Venezuela ensina que o imperialismo não morreu - e implica em violência
Em tempos de debate sobre imperialismo, o cerco naval americano contra a Venezuela ensina como o militarismo e a violência são características incontornáveis do fenômeno
Donald Trump resolveu reeditar a Doutrina Monroe em mais um gesto de falastronice. Ao seu modo, ele agora aposta em reeditar a figura de Ted Roosevelt, depois de acenar com o protecionista William McKinley no seu discurso de posse – e na sua política, hoje bastante impopular e ineficaz de tarifaço. Como dizíamos, a Venezuela é uma mistura de rapina, cortina de fumaça para os problemas internos com uma tensão contra a Rússia.
Em tempos em que uma certa marxologia metafísica vê imperialismo em toda parte, inclusive na resistência ao dito cujo, o caricatural cerco naval à Venezuela – com direito ao bombardeio de barcos de pesca e assassinatos que são, a bem da verdade, crimes de guerra além de violação óbvia do direito internacional – ensina que imperialismo é sobre guerra e demanda violência e coerção.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante discurso na Academia Militar dos EUA, em West Point, Nova Iorque.
(Foto: Daniek Torok / White House)
Não houvesse o elemento militarista, num contexto de trocas desiguais que conduzem à existência entre países exploradores e explorados, não haveria que se falar em imperialismo. Assim, temos um mundo unipolar, hegemonizado pelos Estados Unidos pela força de economia, mas pela garantia de suas armas, que está em xeque e, por conseguinte, resolveu lutar para manter sua posição contra aquilo que lhe desafia.
Durante anos silenciando sobre os efeitos das sanções econômicas contra a Venezuela, a maior causa da miséria e do fluxo de milhões de refugiados saindo de lá nos últimos anos, hoje, partes caudalosas da esquerda brasileira precisam calibrar o discurso na antessala de uma agressão militar contra o país latino-americano. Isso consiste em um problema imenso para o Brasil, além de um risco assustador para o continente.
O que é imperialismo?
Pelo menos desde a dinastia dos aquemênidas, sob a liderança de Ciro, o Grande, ainda no século VI a. C., a humanidade conheceu o que é um império propriamente dito – e não as ligas de cidades e suas propriedades rurais e extrativistas. A partir dali, o reino da Pérsia dominou os demais reinos iranianos, unificando-os, para depois conquistar vastidões que iam do oeste do subcontinente indiano ao mundo helênico.
Mas é apenas sob o capitalismo que os impérios podem e precisam se projetar para obter novos recursos naturais e humanos, além de mercados. Aí, podemos falar sobre imperialismo, sobretudo a partir dos anos 1880, com o consórcio de impérios capitalistas sentando-se à mesa para partilhar o resto do mundo. Foi o revolucionário russo Vladimir Lênin, em seu Imperialismo: fase superior do capitalismo, que deu a grande contribuição sobre o tema.
Mas apesar da base econômica, é impossível falar em “imperialismo” sem discutir sua forma superestrutural – o que implica no aspecto extraeconômico que é de ordem militar. O próprio Lênin escreve sobre isso no contexto da Primeira Guerra Mundial, a qual foi antevista por Friedrich Engels décadas antes. Impossível falar de imperialismo sem falar da questão militar e do militarismo.
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A característica principal das trocas desiguais que caracterizam o fenômeno imperialista, por sua natureza, demandam coerção militar do explorador sobre o explorado – sem a qual não é possível perpetuar o sistema. Imperialismo não é apenas sobre “exportação de capitais”, mas uma determinada forma dessas trocas, garantida pela força das armas – senão posta, pressuposta nas infinitas “cúpulas diplomáticas”.
Convenientemente, partes das esquerdas globais, ainda remanescentes, insistem em apagar o elemento militar para discutir o imperialismo sob uma ótica economicista – ou, por conveniência, consideram apenas o elemento militar. Dessa forma desconjuntada, Rússia e China se tornam “imperialistas”, na melhor das hipóteses, iguais aos Estados Unidos, quando a questão é totalmente outra – e a Venezuela é uma prova viva disso.
O elemento militar como características central
“Extra-econômico”, como diria Lênin, o elemento militar é a garantia e, ao mesmo tempo, um certo elemento indeterminado que pode mudar o curso dos efeitos econômicos – é evidente que sem uma economia forte, é impossível se ter forças armadas adequadas, mas capacidade de organização política e apuro estratégico podem compensar desníveis econômicos e mudar os rumos da História.
Foi dentro de um contexto de profunda assimetria material, mas compensada por profunda organização política, social e militar que o presidente Mao tirou a China do fundo do poço. O empate estratégico na Coreia, que perdura até hoje, mais de 70 anos após o início do conflito, ensinou ao mudo que uma Nova China havia nascido. Só isso pôde permitir e garantir o desenvolvimento material das décadas seguintes.
O caso venezuelano certamente é muito clássico em termos imperialistas: um país economicamente asfixiado que agora se vê vítima de um cerco naval, sob ameaças de bombardeio e invasão. Produtora de petróleo, ninguém acusará Caracas de ser uma terrível “exportadora de capitais”, mas aí surge o elemento “democrático” e os questionamentos contra uma liderança política que navegou nos últimos anos em mar bravio.
Trump pode se dar ao luxo de usar uma ameaça dessas não apenas pelo seu poderio econômico, ou a natureza de sua relação econômica com a Venezuela, mas porque possui um aparato militar pesadíssimo – inclusive para sua base econômica nada desprezível. Hoje, viveremos a hora da verdade, e em termos bélicos, sabemos como as coisas podem começar, mas nunca como vão terminar.
Depois de anos de cerco econômico, o maior temor dos críticos do cerco naval de Trump é que a missão possa transformar a Venezuela numa “nova Líbia” – um exemplo cruelmente irônico de Hillary Clinton, levando em consideração que ela foi a maior responsável pela destruição do país africano, até ali, em 2011, o mais desenvolvido do seu continente. Mas se superestima os riscos da invasão e, pior ainda, da ocupação.
Horizontes complexos
Não se considera a possibilidade de uma guerra assimétrica venezuelana funcionar, transformando a ocupação num inferno – o que poderia desgraçar o governo Trump, com risco de desmoralização total. O presidente americano, contudo, hesita no que fazer, porque estava certo que só bastaria o cerco naval para forçar a uma renúncia de Maduro. Então, é preciso avaliar porque esse blefe não foi suficiente.
A Venezuela foi um exemplo bem-sucedido de cerco econômico, muito embora esse tipo de prática tenha se mostrado falida quando aplicada a países grandes como a Rússia. O mercado global simplesmente se adapta nesses casos. O problema é como russos e chineses, chutados por ocidentais do sistema global, podem ou querem defender seus aliados mundo adentro; essa é uma questão.
O vaticínio de Henry Kissinger para o presidente americano Richard Nixon sobre o risco de ser amigo dos Estados Unidos – não era uma análise factual, mas uma advertência, ao contrário da forma como isso ficou para a posteridade – poderia servir para o presidente russo Vladimir Putin e Caracas – e isso não seria bom para Moscou, muito embora a situação da Ucrânia possa levar a um “empate” mórbido, a depender do que ocorra.
A crítica de não proteger os seus é uma crítica válida ao Brics, mas apontar essa integração entre os periféricos como expressão de um neo-imperialismo é, certamente, uma narrativa falsificadora que varia entre um desvio teoricista ao colaboracionismo com os podres poderes ocidentais – encabeçados por um presidente americano que mesmo americanistas exaltados têm dificuldades em defender.
Essa tragédia é uma lição importante para aqueles que supõem que o mundo virou o capítulo dos anos 1880, mesmo com duas guerras mundiais, a guerra fria e a globalização no período. O central ainda é feito da mesma forma, ainda que com arranjos diferentes. O fortalecimento militar estará na ordem do dia de qualquer país que deseje se fortalecer, sobretudo se ele é maior que uma ilha ou uma cidade-Estado.
(*) Hugo Albuquerque é jurista e editor da Autonomia Literária.























