Venezuela: situações desesperadoras pedem medidas mais que esperadas
Entre petróleo, petrodólar e Big Tech, a intervenção dos EUA inaugura 2026 com um novo ciclo do imperialismo global
Feito pedra cantada, o ataque dos EUA à Venezuela, que levou ao sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, arrastados do quarto onde estavam por tropas americanas, já contabiliza ao menos 40 mortes e abre, no começo de 2026, um novo ciclo do imperialismo na América Latina e no mundo. A soberania nacional abstrata de Estados latino-americanos sempre foi um mito sustentado pela ingenuidade (ou cinismo) liberal, que por algum tempo fez questão de tentar excluir o próprio termo “imperialismo” do debate, mesmo em seus eixos “progressistas”. Para entendermos esse novo ciclo, precisamos compreender qual o papel estratégico que a Venezuela e seu petróleo, mas não apenas ele, cumprem para a manutenção da hegemonia estadunidense em crise.
Mas antes, façamos uma breve linha do tempo que precede o fato: entre agosto e setembro do ano passado, os EUA já posicionava um contingente militar de aproximação à costa venezuelana que condizia com uma força de invasão militar. Um mês depois, enquanto ainda escalava o cerco militar contra o país, a líder da oposição à Maduro ganhou, em outubro, o Nobel da Paz – em um evidente gesto simbólico de apoio à oposição entreguista alinhada aos interesses imperiais; vale lembrar que ela dedica o prêmio a ninguém menos que Donald Trump. No mês seguinte, o maior porta-aviões do mundo se aproximou da costa de Caracas, aumentando as tensões militares.

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento da Marinha e do Exército americanos no M&T Stadium.
(Foto: Daniel Torok / White House)
Também no mês de novembro, a então ganhadora do prêmio Nobel da Paz, Maria Corina Machado, fez um discurso no Fórum Americano de Negócios em Miami, onde dizia com um largo sorriso e notório tom de certeza antecipada: “nós iremos abrir a Venezuela para investimentos estrangeiros, estou falando sobre uma oportunidade de 1.7 trilhões de dólares, não somente com petróleo e gás, mas também na mineração, ouro, infraestrutura, potencial energético, certamente para tecnologia e IA” – exclamou, empolgada. Seu discurso garantia o Estado de Direito, a abertura dos mercados, segurança de investimentos e um “programa massivo de privatização transparente que estará esperando por vocês!” Essa é sua agenda, um projeto que desde o começo dos anos 2000 já se esboçava em tentativas de aliança com os EUA.
Seu posicionamento ideológico por vezes “eclético” torna possível defende-la pela retórica do cinismo liberal, especialmente quando manifestou-se contra a criminalização do aborto em casos de estupro ou à favor do casamento igualitário – posições que parecem ser de quem assume uma posição razoável, nada radical. Todavia, mais recentemente Machado migrou de uma posição neoliberal para estabelecer vínculos com a extrema-direita global, seja aproximando-se do projeto ibero-americano Iberosfera, do partido espanhol Vox, além de posteriormente participar como convidada, junto de Javier Milei, da cúpula dos Patriots for Europe (PfE), realizada em Madrid.
Enquanto a extrema-direita não se preocupa em medir palavras ao anunciar seu projeto político, defendendo os valores europeus, cristãos e conservadores contra imigrantes e pela defesa de sua identidade nacional, no assim chamado “campo progressista” a linguagem teve um destino político diferente, e o léxico “à esquerda” – sendo generoso – do espectro ideológico revela um impasse central em nossa condição, especialmente na medida em que a crítica da economia política fora abandonada. Retomando-a, podemos situar de outra forma tal impasse. É preciso, contudo, que remontemos o sentido da disputa pelo petróleo – commodity fundamental não apenas para a economia capitalista, mas para a manutenção da hegemonia global do dólar americano.
Do fim de Bretton-Woods ao Petrodólar
No rastro das guerras do século XX e com o privilégio econômico estratégico gerado pela hegemonia global do dólar após a Segunda Guerra – com a fundação de instituições como o FMI e o acordo Bretton-Woods, lastreando o dólar no ouro e todas as outras moedas no próprio dólar americano –, os EUA verteram-se em proprietários do dinheiro-mundial, portadores e emissores da moeda utilizada por todas as economias globais em transações internacionais. Enquanto emissor da moeda global, os EUA podiam financiar seus déficits comerciais e militares simplesmente emitindo dólares, transferindo os custos do ajuste econômico para outros países e gerando, posteriormente, também uma crise de endividamento especialmente nos países periféricos.
Desde a década de 1970, entretanto – especialmente com a doutrina de Nixon dando fim ao acordo de Bretton-Woods –, movimentos tectónicos já anunciavam mudanças futuras no relevo político-ideológico das disputa travadas entre diferentes eixos, e as condições para o neoliberalismo se generalizar como doutrina de governamentalidade total, tendo o modelo empresarial como fundamento para todas as esferas, do Estado à subjetividade, se formavam. Com o fim do lastreamento por ouro, o imperialismo norte-americano precisou manter a hegemonia de sua moeda “lastreando-a” de outra forma. Começava a nascer assim o lastro bélico do petróleo assegurado pelo intervencionismo generalizado.
Um marco central nesse processo define também a mudança radical nas relações entre EUA e Israel que transforma-se, de um apoio estratégico, em uma simbiose imprescindível a ambos: a Guerra do Yom Kippur (ou Guerra Árabe-Israelense de 1973, Guerra de Outubro, Guerra do Ramadã ou ainda Quarta guerra Árabe-Israelense). O conflito foi iniciado por Egito e Síria em 6 de outubro de 1973, coincidindo com a data sagrada judaica do Dia do Perdão. Seus objetivos eram claramente revanchistas e reivindicatórios: recuperar os territórios perdidos para Israel na Guerra dos Seis Dias de 1967 – o Sinai e as Colinas de Golã. Apesar do êxito inicial do ataque surpresa, que infligiu graves perdas a Israel e abalou sua aura de invencibilidade, a guerra terminou, após três semanas, em um cessar-fogo que abriu caminho para negociações.
Um dos fatores centrais que impediu a derrota israelense foi o apoio militar via ponte aérea armamentista massiva feito pelos EUA, que estabeleceu tanto uma “dívida” militar quanto uma dependência estratégica, em uma região de grande interesse estadunidense para a manutenção de sua hegemonia econômica quanto para disputas políticas durante a Guerra Fria (como ocorreu com o Egito, que era, antes da influência americana em Israel, um aliado soviético). Resumindo, a guerra de Yom Kippur não foi apenas um conflito regional, foi antes um evento catalisador que reconfigurou a aliança EUA-Israel em uma simbiose inescapável para a manutenção da hegemonia econômica americana. Através desta aliança, os EUA externalizam parte dos custos e riscos do controle de uma região vital, utilizando Israel como um instrumento de projeção de poder e, posteriormente, estabilização econômica.
Entre 1971 e 1973 o dólar vivia uma crise de desvalorização, vendo a moeda de países rivais se valorizarem após o fim de Bretton-Woods. Soma-se a isso o que se seguiu após o apoio militar dos EUA a Israel em 1973, quando a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) impõe um embargo aos estadunidenses como retaliação a essa interferência, quadruplicando o preço do barril e gerando a primeira grande crise do petróleo. Foi em 1974 que, então, surgiu o acordo fundamental para o desenrolar dos eventos históricos seguintes: com uma troca por apoio militar dos EUA, a Arábia Saudita – segunda maior reserva de petróleo do mundo – passava a exigir de seus compradores “que suas exportações de petróleo fossem pagas em dólares norte-americanos, ao mesmo tempo que investia as receitas em papéis do tesouro norte-americano.”
Com outros países da OPEP gradativamente aderindo ao acordo, o dólar encontrou outro “lastro” não oficial pós Bretton-Woods, mantendo-se como dinheiro-mundial junto a todos os extremos privilégios que se seguem dessa posição. Entretanto, a arquitetura que possibilita esse lastro não é mais tão simples e irá demandar um tipo de policiamento militar do globo para sua manutenção – como visto, por exemplo, na Guerra do Golfo –, o que se desdobrará posteriormente na estratégia retórica político-militar de guerra às drogas e guerra ao terror, que sempre estiveram intimamente entrelaçadas e fundem-se agora na máxima do narco-terrorismo.
Da nova hegemonia à nova crise da hegemonia
Com o fim da URSS e a queda do Muro de Berlim, marca-se em definitivo as especificidades do novo horizonte ideológico e político global. E, se desde 1970 as revoluções microeletrônicas começavam a organizar uma nova infraestrutura do mercado, dos anos 1990 em diante veremos os resultados desses avanços tecnológicos integrando cada vez mais diversas esferas sociais em todos os lugares do globo. A Guerra do Golfo também é um marco nesse sentido, sendo a primeira guerra televisionada em tempo real, com imagens de satélites e dados constantemente atualizados, integrando-a como espetáculo midiático. Também foi a primeira guerra onde introduziu-se recursos digitais como bombas inteligentes, sistemas de comando e controle computadorizados integrando tropas terrestres, aéreas e navais, além dos aviões stealth, clássicos high-tech como o F-117 Nighthawk.
Essa cobertura midiática foi central para reafirmar a inevitabilidade dos EUA como portador do controle na região, mas também enquanto polícia mundial. Todo esse espetáculo servia para externalizar a força militar estadunidense como garantidora da hegemonia do petrodólar, e essa será a tonalidade frequente de todas as intervenções militares imperialistas no Oriente Médio.
Desde a Guerra do Golfo o horizonte “pós-ideológico” se estabeleceu, e para alguns a história havia chegado ao seu fim. Grande vitória para o neoliberalismo que vertia-se, como a globalização realmente existente, num movimento imparável da história que confundia-se com a própria inevitabilidade da natureza, ilustrada pelo avanço tecnológico que parecia dar a estética do novo milênio. Até chegarmos ao 11 de setembro. Não precisamos percorrer todos os processos desencadeados pelo evento, mas precisamos pontuar o óbvio: a dinâmica de intervenção dos EUA no Oriente Médio tornou-se ainda mais ostensiva – e legitimada – após o atentado, sendo agora enquadrada pela retórica da guerra ao terror encampada por J. W. Bush.
Não demoraria muito para que o governo Bush articulasse a guerra ao terror com a guerra às drogas, estabelecendo uma relação entre o financiamento do terrorismo pelo narcotráfico. É essa a retórica utilizada hoje pelo intervencionismo estadunidense e pela extrema-direita internacional, que já instrumentaliza o termo “narco-terrorismo” em diversos países – como já podemos ver no Brasil, com a tentativa de enquadrar facções como o PCC ou o Comando Vermelho nesses termos. Esse uso crescente não é em vão, e é essa retórica que está sendo mobilizada por Trump para justificar sua intervenção na Venezuela, um uso cada vez mais cínico que, simultaneamente, reconhece de modo explícito a utilidade econômica da rapinagem estadunidense.
Mas apesar do óbvio e explícito interesse na maior reserva de petróleo do mundo, a escalada imperialista sobre a Venezuela e em direção à América Latina neste momento vem com alguns contextos que precisam ser reafirmados. Primeiro, há o evidente interesse não simplesmente nas imensas reservas de petróleo, mas no seu papel para a manutenção da hegemonia do dólar – especialmente após a Arábia Saudita, primeira parceira comercial a consolidar a arquitetura do petrodólar, ter anunciado já em 2024 que não iria renovar os acordos –, uma vez que o fortalecimento da China com parceiros comerciais, especialmente pelo BRICS, já desenham projetos de desdolarização das próprias transações comerciais – algo que não só ameaça enfraquecer a hegemonia econômica do dólar, mas também o poder político de impor sanções. As tarifas impostas pelos EUA ao Brasil em agosto, que tiveram como justificativa retórica a chamada “caça às bruxas” do STF, eram também uma retaliação velada, um sinal de aviso a essas tendências político-econômicas.
Segundo, a evidente estagnação econômica do bloco europeu e o lento crescimento dos EUA contrastam com o crescimento acelerado dos países ligados ao BRICS, ao mesmo tempo em que o país imperialista precisa investir anualmente algo próximo dos 900 bilhões de dólares em fomento militar, tendo a manutenção de mais de 800 bases espalhadas pelo globo; ameaçam constantemente as bases da hegemonia econômica e bélica dos país. O financiamento tecnológico para a manutenção da hegemonia bélica através do complexo acadêmico-industrial-militar, fortemente financiado pelos privilégios da hegemonia do dólar agora ameaçado, escorre para o capital privado das Big Techs que passam a exercer maior poder político nas decisões do Estado americano.
Para agravar essa situação, o déficit orçamentário e a rolagem da dívida norte-americana somam-se a cada ano. Como se já não bastasse, a relação cada vez mais simbiótica do governo Trump com as Big Tech expõe o Estado à volatilidade de uma possível bolha tecnológica, como é possível com o caso das IAs. Situações desesperadoras…
Esse novo ciclo de crises da hegemonia imperialista desencadeia a atualização das mais diversas teorias: desde uma atualização do mundo multipolar até a retórica anti-imperialista datada, sem contextualizar a realidade material do século XXI. Não nos enganemos, o imperialismo jamais “saiu de moda” na prática, talvez apenas na retórica de alguns ativistas e acadêmicos. Hoje estamos vendo-o arregaçar as mangas novamente para exercer o que sempre se prestou onde considera seu quintal: utilizar da violência direta e inescrupulosa para impor seus interesses globais. Não podemos nos dar ao luxo de seguirmos reféns de um ideal “moderado” ou de ilusões como o direito internacional, nem mesmo seguirmos encantados com um teatro de sombras ou com o labirinto de espelhos das opiniões em pílulas midiáticas digitais. É preciso abandonar os pressupostos (neo)liberais e de fato pensar a construção de uma agenda anti-imperialista para o século XXI, antes que seja mais tarde do que já é.
(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador no Centro de Formação.























