico; é um ato de sobrevivência às vésperas de um grande conflito global. A Venezuela está sacrificando parte de sua receita e controle operacional (o que já fazia por meio do CPP com a Lei Anti-Bloqueio) para se reinserir no mercado ocidental e tentar contornar o bloqueio.

Em última análise, na guerra pela hegemonia global travada por Washington, que vê Pequim como seu principal concorrente, o petróleo venezuelano e iraniano são os troféus estratégicos definitivos. A Venezuela e sua história centenária do petróleo, como começamos a estudar, é um dos campos de batalha.