Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
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Eram 7h da manhã de 29 de julho quando a reportagem de Opera Mundi desembarcou no aeroporto de Bagdá. O local costuma ter um fluxo de passageiros reduzido devido à recente abertura do Iraque a nacionalidades estrangeiras após um período de isolamento internacional marcado por disputas territoriais com o grupo terrorista Estado Islâmico (ISIS). Na ocasião, porém, o terminal de desembarque encontrava-se cheio de viajantes ao chegar à capital iraquiana.

Na quinzena que antecede o Arbaeen, feriado religioso xiita, o aeroporto apresenta uma movimentação excepcional de aproximadamente sete a oito mil passageiros por dia, segundo o diretor de Residência e Passaportes do aeroporto internacional de Bagdá, Ahmad Al-Kinani, à mídia estatal INA.

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A grande maioria dos passageiros em questão são peregrinos xiitas que vêm ao Iraque para o Arbaeen. O evento está previsto para culminar no dia 4 de agosto deste ano, mas não tem data fixa no calendário gregoriano. Isto ocorre pois o islamismo se baseia no calendário lunar, cuja contagem difere do calendário solar e, por isso, apresenta pequenas variações anuais.

O nome do feriado, em árabe, significa “quarenta” e é marcado pelo quadragésimo dia após a comemoração anual do martírio do Imã Hussein, neto do profeta Maomé, que foi morto na histórica Batalha de Karbala. A prática fúnebre está associada a uma tradição enraizada no islã xiita: a família de Hussein visitava seu túmulo, no local de seu falecimento, somente após 40 dias de luto. Segundo a tradição que acompanha esta vertente da religião, este é o período necessário, por meio de orações, para que a alma do falecido entre em estado de paz. Esse costume não ocorre em outras vertentes do islã, como o sunismo.

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O significado por trás da Batalha de Karbala, que marca o xiismo enquanto vertente religiosa, repousa no combate à injustiça e corrupção. O contexto do confronto se baseia na decisão do Imã Hussein de não se curvar perante a liderança do califa Yazid I, que herdou o poder do califado Omíada de forma hereditária, violando a regra de sucessão que, até então, era baseada em mérito, consulta pública e eleição entre os membros mais influentes da comunidade. Os princípios de Hussein são invocados na busca do povo adepto ao xiismo por resiliência, que em face da ofensiva estadunidense, recai nos mesmos princípios refletidos pelo imã: a justiça e responsabilidade perante o poder.

peregrino xiita no Arbaeen em 2026

Peregrino xiita parte de Najaf para Karbala, durante Arbaeen
Rogger Oliveira

Maior peregrinação do mundo

A peregrinação ocorre da cidade de Najaf até Karbala, onde os fiéis percorrem, a pé, aproximadamente 88 quilômetros por um período estimado de três dias. A caminhada pode partir de cidades mais distantes, como Basra, no sul do país, e durar uma ou duas semanas a mais, mas sempre passando pelo ponto de início oficial, que é Najaf.

A escolha do ponto de partida não é coincidência: Najaf é o lugar onde o Imã Ali, genro do profeta Maomé, descansa no santuário que leva seu nome. O percurso simboliza, portanto, a trajetória de um pai que vai até o filho para pagar tributo à sua vida póstuma.

A reportagem de Opera Mundi se deslocou de Bagdá até Najaf no intuito de acompanhar a peregrinação, que reúne entre 20 e 25 milhões de pessoas, sendo assim, a maior peregrinação anual do mundo. O evento é marcado pela convergência entre tradição e comunidade, representada pela ação conjunta de fiéis que, pela estrada que conecta ambas as cidades, distribuem água, preparam refeições e abrigam os peregrinos em seus lares para passar a noite – tudo gratuitamente. O esforço conjunto ocorre para que todos os envolvidos assegurem a capacidade de cumprir com a missão de pagar tributo a Imã Hussein.

Grande parte dos xiitas presentes vêm do Irã, país no qual a população majoritariamente integra esta vertente da religião. A comemoração ocorre em paralelo à escalada da guerra com os Estados Unidos, que se iniciou oficialmente em 28 de fevereiro deste ano. Na data, o governo de Donald Trump, junto a Israel, bombardeou diversas partes do território iraniano com o pretexto de interromper a continuidade do programa nuclear do país.

procissão fúnebre em Nafaj, no Iraque

Procissão fúnebre homenageia mártires de ataque estadunidense ao Iraque na madrugada do dia 29 de julho
Rogger Oliveira

Iraque atacado

Ainda na quarta-feira (29/07), em decorrência da retomada dos ataques dos Estados Unidos ao Irã, e a resposta contra bases militares norte-americanas na região, que a coalizão estadunidense-saudita bombardeou instalações das Forças de Mobilização Popular (PMF) em diversas áreas do Iraque, incluindo Bagdá, Basra e Karbala, onde se concentra a peregrinação do Arbaeen.

Os bombardeios mataram 20 membros do grupo paramilitar e deixaram ao menos 32 feridos. O ataque foi reivindicado pelos Estados Unidos como uma resposta às supostas ofensivas com drones do PMF, grupo apoiado pela República Islâmica do Irã, contra tropas norte-americanas no Oriente Médio e estruturas energéticas sauditas. As Forças de Mobilização Popular iraquianas negam qualquer envolvimento nos ataques e classificam a resposta como infundada e passível de retaliação severa.

No dia seguinte, na quinta (30/07), Opera Mundi acompanhou a cerimônia fúnebre que homenageou os mártires das Forças de Mobilização Popular mortos no ataque A homenagem ocorreu em conjunto com o Arbaeen: fiéis se reuniram no santuário Imã Ali, em Najaf, para carregar os caixões dos mártires, em procissão, até o interior da mesquita. Na ocasião, os xiitas ali presentes clamaram em uníssono por justiça e pelo fim das agressões americanas e sionistas na região.